Nestes tempos terríveis, vividos entre uma esperança que a toda a hora regamos com optimismo e que a todo o momento murcha sob o fogo da realidade, “muitos de nós”, vagueando pelas ruas das cidades, vilas e aldeias, encontramos “outros de nós” que igualmente dispersam o tédio imenso que os envolve.
Conversa aqui, conversa ali: – Você já leu isto? – ouviu aquilo? – Pois eu, patricio, sei de quem recebeu noticias de Caconda. Mal desgraçadamente está tudo perdido. Infelizmente, ouve-se, conta-se, participa-se em diálogos desta ordem com imensa frequência.
Há tempos, contudo, alguém que levava semanas a fio na longa via sacra que percorrem os que precisam de trabalho e não fogem ao sacrifício de procurá-lo, mostrou-nos um apontamento que escrevera dias antes. Estávamos ainda a virar a última folha do escrito e já este nosso companheiro de infortúnio nos disparava:
E se fizéssemos um livreco em que cada um de nós prestasse , como pode e sabe, o seu próprio depoimento?
– Ficará caro publicar uma coisa dessas? E terá interesse? – Objectámos! – Perdido por dez … perdido por cem – sentenciou. Aceitámos a ideia.
Os depoimento sem qualquer intenção de fazer literatura aí ficam e constituirão pelo menos, o esforço para reagrupar em torno de uma luta comum essa legião imensa de pessoas, que a maldade dos homens designa eufemisticamente por RETORNADOS. Procuramos acrescentar-lhe o valor de algumas prosas cheias de mérito e de compreensão, fomos até à transcrição de artigos publicados em jornais que, se não apoiam totalmente a nossa razão, ao menos não riem do nosso drama. Apoiar-nos frontalmente seria o mesmo que condenar ostensiva e claramente as actuações de alguns nomes que os refugiados, infelizmente, sabem de cor, mas que só gostariam de pronunciar em dia dos seus julgamentos pelos crimes de traição e genocidio. Compreendemos, por isso, a retracção, as meias palavras, os semi-apoios, as desculpas factuais, as subtilezas. Mais gratos temos de ficar aos corajosos que, desafiando, todavia, a máquina traiçoeira de que podem e sabem servir-se os que não escolhem meios para servir os “seus patrões” imperialistas ou social – ditos, não hesitam em dissecar toda a problemática em que nos vimos involuntariamente inseridos.
O livro que hoje colocamos à consideração do leitor, visa ainda e sobretudo, registar o repúdio dos refugiados por toda esta “mise-encene” de paternalismo cínico em que os sucessivos governos de opereta quiseram, mais do que demonstrar-nos … cidadãos úteis e trabalhadores, não receando confronto com quem quer que seja, apenas queremos JUSTIÇA.
Nenhum país civilizado do mundo, expulsa assim sem direitos que a condição humana por si só implica, comunidades inteiras, em pânico, horrorizadas, largando tudo, trazendo apenas consigo o ódio e o bilhete de identidade de cidadão português emitido pela República de Portugal a naturais de Angola.
Obs: Excerto da publicação “O Drama do Refugiado” de 1976


