943 EUROS POR MÊS E O SONHO IMPOSSÍVEL

Recentemente tentei simular a compra de uma casa. Nada de luxo — só um espaço para pôr um sofá, uma cama e um pouco de esperança. Resultado? Parecia que estava a tentar entrar num clube como o Bilderberg — daqueles onde só entra quem tem contas bancárias com mais zeros do que a esperança da maioria da população.

Vamos aos factos: segundo o Rendimento e Condições de Vida – 2024 (INE), o rendimento mediano nos Açores é cerca de 943 € por mês. Num casal mediano, dá uns incríveis 1 886 € líquidos. Para nos darem um empréstimo o Banco de Portugal diz que a prestação da casa não deve ultrapassar 30% do rendimento, limitando a prestação a 566 € por mês.

Com juros a 3,5%, isso permite obter um crédito bancário de aproximadamente 126.000 €. No entanto, ainda exigem que tenhamos 10% para entrada, o que dá umas poupanças de 14.000 €. Em resumo: metade da população só consegue comprar casas até 140.000 €, e se tiver aquelas poupanças no bolso. Todos os que têm pouco mais que umas moedas no carro, bem podem continuar a sonhar.

E agora vem o detalhe cruel: no concelho de Ponta Delgada, casas a esse preço são criaturas mitológicas — praticamente invisíveis. O Idealista mostra, em agosto de 2025, 10 anúncios, nenhum pronto a habitar, que ou são ruínas ou casas ilegais. Sem telhado, mas com “potencial” (leia-se: buracos), paredes com “personalidade” (ou rachas) e colónias de fungos que mais parecem inquilinas permanentes. Boa sorte em convencer o banco a financiar estes “castelos de escombros”.

E o que fazem os nossos governantes? Um silêncio confrangedor e o eterno desporto nacional: culpar quem tinha o poder anteriormente. “Está tudo caro porque o outro não fez nada.” Meus caros governantes, TODOS vocês estão cá há pelo menos quatro anos — tempo mais do que suficiente para pelo menos comprar uma calculadora. Foram eleitos para resolver problemas, não para empurrar a bola para o lado ou para sessões de PowerPoint sem fim.

Entre 2007 e 2010, Ponta Delgada viu nascer cerca de 600 habitações de custos controlados e habitação social. Hoje? Lançam concurso para 17 e fazem mais barulho do que as roqueiras das festas de verão. E esperemos que a execução dos fogos prometidos seja mais rápida do que aquela a que assistimos no triste espetáculo do Mercado da Graça. Apresentam-se “visões estratégicas” em PowerPoint, e entretanto os jovens continuam a viver na casa dos pais… tendo eles já filhos!

E os construtores? Desaparecidos. Faltam profissionais e empresários que construíam em quantidade. Temos de ter mais pessoas no setor! Que tal isentar os trabalhadores da construção civil do IRS e da Segurança Social durante 10 anos? Aumentava-se instantaneamente o salário real e atraía-se gente para o setor, o que a médio prazo poderá levar a um boom na construção, consequente redução de preços de mercado e a uma maior acessibilidade a todos.

A realidade é dura: o mercado está cheio de casas tipo BMW, mas o país precisa de Dacias habitacionais — que sejam acessíveis, práticos, e não seja necessário vender um rim. Enquanto não houver coragem para mudar, 75% da população fica de fora de 90% do mercado imobiliário — enquanto as ruínas e as casas ilegais ficam a rir da nossa cara.