“ESTOU DE VOLTA E QUERIA FAZER ALGUMA COISA PELO POVO E POR ESTA REGIÃO”

Colocando a saúde e a educação como as duas áreas prioritárias caso vença as eleições, César Pimentel não quer “abrir o véu” sobre as suas principais ideias e propostas mas, em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, não esconde que a transparência tem de ser essencial. Apesar de admitir que ainda tem de verificar muitas situações, César Pimentel promete ouvir todos os intervenientes do município e trabalhar em prol da população.

 

César Pimentel, quem é?

Primeiro de tudo, sou uma pessoa desta terra, que é o mais importante. Os meus pais eram pessoas deste município, são ambos da Maia, eu, atualmente, vivo no Pico da Pedra e conheço esta ilha muito bem. Sou engenheiro de eletrónica de comunicações, com uma vasta experiência a nível internacional e nacional, com diversas culturas com que trabalhei, vários projetos que liderei, com dezenas de pessoas multiculturais. Mas estou de volta e queria fazer alguma coisa pelo povo e por esta região.

 

Qual o seu trajeto político?

Praticamente nenhum. Fui filiado num partido político por muitos anos, mas, infelizmente, nunca me deram oportunidade de conseguir entrar dentro da dinâmica daquele partido e foi uma das razões pelas quais deixei de ser membro desse partido e, de imediato, tornei-me membro de um partido que também alinha muito com as minhas ideias partidárias e de vida e, com as pessoas desse partido, sabendo que são pessoas que lutam pela mesma ideologia que a minha, estamos muito bem alinhados, fui muito bem recebido, e as oportunidades foram-me dadas e que nunca antes me tinham sido atribuídas.

 

Tendo a atividade profissional que tem, porque se meter neste emaranhado da política partidária e autárquica?

É uma pergunta muito boa e tenho uma boa resposta para lhe dar. Estou farto do mesmo. Tenho 50 anos, e 50 anos na mesma situação. E tenho a oportunidade, com uma força política que está a apoiar-me e com pessoas competentes a apoiar-me, de fazer algo. Estamos a vida toda a alimentar sentimentos de pagarmos muitos impostos, de a vida não correr bem, são sempre os mesmos que lá estão e roubam, como as pessoas costumam dizer, e se eu tenho essa capacidade, se tenho formação, já tive experiências de vida extremamente exigentes e consegui ultrapassá-las, a minha vida é uma só e porque não dar essa oportunidade ao povo de mostrar que sou capaz de conseguir fazer algo por esta região.

 

Que equipa pretende reunir à sua volta?

Pretendia reunir a melhor equipa possível, mas isso é uma utopia muito grande. Vou reunir uma equipa em que confio, isso para mim é o mais importante. Advogados, economistas, e tudo mais à minha volta seria uma lista quase perfeita, mas eu prefiro dar prioridade às pessoas que demonstram honestidade, e pessoas que me deram essa confiança de puderem caminhar neste trajeto comigo.

 

Como analisa os últimos quatro anos de atividade do atual executivo municipal?

É uma pergunta um pouco difícil porque as coisas que se passam dentro do circuito camarário, as decisões que são elaboradas, e é uma das coisas que nós vamos querer muito mais, que é mais transparência no que se passa. Existiram situações que ainda estão em tribunal, certas acusações, e vejo, por exemplo, que a Ribeira Grande necessita de melhorar. Na Festa da Flor, não vejo uma única flor espalhada pela cidade, uma coisa tão simples. O ambiente, existem situações de saúde precárias que precisam de ser melhoradas, será que a Câmara tentou fazer isso, ou não? Será que atingiram os seus limites de capacidade? Muita coisa não foi feita e muita terá de ser feita para conseguirmos por o município a funcionar muito mais e muito melhor.

 

Tem já pensadas as grandes vertentes da sua candidatura?

Tenho. Há duas que são extremamente importantes, a saúde e a educação. Por mais que não queiramos, temos de bater sempre nessas duas, especialmente num município onde temos freguesias com uma precariedade muito grande. Por exemplo, o abandono escolar em Rabo de Peixe penso que atinge os 15 por cento até ao 1º ciclo, e essas coisas não podem continuar a acontecer porque depois cria-se uma reação em cadeia muito grande. O que é que essas pessoas vão fazer? Entram em vícios, vão pedir o Rendimento Mínimo ao fim de alguns anos, e cria-se aqui uma situação que temos de evitar. E a saúde, porque quando falamos com as pessoas, os centros de saúde que faltam, não têm as condições necessárias, os médicos para auxiliar essas pessoas, médicos de família que não são suficientes, é verdade que existe aqui muitas situações que são mais governamentais do que camarárias, mas acho que a Câmara também podia ajudar, e muito, a desenvolver e a contribuir para resolver esses problemas. Há muita coisa que se pode fazer nesse sentido. Mas temos outros temas como o ambiente, por exemplo, a questão dos esgotos diretos para o mar, essas situações não podem acontecer. Estamos a falar de uma Câmara que quer o melhor para a saúde, para o ambiente, e temos de trabalhar para isso.

