A MEMÓRIA E A IDENTIDADE

Ángeles Maestro médica e dirigente política espanhola, considera que a memória é a essência do fio condutor da História, pois molda-nos como seres humanos e constitui-se como ferramenta fundamental da identidade, acrescentando que somos porque sabemos de onde viemos, somos moldados pelas gerações anteriores para quebrar esse molde e em luta acirrada reconstruirmos com seus pedaços o nosso próprio caminho.

A destruição da memória daqueles que nos precederam na luta, é a arma fundamental do nosso inimigo de classe na luta ideológica, mas também existe a construção de um relato baseado na falsificação histórica que António Machado Ruiz, poeta espanhol, exprimiu da seguinte forma, referindo-se ao antes e ao depois do fascismo franquista: foi um tempo de mentira e de infâmia em toda a Espanha e uma traição à memória colectiva.

Com efeito e em todo o Estado, cerca de 200 000 pessoas foram executadas após a guerra, a maioria das quais ainda jaz em valas comuns, junto aos muros dos cemitérios  ou nos campos de concentração nazis e muitas outras morreram lutando contra o mesmo fascismo nas fileiras do Exército Vermelho Soviético e nas fileiras da Resistência na Europa.

Quando hoje verificamos as dimensões do desastre operado na consciência de classe do povo trabalhador, é inevitável a referência à traição à memória daqueles que lutaram contra o fascismo e foram assassinados, traição essa operada durante a transferência e vigência do actual regime político, mas também uma traição às gerações posteriores, às quais foram amputadas não só a vida dos melhores homens e mulheres das suas famílias e o direito de saberem e de construirem a sua própria identidade de seres conscientes e responsáveis.

Nos dias de hoje, caminhamos para tempos de ferocidade semelhantes e o povo palestiniano é um bom exemplo da magnitude do crime que está a ser cometido, apesar da vontade de resistência, acima de tudo.

Os novos fascistas e nazis, financiados na área do capitalismo, onde aparecem casos de negócios escuros sob alçada da Justiça, apresentam-se  como democratas, dispensam os desfiles militarizados dos camisas negras e castanhas, mas mantêm intactos os seus sinistros objectivos, ou seja, continuam seguidores das principais palavras de ordem do fascismo e do nazismo históricos, actualizadas pelas exigências contemporâneas, com variantes conformes à inserção territorial, de que é exemplo a generalizada islamofobia e ódio aos ciganos, mas usufruindo sempre de boa visibilidade nos meios áudio visuais.

A juventude actual, felizmente não toda, dispersa-se em banalidades estereotipadas e quotidianas, em falsas notícias instituídas como norma e a  Educação não cumpre cabalmente a sua missão, quando o Ensino passa a correr pelos grandes acontecimentos históricos, sem identificar as suas causas e alertar para o perigo da repetição de alguns desses mesmos acontecimentos, causadores das maiores atrocidades ao mundo.

A difusão do neofascismo e do neonazismo, sejam eles mais puros ou mais difusos, está a marcar o nosso tempo e a alargar o seu conteúdo ideológico, assim tentando submeter as populações aos seus desígnios e apresentando-se como alternativa ao poder instituído, como tal devemos manter-nos atentos às suas várias facetas.