A nossa convidada de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia é a atriz Maria Mata. Licenciada em interpretação pela ESMAE-Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo, frequenta atualmente o mestrado de Ciências de Comunicação (vertente de Comunicação e Arte) na Universidade Nova de Lisboa. Paralelamente, tem recebido formação contínua na área musical, tendo participado numa formação de Jazz/Rock na Guildhall.

Tem experienciado várias vertentes performáticas na música, dança e teatro, tendo integrado, por exemplo, os elencos de “Yukio Mishima” pelo Mime Centre, de “Bodies in Urban Spaces” pela companhia Willi Dorner e de “O Mundo é Redondo”, com libreto de Regina Guimarães e música de Peixe, numa produção da associação Ao Cabo Teatro. Tem ainda participado em diversas óperas, tendo assinado a codireção artística e interpretado, em 2012, “Bebé e Um Suspiro”, na Casa da Música, e, a convite da compositora Ângela Lopes, interpretou em 2017 uma peça de teatro eletroacústico no Conservatório de Música do Porto.

É ainda lead vocal do Projeto Senhor Vadio, grupo de músicas originais e tradicionais portuguesas, tem dobrado vozes em filmes e séries de animação e colabora regularmente com o Serviço Educativo do Ambiente da Fundação de Serralves.

O público Gaia teve oportunidade de a ver no espetáculo “Bad, Mad & Sad”, da Má Companhia, que estreou em 2019, na Tuna Musical de Santa Marinha, no âmbito da II edição do Festival de Teatro José Guimarães. Passemos-lhe a palavra:

 

Que papel devia ter o teatro profissional no processo de desenvolvimento e democratização da atividade cultural e artística num concelho com o perfil de Gaia?

O teatro profissional deve concretizar a sua proposta enquanto projeto e marcar presença no público do concelho. Esta premissa por vezes não acontece porque a questão financeira prevalece, obrigando algumas companhias a ponderar ou a remodelar a sua proposta. É urgente existir uma educação cultural e expressão artística desde a infância, fomentando o pensamento crítico e refletindo pontos expressivos nas áreas performativas, edificando assim um ser humano pleno e um “animal social e político”, segundo Aristóteles. Neste sentido, o teatro existente deve respeitar-se e perceber que o palco cabe a todos e reconfigura-se, segundo a perspetiva de cada um. Existem várias linguagens, estéticas e esses horizontes serão tão mais variados e enriquecedores quanto mais existirem e mais acessíveis forem para o público. Este deve ter o direito de escolha e, para isso, deve haver uma oferta maior, seja ele em teatro de repertório, experimental, musical…  Acredito que cada ida ao teatro é uma viagem de ida e volta e representa uma janela aberta para o mundo. Uma janela que nos torna atentos e a querer participar mais na vida ativa e no tempo onírico, essencial para a remodelação do real.

 

Na tua opinião, o que falta para que Gaia se constitua como alternativa à oferta cultural da cidade do Porto, designadamente no domínio das artes performativas?

Um dos pontos em que incide a resposta é a programação: por um lado, o espaço deve estar aberto a teatro experimental e a novas criações; por outro lado, as casas que acolhem espetáculos, independentemente da variedade que queiram trazer, devem construir uma identidade e fidelizar um público e, ainda, trabalhar em rede para gerar um círculo cultural forte e dinâmico e expandido pela localidade.

 

Defendes, portanto, que a cultura deve ser implementada em toda a sua diversidade e abrangendo a globalidade do concelho, através de uma descentralização concertada?

Acredito que a cultura deve ser descentralizada pelo concelho, assente numa rede sólida e esta deve ser pensada e aliada a uma programação eficiente e que sirva e estimule o público, desafiando também os espaços artísticos convencionais e não convencionais.

 

E, na tua opinião, que papel devia ter a Câmara Municipal na organização e desenvolvimento desse projeto de descentralização cultural de âmbito concelhio?

Acho que a autarquia deverá ter um papel fundamental para desbloquear esta questão. O papel da programação cultural é fundamental num serviço prestado pelo Pelouro da Cultura em qualquer Rede Artística que pretenda promover a cultura. Creio que a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia deveria incentivar e assegurar a diversidade de espetáculos pelos vários espaços para o efeito e disponibilizar-se para, junto de companhias, associações ou pessoas singulares da área, encontrarem desafios e reconsiderarem espaços não convencionais como alternativos.