 

Em concreto, se for eleito, qual é a primeira decisão que toma após chegar à Câmara Municipal?

Primeiro tem de se ver o que se passou por lá estes anos todos. Tem de se verificar o ponto de situação e qual o melhor terreno de ataque. Eu não queria muito abrir o meu plano eleitoral, mas, por exemplo, para a educação, é preciso identificar porque os alunos estão a abandonar, o que podemos fazer contra isto. Eu tenho algumas ideias, porque não adaptar o nosso ensino regular a um ensino específico, onde essas pessoas que não têm paciência para toda aquela teoria, misturar esse ensino específico com um ensino mais prático. Fazer desporto, eventos, aulas de natação por exemplo, coisas diferentes de forma a que esses miúdos que não querem saber da escola para nada, e depois há a situação difícil em que há pais que os querem retirar da escola para trabalhar, mas se houver algo que os motive a permanecer nas escolas, se calhar, diminuímos o abandono escolar.

 

Como é que cativa uma criança a estudar, ou um jovem a ir trabalhar, se ele olha à volta e vê que o avô nunca trabalhou, os pais também não? Porque esta é a mentalidade reinante naqueles que não vão trabalhar… como é que resolve este problema?

Mas essas pessoas que não vão trabalhar, que nunca trabalharam, estão a alimentar-se de alguma coisa.

 

Sim, do RSI e da economia paralela, trabalhando e não descontando…

Está a obrigar-me a abrir novamente o véu sobre algo que estou a planear. Se isto for exposto aos outros partidos, eles, se calhar, vão querer copiar. Mas digo claramente que não tenho o populismo que certos partidos têm de dizerem que acabam com tudo e depois não dizem qual é a solução. Vamos deixar essas pessoas passarem fome? Não é por aí. Acho que melhor do que dar-lhes o peixe, é ensiná-los a pescar. A ideia é continuarem sim a receber, mas prestar contas do que está a receber. Não podemos andar a dar este dinheiro mensal ou bianual e esperar que reajam. Esse dinheiro tem de ser dado de uma maneira gradual e tinha de haver certos núcleos que pudessem aplicar treinos específicos a essas pessoas e depois existiriam incubadoras que distribuíam essas pessoas. Não queria entrar mais em detalhes sobre isso, é uma ideia que tenho para a minha campanha.

 

Mas em Rabo de Peixe existe uma Escola Profissional com centenas de alunos dos quais, a grande maioria, são de Rabo de Peixe. Portanto, em termos de formação, já está a ser tentado e isso não resolve estes casos que estamos a falar.

Está a ser tentado porque essas pessoas continuam a receber o dinheiro. E, se calhar, muitas daquelas que lá estão nem recebem o RSI. Nós vamos tentar fazer o possível para conseguir encontrar soluções nesse sentido. Porque é que uma Câmara Municipal não pode fazer uma proposta ao Governo sobre as ideias que acabei de transmitir? Não vejo nenhuma razão para que a dinâmica do nosso país não possa funcionar em entreajuda entre todos.

 

“Uma das primeiras coisas a fazer é ouvir todas as pessoas influentes do município”

Resumindo e concluindo, ganhando as eleições, passados uns dias, que diferença é que a população vai encontrar na rua, que dinâmica vai encontrar?

Roma e Pavia não se fizeram num dia, tem de ser com calma. Uma das primeiras coisas a fazer é ouvir todas as pessoas influentes do município, desde polícias, bombeiros, vou ouvir antes e depois. Temos de coletar todas as dificuldades do município, a nível de saúde, por exemplo, e só depois de verificar essa situação toda é que podemos ver como o vamos atacar. Quanto custa, qual a prioridade, qual o seguimento dentro do plano elaborado que podemos concluir este ano, sempre com a ajuda da população. A população, para nós, tem de ter uma interferência muito maior do que tem tido nos últimos anos. A população praticamente não tem influência no que se passa na Câmara nem a Câmara transmite muito o que está a ser executado, pelo menos é a ideia com que fiquei. E isto acho que tem de acabar na Ribeira Grande.

 

Há 12 anos, se virmos os programas eleitorais dos dois maiores partidos, PS e PSD, constam lá um grande número de propostas que ainda vão constar no próximo programa. Com a auscultação que pretende fazer depois da eleição, não está a prometer, enviesadamente, o mesmo que prometeram estes partidos e só daqui a 12 anos ou mais é que teremos os problemas resolvidos? Isto porque quer ouvir toda a gente, e ouvir toda a gente demora muito tempo… e agir?

