VENID A VER LA SANGRE POR LAS CALLES…

A primeira vez que li e ouvi esta frase senti o arrepio de um espectador longínquo, incapaz e impotente num território distante. O poema de Pablo Neruda é tao impactante como as imagens da Guernica de Picasso. Só um espectador próximo (e Neruda foi) poderia ser capaz de descrever um cenário como aquele que se viveu na guerra Civil Espanhola.

 

Espanha sempre nos foi muito próxima por motivos naturais, crescemos herdeiros num mundo ibérico dominado pelo castelhano e pelos relatos e convívio de republicanos e emigrantes que fizeram do Chile a sua segunda pátria.

 

As últimas eleições em Espanha e os seus resultados já estão a fazer efeito; já populares e vox se dão a mão, assaltando o governo central para retroceder com as leis aprovadas pelo governo socialista.

A direita não tem vergonha. Querer voltar atrás com a Lei da Memória, quando já se iniciaram a recuperar as ossadas das víctimas de Cuelgamuros, chamado Vale dos Caídos pelo regime franquista.

 

Me pergunto quanto se pode voltar atrás neste processo (?), e esquecer os quase meio milhão de mortos numa das guerras mais cruentas em Europa? … Poderemos esquecer o Holocausto, a Guerra da Jugoslávia, e os presentes conflictos que nos assolam e cercam na proximidade das nossas fronteiras?

 

 

Há dias se cumpriram 125 anos do nascimento de Federico Garcia Lorca (Fuente Vaqueros, Granada, 5 de junho de 1898), a primeira e mais simbólica víctima da Guerra Civil. Afortunadamente a dimensão deste poeta universal é de tal ordem, que não poderá haver governo populista-franquista-voxista que o faça esquecer. Ele como os grandes de Espanha não tem fronteiras, não tem país, tem uma língua e uma poesia que nos ultrapassa a todos, que nos comove, que nos inunda, e que faz de nós seres testemunhas de uma época que foi a sua, a do poeta, e nossa, mas que é eterna.

 

A exumação forense de 128 vítimas do Vale Cuelgamuros (antigo Vale dos Caídos) começou na passada segunda-feira (12.06.2023) na Comunidade de Madrid. Na cripta da capela do Santo Sepulcro, no nível 0, encontram-se os restos mortais dos primeiros 18 corpos reivindicados por familiares das víctimas, incluindo os irmãos Lapeña, naturais de Villarroya de la Sierra (Saragoça).

 

O antigo Vale dos Caídos, rebatizado de Valle de Cuelgamuros após a nova lei da Memória Democrática, também foi o local de sepultura dos restos mortais do dictador Francisco Franco e do fundador do partido fascista, Falange espanhola, José Antonio Primo de Rivera.

 

Ambos já foram retirados do lugar; Franco em 2019 por ordem do Governo, e Primo de Rivera este ano, em aplicação da lei.

 

O monumento, que inclui uma basílica, localizado perto de Madrid, foi mandado construir pelo ditador após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e se tornou um símbolo do franquismo, e é considerada a maior vala comum da Espanha.

 

Ai descansam, se podemos utilizar esta palavra, (pois não haverá descanso possível!) enterrados 33.833 restos mortais de víctimas de ambos os lados da guerra (defensores da república e rebeldes), dos quais quase 15.000 não foram identificados, a maioria do lado republicano, cujas famílias reivindicam seus restos mortais.

 

Menciono Harold Pinter, recordando as palavras do dramaturgo inglês, que no seu discurso de agradecimento na entrega do Premio Nobel da Literatura, referendo-se ao poema inicialmente citado, disse:

 

Cito Neruda porque na poesia contemporânea não encontrei nenhuma descrição mais poderosa e visceral do bombardeio de civis.”

 

(fragmento do Discurso de Harold Pinter ao receber o Prêmio Nobel de Literatura de 2005)

 

(*)

“…Preguntaréis  por qué su poesía
no nos habla del sueño, de las hojas,
de los grandes volcanes de su país natal?

Venid a ver la sangre por las calles,
venid a ver
la sangre por las calles,
venid a ver la sangre
por las calles!”