O Mosteiro da Serra do Pilar é um verdadeiro tesouro histórico e arquitetónico, exemplo único de adaptação de modelos civis à arquitetura monástica, que carrega consigo séculos de história e significado. Com inicio de construção no século XVI, a sua localização estratégica no morro da serra, sobre o rio Douro, conferiu-lhe uma grande relevância militar ao longo dos séculos, desempenhando um papel extremamente importante na defesa da região norte e do próprio país, durante os períodos de guerra, nomeadamente aquando das Invasões Francesas e do Cerco do Porto pelas forças absolutistas fieis a D. Miguel, sendo o único ponto dos arredores da cidade Invicta que as tropas liberais de D. Pedro conseguiram manter, situação que foi crucial para dar real suporte à fação sitiada. No entanto, as guerras deixaram o edifício em estado precário, exigindo esforços de reconstrução após aqueles conflitos, o que foi feito para que não se perdesse essa importante memória e seu simbolismo.
A importância do Mosteiro da Serra do Pilar transcende, por isso, a sua riqueza arquitetónica, pelo que no século XX houve o desejo de o tornar num monumento vivo que conectasse o presente com o passado, convidando visitantes, portugueses e estrangeiros, a mergulhar na rica herança cultural e espiritual das cidades do Porto e Gaia, da região norte e de Portugal como um todo. Nessa sequência, a Igreja e o Claustro foram classificados como Monumento Nacional em 1910, enquanto a sala do capítulo, refeitório, cozinha, torre e capela foram classificados como imóvel de interesse público em 1935. E, em 1996, a sua relevância histórica levou a que fosse incluído na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO em 1996, juntamente com o Centro Histórico do Porto e a Ponte Luís I, a que não será estranho a riqueza do conjunto edificado, que abriga uma série de elementos distintos, como a Igreja de planta circular com cobertura em cúpula, a Capela e o Claustro, também de planta circular, além de outras dependências. Destacando-se, porém, o Claustro, deslocado duas vezes durante a sua construção, caracterizado por uma galeria envolvente abobadada sustentada por colunas jônicas e decorada com inspirados elementos ornamentais flamengos.
Porém, apesar da elevada carga história que o Mosteiro da Serra do Pilar sustenta, do simbolismo que encerra e da inexcedível beleza que comportam seus espaços, os programas desenhados (?!) para o cumprimento da sua projetada missão enquanto espaço museológico nunca atingiu verdadeiramente grande significado nem o dinamismo que se justificava. Os sinais de falta de planeamento e improvisação eram notórios, para além da pobreza da oferta expositiva anunciada. A dois dias da inauguração oficial daquilo a chamaram “Património a Norte”, ainda havia muitas mãos a trabalhar para que tudo ficasse pronto, os produtos que seriam vendidos junto à receção ainda não estavam expostos, os militares ainda caiavam escadas e limpavam paredes com jatos de água e a instalação do meios eletrónicos não estava completa. Mas, por fim, lá ficou tudo pronto a tempo da inauguração oficial no dia aprazado.
Num sábado luminoso de 2012, as portas abriam-se finalmente ao público. Os turistas nacionais e estrangeiros, e alguma população residente nas cidades do Porto e de Gaia, que procuravam gozar das deslumbrantes vistas que se alcançam do miradouro do Mosteiro da Serra do Pilar, foram surpreendidos pela presença de vários órgãos de comunicação social e de inúmeros convidados ilustres, e aproveitaram a oportunidade única de descobrir, a custo zero, o interior daquele majestoso monumento redondo, pintado de branco, cuja construção durou mais de cem anos (1537-1692). Estanharam que a entrada não se fizesse pela igreja, mas por uma porta lateral, onde em tempos existiu uma capela, mas lá avançaram calmamente por entre um magote de gente, poupando uns trocos na visita, já que a partir do dia seguinte o acesso iria custar um euro, cuja receita reverteria para os cofres do… Governo.
Passados onze anos, em maio de 2023, eis que o Mosteiro da Serra do Pilar volta a estar encerrado, até data a determinar, para obras de recuperação, requalificação e manutenção, após detetados vários sinais de degradação que são até visíveis do exterior, para as quais existe um financiamento de 1,2 milhões de euros do PRR – Plano de Recuperação e Resiliência. E, como seria de esperar, o assunto acabou por virar tema de campanha, com Luís Filipe Menezes, candidato da coligação PSD/CDS/IL à Câmara Municipal de Gaia, a reclamar para a autarquia a gestão do imóvel, propondo-se transformá-lo num “polo cultural e turístico de referência nacional e internacional”, abrindo a Igreja ao culto, criando dois espaços museológicos nos Salões laterais, dedicando-lhes como temas as Lutas Liberais e as Invasões Francesas, e destinando os Claustros à realização dos mais diversos espetáculos.
A negociação com o Governo da passagem do Mosteiro da Serra do Pilar para a gestão municipal, agora que está garantido o financiamento de obras estruturais do monumento, que Luís Filipe Menezes acusa de estar sujo e abandonado (por quem?!..), não se pode deixar de considerar oportuna e desejável. Só se estranha que nunca o tenha feito durante os seus anteriores mandatos (16 anos!!!), onde já se percebia a “olhos vistos” a existência de patologias no imóvel, apesar das obras (?!) entretanto realizadas pelo Estado, e a pobreza franciscana dos eventos que ali foram sendo realizadas no seu ciclo autárquico…