Obviamente que tenho de agir, mas temos de ter uma consistência, não nos podemos perder entrelinhas. O que se passou anteriormente com as outras Câmaras, passou-se com eles. Será que trabalharam bem? Aplicaram a dinâmica mais correta? Deixaram-se levar pela população? Ficaram confusos? Não souberam antecipar o que vinha, ou organizar e ter força e determinação para tomar uma decisão? Estas são as perguntas que coloco neste momento. Não sei dentro da orgânica, nunca participei em nenhuma assembleia ou reunião de Câmara, não sei o que eles fizeram internamente. Mas posso prometer uma coisa, a minha determinação, a minha força e energia vão ser o máximo dos máximos possíveis.

 

Isto significa que a habitual disputa entre PS e PSD pode contar com um oponente de valor?

Pode, sem dúvida nenhuma. E é mesmo isso que quero ser, é um oponente de valor. Eles que se preparem porque vão ter um oponente de muito valor.

 

O concelho da Ribeira Grande é um dos mais jovens do país e tem múltiplas discrepâncias e micro situações, os problemas de Rabo de Peixe não são os mesmos da Maia, os da Lomba de São Pedro não são os mesmos das Calhetas, e os de Santa Bárbara não são os mesmos da Ribeira Grande – Conceição. Como pretende tornar o concelho numa dinâmica única de desenvolvimento?

É uma pergunta fácil, com uma resposta difícil. Para não uniformizar todas essas freguesias, temos de ver a deficiências de uma, as vantagens da outra, e o que é preciso ser feito. Imaginemos que numa freguesia os transportes funcionam bem, mas noutra são muito maus, temos de dar prioridades para fazer crescer aquilo que está mal numa das freguesias, suster o que está bem noutra freguesia, e torná-las uniformes na sua produção, na sua atividade e na sua dinâmica. Isso é a primeira coisa, é trazer as coisas que estão mal para o nível do que já está bom e do que já está feito, e, a partir daí, quando as coisas estiverem uniformes, igualdade para todos, é que podemos começar a construir algo mais, dar um passo em frente de uma maneira uniforme. Se as pessoas tiverem já o mindset preparado para o que vai ser estipulado nas deficiências de cada uma das freguesias, e trabalhar em conjunto para ultrapassar as mesmas, aí trabalhamos todos juntos para continuarmos a avançar.

 

Está a decorrer o concurso para a adjudicação ao concessionário dos transportes públicos de São Miguel. Está a par disso, acha que serve o concelho da Ribeira Grande?

Não muito, tenho de me inteirar sobre isso para ser honesto. Não posso saber tudo, mas tenho de saber o que poderá ter vantagens para a Ribeira Grande.

 

Há pouco já abordou a questão do RSI, e abriu um pouco o véu do que pretende implementar. O que pretende propor, primeiro aos poderes legislativos regionais, que depois terão o poder de propor ao poder legislativo nacional, numa altura em que ainda existe uma percentagem muito elevada de pessoas que recebem o RSI quando há tanta falta de mão de obra em empresas?

Já respondi e não quero abrir mais. Se disser aqui todo o plano de campanha é uma regalia muito grande para os outros.

 

O que é, para si, um bom resultado eleitoral?

É, como dizemos no partido, o melhor resultado de sempre. O melhor que conseguirmos obter. Quero o máximo e vamos conseguir um grande resultado para a Ribeira Grande. É a única resposta que posso dar neste momento.

 

Mas para quem possa ainda estar indeciso, o que lhes diz?

Digo exatamente o mesmo. As pessoas têm de ver em mim a energia que tenho e a determinação que tenho. É a partir daí que vão conseguir saber que vou conseguir bastantes votos. Se cada um se mobilizar e votar em mim vai-se ver o quanto este partido vai alcançar nas eleições.

 

É de relevante importância no concelho as associações de carácter social, aliás, são elas que desempenham um papel importante substituindo-se ao Estado em múltiplas tarefas. Que espirito de colaboração vai querer com estas instituições?

Uma das coisas que tenho ouvido, e que tenho de verificar, é que, por vezes, essas instituições não funcionam da maneira mais correta que as pessoas pensam que funciona. E tenho de verificar se realmente é assim, falando com os responsáveis e perceber o que precisam. Existem pessoas que apontaram falhas nessas instituições e queremos esclarecer isso.

 

Mas existem 500 famílias na Ribeira Grande que não gastam um cêntimo em alimentação e produtos de higiene pessoal, que lhes é facultado pela Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande. Isto é bom ou mau sinal?

