O PARADIGMA DA GUERRA E O DECLÍNIO MORAL

Todos temos noção de que, quando nos referimos a um conjunto de crenças ou métodos que orientam a forma como pensamos ou agimos, moldando a compreensão do mundo, temos por hábito usar o termo paradigma, ou seja, interpretamos a realidade estabelecendo o que é aceitável ou considerado normal numa determinada época ou área.

Con­fron­tados com uma re­sis­tência que não es­pe­ravam, tanto Estados Unidos como Is­rael con­ti­nuam a agressão ao Irão, ao mesmo tempo que os seus in­te­resses são se­ri­a­mente postos em causa pelas me­didas de­fen­sivas ira­ni­anas, de tal forma que nem a ridícula pretensão do presidente norte americano de chamar ao Estreito de Ormuz Estreito Trump consegue mudar os acontecimentos.

Há dias e du­rante a ma­dru­gada, cerca de 30 co­lonos is­ra­e­litas mas­ca­rados e ar­mados in­va­diram uma pro­pri­e­dade em Humsa, no norte do Vale do Jordão, agre­dindo mem­bros de uma fa­mília e ac­ti­vistas da so­li­da­ri­e­dade in­ter­na­ci­onal com a Pa­les­tina que lá se en­con­travam entre os quais um cidadão português que pre­cisou de tra­ta­mento hos­pi­talar.

O in­cre­mento da vi­o­lência co­lo­nial sobre o povo pa­les­ti­niano na Cis­jor­dânia é le­vado a cabo no mo­mento em que o go­verno is­ra­e­lita pros­segue a cons­trução de novos co­lo­natos ilegais na Cis­jor­dânia e na Faixa de Gaza foram as­sas­sinados mais quatro pa­les­ti­ni­anos e feridos dez, além de em outro ataque no campo de refugiados de Nuseirat terem sido mortos três polícias e feridas mais dez pessoas, ou seja, se­gundo as au­to­ri­dades de Saúde do ter­ri­tório e desde o cessar fogo, mais de 670 pa­les­ti­ni­anos da Faixa de Gaza foram as­sas­si­nados por Is­rael.

Por outro lado, a re­la­tora es­pe­cial das Na­ções Unidas para os ter­ri­tó­rios pa­les­ti­ni­anos ocu­pados, Fran­cesca Al­ba­nese, di­vulgou um novo re­la­tório, que en­quadra a prá­tica de tor­tura de pa­les­ti­ni­anos por Is­rael como uma «ca­rac­te­rís­tica es­tru­tural do ge­no­cídio is­ra­e­lita em curso e do apartheid co­lo­nial».

No outro lado do Atlântico, o cerco e a agressão mi­litar de 3 de Ja­neiro à Venezuela, que re­sultou na morte de mais de uma cen­tena de pes­soas, a des­truição de infra-es­tru­turas e o rapto do pre­si­dente Ni­colás Ma­duro e da esposa, de­pu­tada Cilia Flores, co­lo­caram a Ve­ne­zuela bo­li­va­riana sob forte pressão, pois ao cerco mi­litar e aos graves cons­tran­gi­mentos à eco­nomia pro­vo­cados pelas cen­tenas de me­didas co­er­civas uni­la­te­rais im­postas pelos Estados Unidos , soma-se o con­trolo da ex­por­tação de pe­tróleo ve­ne­zu­e­lano.

Porém, este declínio moral não fica por aqui, agora Cuba também está na lista estado unidense

com ameaças de intervenção e incremento das sanções económicas ao País que resiste heroicamente, contando com a solidariedade de vários países como Portugal que através da Associação de Amizade Portugal-Cuba enviou um con­tentor com 11 to­ne­ladas de ma­te­rial re­co­lhido so­li­da­ri­a­mente em Por­tugal, no âm­bito da cam­panha «Por Cuba! Fim ao Blo­queio!», a par da China e da Rússia que também já prometeram ajuda em produtos petrolíferos.

Perante este preocupante panorama global, vem-nos à memória o seguinte texto de Bertolt Brecht: «Num tempo de agu­di­zação da luta de classes, da ex­plo­ração, da crise do ca­pi­ta­lismo que lança uma vez mais sobre os povos as garras do fas­cismo, da guerra, da des­truição, do au­mento do custo de vida, a quem in­te­ressa que esta re­a­li­dade, e suas vis con­sequên­cias na vida de todos, apa­reça aos nossos olhos como ine­vi­tável, como algo que não pode ser de outra ma­neira? A quem in­te­ressa es­conder que as ac­tuais re­la­ções de opressão podem ser trans­for­madas? Lo­gi­ca­mente, as ideias de imu­ta­bi­li­dade e ine­vi­ta­bi­li­dade servem a quem impõe que o mundo con­tinue assim, ou seja, aos que do­minam eco­no­mi­ca­mente e, por isso, cap­turam também o con­teúdo pro­du­zido com as fer­ra­mentas e os meios da pro­dução cul­tural que são, em larga mai­oria, também por eles de­tidos».