Enquanto eu viver, nunca será demais recordar os tempos que me levaram a conhecer Moçambique e o seu povo, apesar de discutíveis (sem dúvida) as razões que nos lá levaram, integrados na Companhia de Caçadores nº1.654, capitaneada por José Manuel Campos, um nortenho de Leça do Balio, no município de Matosinhos. As razões da nossa partida nunca serão consensuais. Ainda assim, a verdade é que o Batalhão nº1.906, liderado por um beirão de “raça” que já nos deixou (Coronel Guardado Moreira), originário da Zebreira, no Município de Idanha-a-Nova, na Beira Baixa, logrou cumprir escrupulosamente tudo o que dele se esperava, ainda que nem todos os camaradas de armas tenham regressado com vida, motivo mais que suficiente para recordarmos para sempre (e em silêncio) a figura daqueles camaradas que “regaram” com o seu sangue aquela terra distante, fruto do sentimento patriótico que a Nação Portuguesa um dia exigiu de nós.
No meio destas duas datas, mesmo sem nos apercebermos, muitas coisas nos terão proporcionado a abertura de novos horizontes de conhecimento – desde os mais simples aos mais complexos – outras terão ficado por esclarecer, pelo simples facto de, pelo menos aparentemente, dois anos terem passado de forma tão rápida. Ainda assim, pela parte que me toca, hoje sinto-me feliz por ter cumprido um dever cívico de cidadania, reconhecendo ao mesmo tempo, que regressei a casa um cidadão mais completo, nos horizontes que para mim se abriram, assim como nas múltiplas realidades sociais que não conhecia e desta forma tive ensejo de conhecer, ainda que reconheça que em termos humanos, existem certas áreas da vida em que o limite será sempre uma miragem. Fisicamente, é inegável que, apesar de termos tido obstáculos imprevistos, todos teremos regressado a casa mais completos e conscientes da nossa lusitanidade na defesa do todo nacional.
Em termos de distribuição física, pode dizer-se que estivemos longe de conhecer o território moçambicano em toda a sua extenção, tarefa que seria ciclópica, se tivermos em conta a vasta dimensão territorial da actual República de Moçambique, que cobre uma vasta parcela física, na costa oriental de África, em pleno Canal de Moçambique, (a longitudinal República de Madagáscar fica-lhe em frente, no denominado Canal de Moçambique, mas a várias centenas de Klms) desde a Tanzânia a norte, até à fronteira sudoeste com a antiga Suazilândia, quase no extremo sul do próprio Continente Africano. Apesar disso, a verdadeira noção que trouxemos desta vasta nação “irmã” do sudeste africano, no âmbito da Lusofonia, apresenta-nos uma extensa fronteira terrestre multifacetada, com proximidade nos mais diversos pontos do território, tendo por vizinhança países como Tanzânia, Zâmbia, Malawi, África do Sul e Suazilândia, com inúmeras ligações de vizinhança afável, uma condição sempre benéfica para o desenvolvimento de relações amistosas e “fraternas” entre os povos.
“Vale do Rio Limpopo” e Palmares da Zambézia
A referência ao rio, assim como ao Vale do Limpopo, só aparece no texto um pouco mais tarde, apenas por uma questão temporal. Com efeito, a CC 1.654 já vinha de uma experiência anterior, lá no Norte, no Niassa, com a fixação do comando do Batalhão em Marrupa e a nossa Companhia (1.654) na vila de Namicunde, área de Metarica, já em plena zona administrativa de Marrupa. Por isso, a referência ao Limpopo visa citar apenas o último domícilio da CC 1654, o (Chibuto), em cuja vila, uma vez chegados, se começaram a pensar e a fazer os preparativos para o regresso ao ponto de partida (a Metrópole), que ocorreu precisamente em finais de Fevereiro do mesmo ano (1.969), ou seja, dois anos após a saída de Lisboa. Assim sendo, tal como Namicunde à chegada, o Chibuto foi o “tubo de ensaio” para o início dos preparativos do regresso que todos ansiávamos.
Acresce referir, todavia, que a vila do Chibuto, já na província de Gaza, bem próxima do fértil Vale do Limpopo, era uma comunidade predominantemente agrícola, pacífica e próspera, distante das grandes movimentações da guerrilha, por motivos óbvios, a distância que a separava do norte, onde a actividade guerrilheira usufruía de condições adequadas para uma actuação mais intensa. Contudo, não terá sido por mero acaso que esta zona adjacente ao rio Limpopo sempre foi vista pelos observadores como o “Celeiro da Nação Moçambicana”, sobretudo pelos índices de produção agrícola afectados ao próprio rio.
Quanto aos Palmares da Zambézia, no “coração” do País, estão localizados numa das províncias centrais da nação moçambicana, sendo historicamente reconhecidos como um dos Maiores Palmares do Mundo, cujo foco consiste na produção de copra (côco), ocupando uma área considerável da região de Quelimane, onde se destacam, extensos palmeirais ultimamente afectados por pragas, com reflexo directo na produção dos frutos.
Honremos a memória dos camaradas que partiram
As últimas palavras deste texto só poderiam ser, invariavelmente, dirigidas à memória dos camaradas que nos deixaram naquela manhã fatídica de Maio de 1968 e que enlutaram toda a Companhia. Até porque, em face do sucedido, qualquer um de nós poderia estar no seu lugar. Foram eles: Soldado José Alberto Fazenda Machado (1º pelotão); Soldado Armando José Gomes (1º Pelotão); 1º cabo Manuel da Conceição Costa (3º Pelotão); 1º cabo Sérgio Artur Veríssimo (4º Pelotão).