Uma das coisas que tem de ser verificada é saber se existem mais famílias nessa situação que necessitem dessa abordagem. E saber se essas 500 famílias que falou se estão a ser atribuídos os produtos necessários, ou em excesso, se está tudo regularizado e bem organizado, se é preciso fazer mais ou melhor. Também é preciso saber junto da Santa Casa da Misericórdia se há alguma ajuda logística que a Câmara possa dar. E com certas indicações da Câmara tentar explicar que podem existir mais pessoas identificadas que também necessitem disso. E depois com esse forcing poderá ser necessário algum apoio a nível camarário, mas sempre depois de tudo averiguado. E isso é uma das coisas que vou fazer porque tenho ouvido muito ruído de que as coisas não funcionam assim tão bem como certas pessoas pensam.

 

A Câmara Municipal assinou, recentemente, um protocolo com o Clube Desportivo de Santa Clara para a construção de um complexo desportivo em Rabo de Peixe. Quais os projetos na área do associativismo e do desporto que tem para oferecer ao concelho da Ribeira Grande?

Por acaso esse é um dos pontos que não é prioritário até ao momento. Mas desporto e cultura faz parte dos meus planos eleitorais. Vou investigar melhor as situações que possamos precisar, existem piscinas, campos de futebol… o complexo para o Santa Clara já devia estar concluído, penso que houve um pequeno atraso, mas aquilo vai servir um clube, não a população. O Campo Municipal de Ponta Delgada penso que já foi alugado por 20 anos, se não estou em erro, e o Santa Clara irá usar este complexo para formar as suas camadas jovens, até aos sub23 poderão jogar ali. Penso que vão ter um estádio com um campo com o tamanho normal e mais dois ou três campos para auxiliar. Isso é algo muito particular que vai servir, quase unicamente, o Santa Clara. Mas vou dar um exemplo, que penso que é o mais importante, é que existem dois clubes, o Benfica Águia Sport e o Sporting Clube Ideal, que o meu filho nos escalões dele jogava contra eles, e as pessoas para conseguirem fazer uma equipa naqueles escalões jovens não é fácil. Eu lembro-me do meu filho jogar contra eles e eles eram massacrados porque não treinam, os treinadores têm muita dificuldade em segurá-los, são reguilas, querem manifestações violentas no campo, etc. Portanto, acho que a nível de complexos desportivos, piscinas, campos de futebol, penso que a Ribeira Grande tem os necessários, mas há outros desportos que se calhar não estão a ser muito bem suportados, como o judo, voleibol, karaté, outras instituições que não têm o devido apoio e que nós devíamos olhar para todos e falar com todos para verificarmos quais são as necessidades. Recebi há pouco uma mensagem de um amigo meu que falou de aulas de natação, será que estão a ser dadas aulas de natação a essas crianças que têm problemas mais assíduos nas escolas? Poderá isso fazer parte de um ensino extracurricular? Todas essas ideias, sem mudar nada a nível de educação regional, porque isso são coisas a nível do Governo, mas com opiniões e sugestões da Câmara poderemos mudar alguma dinâmica no ensino no município. Na cultura, existem outras coisas, não se pode fomentar a cultura sempre para os mesmos, os festivais, e fomentar a cultura para pequenos grupos. O meu pai, por exemplo, era um grande tocador da viola da terra, porque não dar oportunidade a esses pequenos grupos emergentes que tocam viola da terra e colocá-los nas praças principais da cidade, apoiá-los, dar um almoço, dar-lhes algum contributo para a sua participação nesses eventos do que dar sempre aos mesmos. É preciso diversificar e dinamizar e a Ribeira Grande já faz eventos bem importantes, o Cantar às Estrelas, a Feira Medieval, a Festa da Flor, que acho que poderia ser melhorada. Tudo isso tem de ser trabalhado e melhorado e eu vou, com certeza, conseguir fazer melhor depois de analisar tudo o que se passa neste município, freguesia a freguesia.

 

Qual a importância dos emigrantes no futuro do concelho?

É muita. São bem vindos os que querem voltar.

 

Como presidente de Câmara, vai passar o tempo a viajar para lá ou vai tentar sensibilizar os emigrantes a investirem na sua terra natal?

Acho que vivemos num país livre em que as pessoas fazer o que quiserem. A minha preocupação neste momento é aqui, com o povo que está aqui, futuramente, se tiver a possibilidade de fazer mais e melhor, obviamente que a interação com esses emigrantes será muito grande.

 

Sabe que a participação a nível monetário nas festas no concelho é de valor apreciável…

Claro que não vou rejeitar, mas não vou pedir. As pessoas dão, se acharem que eu sou uma pessoa responsável, que o município necessita e se quiserem ajudar a região. Obviamente que estou de portas abertas para isso mas não vou pedir esmolas.