O avô do meu amigo Manuel Vieira, o senhor Joaquim Magalhães (1892), natural do Marco de Canaveses, fazia anos no dia 24 de Abril. Aproveitando o dia feriado do dia seguinte, a sua filha D. Maria Rosa da Costa Magalhães, celebrava o aniversário numa reunião que se estendia pela noite dentro. Em várias ocasiões estive presente nessas celebrações mas quero falar da última, a noite do dia seguinte do aniversário número 102.

Nessa velada e sentado à mesa o Sr. Joaquim narrou a sua experiencia na frente de França na Grande Guerra, aquela que pela sua dimensão passaria a ser denominada mais tarde a I Guerra Mundial.

No decorrer da noite, e enquanto o Manuel Viera registrava em vídeo o depoimento, surgiram os relatos das trincheiras; os gases tóxicos, as feridas e o hospital, e ao que parece também um namorisco com uma enfermeira. Da participação de Portugal nessa guerra podemos resgatar que; “segundo estimativas, morreram a 9 de Abril de 1918 na Batalha de La Lys, na Bélgica, 1341 soldados portugueses, 4626 foram feridos e 7440 foram feitos prisioneiros, de um total de 2100 baixas lusas contabilizadas no conflito. Do Corpo Expedicionário Português,1831 corpos de soldados estão sepultados no cemitério militar português de Richebourg, o único cemitério de França exclusivamente português.”

Lembro esse momento com um intenso sentimento de profunda admiração, quando pensamos que o País não estava preparado para a guerra e aqueles jovens partiram para ser literalmente carne de canhão. No cinema, este ano, Sam Mendes, realizador britânico, narra em “1917”, filme passado na Primeira Guerra Mundial, as histórias que o seu avô, de ascendência portuguesa, lhe contou. A história acompanha a dois soldados britânicos encarregues de uma delicada e difícil missão: atravessar território inimigo para entregar uma mensagem que pode salvar a vida a 1600 soldados, incluindo o irmão de um deles.

“A primeira vez que eu entendi a ideia da guerra foi quando o meu avô me contou as suas experiências na Primeira Guerra Mundial. Este filme não é uma história sobre o meu avô, é antes sobre o seu espírito – o que estes homens passaram, os sacrifícios, a ideia de acreditar em alguma coisa maior do que eles mesmos.”

Num filme épico, intenso no qual se aplica um formato de quase um único plano sequencia criado através da filmagem de pequenas sequências, seguimos o deambular destes dois soldados, heróis anónimos num dantesco cenário de guerra. De destacar no filme o único momento de interior, no qual um dos soldados encontra uma jovem refugiada nas ruinas de uma cidade, uma jovem que cuida uma criança que não lhe pertence e para a qual o soldado recita um belo poema como se de uma canção de embalar se tratasse. O poema é de Edward Lear (1812-1888), ilustrador e poeta inglês, contemporâneo de Lewis Carroll, que usou o humor como arma de crítica social, criticando os delírios de grandeza imperial da vida inglesa no reinado da Rainha Vitória.

Os Jumblies, título do poema pode ser entendido como uma sátira aos que buscam uma terra utópica. A palavra é uma criação verbal, um neologismo, a qual ele dá uma significação universal, suscetível de atualização para todos os contextos em que aquele delírio se manifeste.O avô de Sam tinha 19 anos de idade em 1917 altura em que se alistou no exército britânico. De baixa estatura, foi-lhe entregue a função de mensageiro, “tinha de passar mensagens de posto para posto, correndo o mais rápido possível pela orla das trincheiras sem ser visto pelo inimigo, situado do outro lado da “terra de ninguém”. O avô do Manel não chegou a celebrar o 103 aniversário! Nas guerras poderíamos dizer que não há vencedores nem vencidos todos somos perdedores, tendo perdido a oportunidade do silêncio e da paz para embarcarmos na viagem utópica e absurda a bordo de uma peneira como no poema de Lear; “Eles foram para o mar, numa Peneira; eles foram; Numa Peneira eles foram para o mar: Apesar do que  todos os seus amigos pudessem dizer, Numa manhã de Inverno, num dia tempestuoso, Numa Peneira eles foram para o mar.”

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