Neste momento são várias as iniciativas em curso no espaço virtual, nomeadamente nos blogues Local do Crime, Repórter de Ocasião, A Página dos Enigmas e Momento do Policiário, superiormente acompanhadas e divulgadas no site Clube dos Detectives, do confrade Daniel Falcão. Naqueles quatro blogues decorre alternadamente a publicação dos problemas que constituem o Torneio do Cinquentenário do Mistério… Policiário (MP/MA), cujo quarto original foi hoje publicado no blogue Momento do Policiário (momentodopoliciario.blogspot.com), que fica a aguardar o envio das respetivas propostas de solução até à última badalada do dia 30 de abril.
Entretanto, aguarda-se a todo o momento a publicação da solução de autor do problema n.º 3 deste torneio, pode ser acedida através dos quatro blogues acima referidos e do site Clube de Detectives (clubededetectives.pt), onde serão divulgadas as pontuações obtidas por todos os participantes, bem com as classificações atualizadas nas disciplinas de decifração (geral, as melhores e as mais originais). Mas, até lá, as atenções estão viradas para dois outros blogues.
No blogue A Página dos Enigmas (apaginadosenigmas.blospot.com), prossegue no próximo dia 10, o Torneio “Quem é?”, iniciativa que tem por suporte questões relacionadas com literatura policial. Por outro lado, no blogue Momento do Policiário prossegue também, mas no próximo dia 15, o torneio de decifração policiária “Português Suave”, iniciativa que visa sobretudo a captação de novos praticantes para a modalidade, mas aberto à generalidade dos policiaristas.
E hoje, por aqui, publica-se, extraconcurso, a primeira parte do vigésimo conto de “Um Caso Policial no Natal”, que pretende homenagear uma confreira que nos deixou recentemente.
“Um Caso Policial no Natal” – VIGÉSIMO CONTO (EXTRACONCURSO)
SONHOS DE NATAL, de Madame Eclética
I– PARTE
Amélia era uma miúda estruturalmente alegre e desempoeirada, uma morenaça muito gira e dada à brincadeira. Espalhava o seu charme pelas redes sociais, onde foi conquistando seguidores atrás de seguidores sem temer que aquela sua aventura pelo mundo virtual viesse a degenerar numa qualquer invasão indesejada da sua vida privada. Até que um dia começou a ser assediada por um grupo de tarados que se autointitulavam “Sonhos de Natal”. Primeiro, começaram com uns piropos pueris e aparentemente inocentes, para depois se insinuarem com uns convites de cariz sexual, primeiro um pouco brejeiros e mais tarde ordinários e pornográficos, em qualquer das três contas por ela geridas nas redes sociais. Mas de nada valeu a sua pronta e forte reação contra aquelas atitudes nem o subsequente bloqueio das indesejáveis criaturas.
Os contactos passaram a ser feitos através do telemóvel e do telefone de rede fixa, sem que se percebesse como aqueles tarados conseguiram ter acesso aos respetivos números. Amélia deixou de atender as chamadas de números desconhecidos ou anónimos e as mensagens escritas passaram a ser a ferramenta de assédio, com uma catadupa de insultos e ameaças. Face a este comportamento, ela denunciou-os à polícia. Mas ao contrário do que se esperava, o resultado foi desastroso. É verdade que os telefonemas, as mensagens e os comentários nas redes sociais terminaram, mas eles passaram a esperá-la, em grupo, à porta de casa e do emprego, limitando-se a sorrir e a soltar frases de cariz sexual, como “és boa com’ó milho, meu pintainho”, “comia-te toda, minha pombinha”, “lambia-te dos pés à cabeça, meu chupa-chupa de chocolate.”
Amélia deixou de trabalhar, enfiou-se em casa, não saía com ninguém e mal comia. As noites eram muitas vezes passadas em claro ou assombrada por pesadelos, quando conseguia pregar olho, acordando nessas alturas em sobressalto e encharcada em suor, tremendo que nem varas verdes. De manhã, mais ou menos à hora em que habitualmente saía para o emprego, quando olhava pela janela, encoberta pelas persianas de seu quarto, lá estavam os “Sonhos de Natal”. Invariavelmente, eles ficavam estacionados na rua defronte da casa dela, encostados à parede de olhos fixos na sua janela. E só desmobilizavam quando a polícia chegava junto deles, a seu pedido. Mas mal os agentes voltavam costas, lá vinham de novo os rapazes, como se não tivessem mais nada que fazer na vida a não ser incomodar a rapariga, que não sabia como agir.
Após frequentes apelos da mãe, Amélia abandonou de vez as redes sociais, onde era massacrada com frequentes provocações de teor sexual por amigos dos “Sonhos de Natal”. E aos poucos voltou a sair de casa, sempre na companhia de uma prima, um pouco mais nova, para se distrair em locais fora da cidade ou cumprir as consultas técnicas especializadas a que fora aconselhada. Nos intervalos em que a polícia punha os rapazes com dono, saíam ambas de casa e corriam para o lado oposto ao sítio por onde eles haviam fugido, diretas à estação de metro do Jardim do Morro. Aí, encobertas pela cobertura-abrigo da estação, esperavam calmamente até chegar as carruagens que as levavam a São Bento ou a Santo Ovídio. De São Bento rumavam a Espinho ou a Aveiro; de Santo Ovídio o destino era sempre um prédio azul da rua Soares dos Reis.
No terceiro andar daquele velho prédio da rua Soares dos Reis, dava consultas de psicologia um jovem muito bem-parecido, recentemente formado, com fama de ser muito competente. Num desses dias de consulta, a priminha da Amélia ficou na sala de espera, como sempre acontecia, enquanto ela entrava no consultório do Dr. Paulo Mamede. Cabelo loiro comprido, com melenas caindo sobre as sobrancelhas espessas que encimam os seus brilhantes olhos verdes, um sorriso permanente nos lábios carnudos bem desenhados e uma voz cava e melodiosa. O sol entrava pelas altas janelas do consultório, dando ainda mais brilho ao rosto moreno do psicólogo, que esperava sentado a sua paciente, com as mãos pousadas sobre o tampo da secretária pejada de livros. Amélia avançou até ele, que lhe apontou a cadeira em sua frente, onde se sentou.
As pernas de Amélia tremiam, as mãos suavam e o rosto ruborizava, o que sempre acontecia nestas consultas. Esta era a terceira vez que o psicólogo a ouvia e ela já não sentia que conversava com um técnico de saúde. A conversa desta feita foi sobre música, sobre os seus gostos musicais mais propriamente. E ficou a saber que ele tinha mais uma coisa em comum com ela. Gostava de jazz! Tal como ela, tinha um especial prazer em ouvir Miles Davis, Bille Holiday, Chet Baker e Ella Fitzgerald, nomes maiores deste género musical criado no início do século XX pela comunidade negra de Nova Orleans. Disse ele que era um gosto herdado de seu pai e que tinha uma preciosa discoteca de vinil composta por temas jazzísticos, acabando por convidá-la a ouvi-los em sua casa, numa tarde em que não tivesse consultas, nomeadamente a um sábado.
(continua na próxima edição)