Como prometido, recordamos nesta edição o enigma vencedor do concurso de problemas policiários “Mãos à Escrita!”, de 2022, começando por informar que o problema vencedor no ano 2019, que republicámos no passado dia 10 de novembro, mobilizou uma dezena de leitores do jornal AUDIÊNCIA GP com a apresentação de soluções de bom nível, com destaque para a excelente proposta de Dona Sopas, que suplantou toda a concorrência, composta por Chico da Afurada, Inspetor Mokada, Inspetor Mucaba, Mancha Negra, Mário Gomes, Mula Velha, Rosa de Mafamude, Santinho da Ladeira e Visconde das Devesas, sendo por isso distinguida com o livro da autoria da atriz brasileira Fernanda Torres, FIM, editado pela Companhia das Letras, em 2014.
FADO DO LADRÃO ENAMORADO
de Bernie Leceiro
enigma vencedor do concurso “Mãos à Escrita! – 2022”
Por muitos ignorado, o cancioneiro português encerra verdadeiras pérolas da criminologia nacional. É o caso da estória que vos vou contar e para a qual vos desafio a descobrir a identidade do autor do roubo da ourivesaria da rua da Paz.
Estávamos em plenos anos 80, tempos áureos da música pop rock portuguesa. Nomes como Rui Veloso, Táxi, Jorge Palma, Luís Portugal ou UHF davam voz a personagens e situações do quotidiano emergente. Eram tempos de afirmação de uma geração que recuperava de 40 anos de ditadura, levando a excessos em que raras vezes não terminavam no aljube da Praça da Batalha.
Numa típica manhã nublosa de fevereiro, a cidade acorda com a notícia que a ourivesaria Paz da mesma artéria da invicta cidade do Porto fora assaltada. A porta das traseiras foi arrombada e o cofre aberto durante a noite, com recurso a explosivos. A fuga foi feita pelo mesmo local por onde entraram, pelo quintal das traseiras com um acesso recôndito através da viela da Carvalhosa.
À data Alves da Selva chamado ao local como inspetor estagiário apurou junto do proprietário que do cofre “apenas” tinha sido furtada uma valiosa gargantilha. Analisado minuciosamente o cenário do assalto, prevalecia no ar o cheiro a dinamite misturado com o cheiro a madeira de mogno dos faustosos expositores de joias. Atendendo aos ligeiros estragos provocados na porta e à opção de entrada que apenas os moradores conheceriam, conclui que o assalto terá sido levado a cabo por algum meliante da zona. Chamou-lhe ainda a atenção um pequeno pedaço de tecido preso num prego na parede, onde o Sr. Almerindo, proprietário da ourivesaria Paz e reconhecido sovina que enriquecera à custa da desgraça dos outros, pendurava os penhores da malta mais aflita. Uns fios de lã de cor preta, que cuidadosamente guardou num saco plástico, conforme tinha visto num filme policial americano no cinema Águia d’ Ouro, na expectativa que pertencessem ao vestuário do ladrão fugitivo.
Num famoso salão de jogos de Cedofeita, o Early Done bilharista, cruzavam-se alguns dos principais suspeitos, Chico Fininho, Toni o Ás dos flippers, o beto Dinis, Jeremias o fora da lei, Gastão o psicadélico desesperado e o não menos famoso Nando o Mau da Fita, qualquer um deles conhecido de Alves da Selva por pequenos delitos e confusões próprios de uma época em que se recuperava a liberdade. Não tinha dúvidas que seria nesse palco de épicas batalhas de bilhar e flippers, entre shots de aguardente ABC e minis Cristal que encontraria o ladrãozeco da joia.
Na manhã do domingo seguinte, Alves da Selva, cumprindo a sua obrigação de devoto católico, foi à missa das 11:00 na igreja da Lapa, após a qual comprava a regueifa para o almoço dominical em casa dos pais aproveitando, como sempre, para lançar o seu charme e consolo a alguma viúva mais carente à qual contava a bravura do povo tripeiro no apoio a D. Pedro IV. Nesse domingo o seu olhar atento de lince predador não pode deixar de reparar numa rapariga morena, sentada 2 bancos à frente do seu, de formas redondas e muito atraente, vestida de modo modesto, que quando voltava da comunhão o ofuscou com brilho do objeto, refletido pelas lâmpadas e velas que ardiam nos antigos candelabros, no bico do seu provocante decote – uma bela gargantilha em nada condizente com a condição modesta do seu vestuário. No final da missa, Alves da Selva aguardou por ela no cimo das escadas da igreja e uma vez mais a pretexto da vida heroica do rei liberal e a sua ligação à cidade, elogiou a joia que a moça tão orgulhosamente trazia ao peito dizendo-lhe que nesse dia até o coração de D. Pedro IV, envolto em formol na sua urna de prata que repousa na igreja, bateu mais forte quando viu a formosura da bela rapariga e a beleza da joia que ostentava, ao qual ela respondeu: “– O meu coração já tem dono e isto é uma vulgar joia de imitação!”
Alves da Selva não tinha dúvidas, aquela era a joia roubada. Fácil foi obter a informação sobre quem era o namorado. Pela troca de 2 cigarros RITZ que restavam no maço de tabaco amarrotado no bolso do seu casaco domingueiro, o sacristão da igreja cuspiu toda a informação que precisava para descobrir o meliante. Para finalizar deixo aqui parte do seu depoimento que face às evidências apresentadas fez questão de descontraidamente cantar uns versos de Fernando Farinha:
“Quis brincar com o destino
Convencido que era forte
E ele pregou-me a partida
De ter de andar toda a vida
Ao desafio com a sorte;
Iludido, não sabia
Que a vida tem o seu perigo
E hoje triste, quem diria
Já não brinco com o destino
Ele é que brinca comigo”
Caro leitor, quem foi o autor do roubo da ourivesaria da rua da Paz?
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PS – Os leitores que se dispuserem a “alinhavar” uma proposta de solução a este enigma, devem enviá-la para o endereço eletrónico [email protected], até ao próximo dia 9 de dezembro. Será atribuído um prémio de mérito ao leitor que apresentar a proposta mais original.


