Até ao ano de 2007, a manutenção dos elevadores da cidade de Lisboa era feita exclusivamente pela Carris que dispunha de uma equipa de 24 homens dedicados à manutenção do respectivo equipamento da Glória, da Lavra, da Bica e de Santa Justa.
A actividade dessa equipa durava 24 h por dia com dois operários em turnos de oito horas em cada um dos ascensores, trabalhadores esses que se necessário também faziam reparações em oficina, ou seja, havia sempre duas pessoas a tratar da manutenção e do bom funcionamento dos ascensores, muitas vezes incluindo os próprios guarda-freios.
Com a externalização, ou outsourcing como modernamente se designa a privatização, a Carris reduziu as vistorias dos cabos ao longo de 24h diárias para inspecções de 30 minutos, feitas visualmente e não por via táctil com luvas e percorrendo todo o comprimento do cabo, como anteriormente acontecia.
Os 24 homens distribuiam-se em seis para cada elevador, funcionando dois a dois em turnos de 8 horas, sempre disponíveis para as vistorias ou para deslocação ao menor sinal de anomalia, acrescido o facto de que os guarda-freios mantinham-se em permanencia nos seus próprios ascensores ou postos de trabalho, habituados e atentos portanto a ouvir o ruído das máquinas e estando sempre em contacto com os colegas da manutenção, o que não acontecia actualmente, pois mudavam com frequência de elevador.
O acidente entretanto ocorrido, levantou uma enorme polémica e naturalmente deu azo ao chamado passa culpas entre todas as entidades ligadas à problemática dos elevadores da cidade de Lisboa, incluindo o próprio Presidente da Câmara.
A pergunta, talvez a mais pertinente, surge assim com naturalidade: Como é possível Carlos Moedas decidir financiar a Web Summit com 4 milhões de euros da Carris?
Mesmo sabendo-se que a verba foi compensada com fundos europeus, fica bem patente a mensagem política para «consumo» público, pois há investimento na feira tecnológica e mediática, mas não há que chegue para manutenção adequada de transportes públicos que sofrem cortes orçamentais, assim originando a tragédia então surgida, ou seja, a Web Summit idealiza e lança Lisboa como capital de inovação, mas nos dias de hoje que confiança, certeza e segurança podem existir numa capital tecnológica quando o seu próprio património público descarrila?
E aqui chegamos à essencia da questão, ou seja, os orçamentos constituem uma técnica, mas também representam uma escolha política com os seus valores intrínsecos, levando-nos, relativamente ao caso em apreço, a efectuar outra pergunta: O que deve surgir em primeiro lugar nas opções políticas, um evento internacional com retorno económico, ou a segurança e a confiança nos Serviços Públicos Essenciais, na preservação do património sócio cultural e nas infra estruturas que fazem parte integrante da vida do dia a dia dos cidadãos?