 

E do ponto de vista financeiro, que posição devia assumir a autarquia? Ainda há quem ache que a criação e produção artística pode e deve ser autossustentável…

A verdade é que a autossustentabilidade da cultura em Portugal é ainda um horizonte longínquo, no sentido desta realidade abraçar todos os que vivem da arte. Temos de mudar mentalidades e investir na cultura como um bem essencial na edificação do ser humano. É necessário ver a cultura como algo positivo e necessário, de modo a adquirir o respeito e valorização devidos, assim como o reconhecimento da mesma enquanto um trabalho. A questão é que um português ainda não está habituado a comprar bilhete… a estrutura é mais complexa. São hábitos que devem vir de uma educação cultural presente. Por isso, nesse sentido e, paralelamente, acho que as autarquias deviam apoiar os seus artistas, no sentido de os poder impulsionar para o mercado de trabalho, facilitar-lhes o acesso a espaços de apresentação e a visibilidade na comunidade, promovendo a criação de bolsas, sustentando a programação. Acho que uma autarquia deve pensar num esquema enquanto um todo e não só numa pontinha da coisa.

 

E a escola, a comunidade educativa, na tua opinião qual a sua importância no desenvolvimento do gosto pelas artes e na formação de públicos desde a infância?

A escola tem um papel fundamental na criação de públicos, na edificação do ser humano enquanto ser social e participante na vida ativa, através do desenvolvimento progressivo das competências cognitivas e psico-motoras, trabalhadas também nas áreas educacionais artísticas. Desta forma fomenta-se também o respeito pelo outro, a concentração, entre tantos outros benefícios; desenvolve-se o pensamento e espírito crítico, em simultâneo do incentivo a um espaço onírico que se concretizará em força para realização de projetos futuros. Quase que parece uma receita mágica para um melhor funcionamento da sociedade.

 

E, na tua opinião, a Escola tem cumprido cabalmente esse seu papel ou tem descurado as artes, e o teatro em particular, enquanto “ferramentas” de formação?

A escola tem cumprido consoante as condições “pioneiras” que tem vindo a ter. Existe uma preocupação maior em incutir a prática artística e reconhecê-la enquanto essencial para a edificação do ser humano. Há ainda um caminho longo, sobretudo na estruturação dos conteúdos e práticas, no vencer o medo do desconhecido. Mas já se desbrava caminho e isso é o grande passo para a caminhada.

 

E os espetáculos iniciáticos, ou seja, os primeiros a que as crianças assistem, devem cruzar o teatro com outras artes, ou essa multidisciplinaridade é irrelevante?

Acho irrelevante. O importante é haver acesso à cultura, criar o hábito de se ir a espetáculos e desenvolver espírito crítico. É igualmente importante proporcionar bons espetáculos, independentemente da sua estética e linguagem. A diversidade acabará por oferecer vários tipos de espetáculo, condição fundamental para a educação de um público e para o desenvolvimento do indivíduo.

 

A terminar, fala-me de ti: quais são os projetos artísticos em que estás neste momento envolvida e quais são os sonhos que desejas realizar num futuro próximo?

Neste momento, está tudo em suspenso. Os projetos foram cancelados e a coragem, por vezes, esmorece. O momento não é de zapping, é de pause no comando e isso fez cair grande parte de investimento ou de certezas num futuro próximo… No entanto, ainda de uma maneira muito indefinida, há perspetivas de colaborações mais na área da música. Vislumbra-se uma participação enquanto performer num projeto de compositores contemporâneos operáticos na segunda metade do ano e continua a colaboração com companhias de teatro portátil. As ambições e desejos da retoma ao setor artístico são enormes e anseio por participar em projetos que, em situação pré pandémica se desenhavam auspiciosos, alguns no âmbito do Imaginarius, outros em colaboração com Serralves. Neste momento, aproveitei este ano letivo, mais parado, para acabar o mestrado em Comunicação e Arte, ramificação do Mestrado de Ciências da Comunicação, da Universidade Nova de Lisboa e pensar que marcará uma nova etapa com novo fôlego, com mais oportunidades e mais profícua.

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