A VILA ALICE E A CASA BARBOT – DUAS CASAS COM HISTÓRIA

São duas casas com uma enorme carga histórica, ambas originalmente residências dos seus respetivos proprietários. Uma foi adquirida pela Câmara Municipal de Gaia em 2007 e a outra passará em breve (?) a ser também património municipal. A primeira, situada nos limites das freguesias de Mafamude e Santa Marinha, chegou a servir o município como sede do pelouro da Cultura, Património e Turismo, à falta de melhor sorte. A outra, situada em Vilar do Paraíso e há muito abandonada à degradação e à ruína, será brevemente objeto de reabilitação e integrada no conjunto de equipamentos culturais Vila Nova de Gaia. Estou a falar, claro, da Casa Barbot, imóvel de Interesse Público desde 1982 e único exemplar de Arte Nova no concelho, e da Vila Alice, propriedade como uma história invulgar nas lutas liberais em Portugal, onde viveu Francisca (Fanny) Owen, uma das filhas do coronel Owen, que Agustina Bessa-Luís imortalizou em livro e Manoel de Oliveira transpôs para o cinema.

Durante o anterior ciclo autárquico, no decurso do último mandato de Luís Filipe Menezes, a Casa Barbot abriu as suas portas ao público como “Casa da Cultura” (?!) após o anúncio da conclusão das obras de “requalificação” realizadas pelo município, mas viria a ser encerrada muito pouco tempo depois, em 2018, na sequência de uma vistoria da Proteção Civil, que considerou que o imóvel apresentava sérios riscos. E dois anos depois, na parte final do segundo mandato do anterior presidente, a Câmara Municipal informa que o imóvel apresenta riscos sérios e que, finalmente, terá a requalificação há muito ansiada, cujas obras, financiadas através de várias fontes, incluindo o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU), terão um custo de 1,6 milhões de euros, estando concluídas, o mais tardar, no primeiro semestre de 2022. E anuncia então que aquele espaço icónico, com tradição e peso a nível cultural, será integrado na rede de equipamentos municipais como polo cultural.

Entretanto, o tempo foi passando e chegamos a 2025 sem que tivéssemos notícia da devolução da Casa Barbot aos cidadãos. Até que, nos primeiros meses deste ano, o município se sentiu na obrigação de explicar as razões de o Imóvel permanecer encerrado: “A sua reabilitação está praticamente concluída” (sic). E a razão do atraso prende-se alegadamente com mais um acontecimento que se vem repetindo em várias adjudicações feitas pelo município ao longo dos últimos mandatos: “O empreiteiro que estava a realizar a empreitada dos jardins abandonou a obra, pelo que terá de ser realizada posse administrativa da mesma e lançado um novo procedimento para efetuar o que falta executar” (sic). E, assim, a Casa Barbot permanece fechada, embora se reitere o objetivo de devolver o imóvel à comunidade.

E enquanto este belo exemplar da Arte Nova aguarda uma oportunidade de servir a cidade em todo o seu esplendor, a Câmara Municipal promete dar nova vida à Vila Alice, que se encontra para venda e que tem uma história invulgar que se prende com o século XIX e com as lutas liberais em Portugal. A história desta família começa com Hugo Owen, coronel e conselheiro militar do Rei D. Pedro de Portugal, que iniciou a sua carreira militar em 1803, quando foi capitão voluntário em Thropshire, na Grã-Bretanha, mas só entrou no exército 6 anos mais tarde, em 1809, embarcando logo para Portugal onde foi promovido a capitão pelo marechal Beresford. Participou nas invasões francesas a favor de Portugal e no fim da guerra foi novamente promovido, desta vez a tenente-coronel do regimento de cavalaria n.º 6 de Chaves. Em 1820 recebe o título de coronel e acompanha Beresford numa viagem ao Brasil, regressando no mesmo ano a Portugal, com a Revolução Liberal em curso.

Ainda em 1820, Hugo Owen casa com a filha de um grande negociante de Vinho do Porto, de seu nome Maria Rita da Rocha Pinto Velho da Silva, que acaba por abandonar ao fim de 36 anos de vida em comum, deixando para trás quatro filhos, entre eles a deslumbrante Fanny Owen, que no ano de 1849, na véspera de uma famosa romaria, conheceu dois homens muito importantes na história da sua vida, que terminou num trágico episódio ocorrido na Vila Alice: José Augusto Magalhães e… Camilo Castelo Branco. Que, encantados por Fanny, acabariam ambos por vir morar para Vilar do Paraíso, onde o escritor se dedicou a escrever sobre as paisagens da freguesia e as suas gentes, para além de poemas e cartas inocentes dedicadas à filha do coronel Owen, a que ela não foi indiferente, provocando em José Augusto ciúmes doentios, que mais tarde viriam a ser causa de um desenlace infeliz.

Face à(s) história(s) que a Casa Barbot e a Vila Alice encerram, impõe-se que estas escapem à tentação do próximo executivo municipal de as transformar em meros gabinetes de trabalho político-burocrático e passem a assumir num futuro não muito distante papeis relevantes como espaços de preservação da memória, da cultura e do conhecimento, servindo as populações como verdadeiros catalisadores de pesquisa, inovação e diálogo entre as diferentes gerações. Estes edifícios históricos, para além de constituírem um meio de proteção do património material e imaterial e da diversidade cultural e natural de cada território, devem ser sobretudo lugares de conexão entre o passado, o presente e o futuro, pois olhar o passado é conhecer e aprimorar mecanismos que podem influenciar o presente.