A ILUSÃO DA NORMALIDADE EM PORTUGAL

A verdade é simples e profundamente desconfortável: o mundo está a entrar numa fase perigosa, e há quem continue a governar como se nada estivesse a mudar.

A instabilidade deixou de ser um acidente conjuntural. É, hoje, o ambiente estrutural da política internacional. Conflitos acumulam-se, tensões escalam e decisões com impacto global são tomadas num registo cada vez mais impulsivo e menos estratégico. Quando figuras como Donald Trump transformam a geopolítica num palco de afirmação pessoal, o problema deixa de ser apenas político — torna-se sistémico.

Porque quando o Ego substitui a estratégia, a previsibilidade desaparece. E sem previsibilidade, não há estabilidade.

A escalada entre o Irão e Israel é hoje o exemplo mais evidente dessa realidade. Não estamos perante mais um episódio regional que a Europa possa observar à distância. Estamos perante um potencial catalisador de uma crise global com impactos diretos e prolongados.

O rastilho está aceso, e não há garantias de contenção.

As consequências começam a desenhar-se com nitidez. A energia encarece, pressionada pela instabilidade numa das regiões mais sensíveis do globo. As cadeias de abastecimento tornam-se mais frágeis, sujeitas a disrupções logísticas e riscos geopolíticos. Os mercados reagem com volatilidade crescente.

Mas há efeitos mais silenciosos, e estruturalmente mais perigosos.

Um deles é o aumento do custo dos fertilizantes.

Produzidos com forte dependência de gás natural e integrados em cadeias globais de fornecimento, os fertilizantes são um ponto crítico entre energia e alimentação. Quando o seu preço sobe, o impacto não é imediato — mas é inevitável. Traduz-se, meses depois, em aumento dos custos agrícolas, menor produtividade e pressão direta sobre os preços dos alimentos.

É neste ponto que a geopolítica entra, sem aviso, na vida quotidiana.

Porque o resultado não é apenas inflação. É tensão social.

A história recente, da Primavera Árabe à crise inflacionista pós-pandemia, demonstra que quando o custo de vida sobe de forma persistente, a estabilidade política começa a ceder. E essa erosão raramente é linear. É silenciosa, acumulativa e, quando se torna visível, já é difícil de travar.

Perante este cenário, a resposta dos governos europeus tem sido tudo menos homogénea.

Alguns países perceberam a natureza estrutural da crise e optaram por respostas rápidas e abrangentes. A Alemanha avançou com pacotes robustos de apoio à energia e à indústria, procurando preservar a sua base produtiva e amortecer o choque sobre empresas e consumidores. A França reforçou mecanismos de controlo e mitigação dos preços energéticos, combinando intervenção estatal com proteção direta às famílias.

Outros países foram mais longe na vertente fiscal e social. A Espanha adotou medidas de redução de impostos sobre energia, apoios diretos e políticas específicas para conter o impacto nos setores mais vulneráveis, incluindo agricultura e transportes. Em paralelo, países do norte da Europa reforçaram reservas estratégicas e aceleraram investimentos em autonomia energética, antecipando riscos futuros.

Estas decisões não foram isentas de custos orçamentais. Mas partiram de um princípio claro: numa crise sistémica, a inação paga-se mais caro do que a intervenção.

E depois há Portugal.

Um país que, perante um cenário de transformação acelerada, continua a responder de forma reativa, fragmentada e frequentemente tardia. Um país onde a prudência orçamental,  importante em tempos normais, se transforma, em contexto de crise, num argumento recorrente para adiar decisões.

O resultado está à vista.

Medidas que chegam depois do impacto. Apoios insuficientes face à dimensão do problema. Falta de estratégia integrada que articule energia, indústria e produção agrícola. E, sobretudo, ausência de antecipação.

Portugal não está apenas exposto. Está estruturalmente vulnerável.

Dependente do exterior em energia, em matérias-primas e em fatores críticos como os fertilizantes, o país enfrenta uma tempestade perfeita, agravada por uma resposta política que continua a subestimar a dimensão do desafio.

Enquanto outros países procuram proteger a sua base produtiva e o rendimento das famílias, Portugal arrisca-se a gerir consequências.

E as consequências são claras: perda de poder de compra, aumento do custo de vida, fragilização do tecido empresarial e crescimento das desigualdades.

Isto não é apenas um problema económico. É um problema político.

Ao mesmo tempo, as estruturas internacionais que durante décadas garantiram estabilidade atravessam um período de fragilização. A NATO enfrenta tensões internas e questionamentos que minam a confiança entre aliados. A União Europeia continua a debater a sua autonomia estratégica, mas permanece condicionada por divisões internas e lentidão decisória.

O mundo, esse, não espera.

Avança para uma configuração mais fragmentada, mais competitiva e menos cooperativa. Um mundo onde os equilíbrios são frágeis e onde a ausência de liderança consistente aumenta o risco de escaladas sucessivas.

Mas talvez o maior risco não esteja nos conflitos em si. Está na normalização da sua permanência.

Quando a crise deixa de ser exceção e passa a ser rotina, a política perde capacidade de mobilização. Quando a instabilidade se torna previsível, passa a ser tolerada. E quando isso acontece, o espaço para respostas insuficientes, ou simplesmente erradas, aumenta.

Portugal está perigosamente próximo desse ponto.

Num contexto em que a energia encarece, os fertilizantes pressionam a base do sistema alimentar e a inflação ameaça reacender-se com intensidade, continuar a governar com cautela excessiva não é sinal de responsabilidade. É sinal de desadequação.

A pergunta já não é se a crise se vai agravar. Vai.

A questão é saber quem está preparado para a enfrentar, e quem continua a agir como se o essencial fosse ganhar tempo.

Porque o tempo, esse, já se esgotou. E quando a realidade se impuser em toda a sua dimensão, não haverá narrativa que a consiga suavizar.

Em Portugal, o risco não é apenas económico, É político.

E começa, como quase sempre, por uma ilusão: a de que ainda há margem para adiar o inevitável