A acção de Influenciar outras pessoas não é magia, é ciência e tanto pode beneficiar como prejudicar, se for manipulação; a persuasão nada mais é que uma estratégia de comunicação que consiste em utilizar recursos lógicos e racionais ou simbólicos para induzir alguém a aceitar uma ideia, uma atitude ou realizar uma ação, pois todas as nossas decisões são tomadas, primeiramente no inconsciente e só depois na consciência, normalmente acompanhadas de uma justificativa racional.

Quando pensamos na forma como culturalmente nos relacionamos com o poder as frases que tantas vezes ouvimos e que justificam para muitos a abstenção resumem-se a «são todos iguais» ou «são sempre os mesmos», definindo de certa forma o perfil de um povo que aceita as hierarquias e reconhece privilégios a quem detém o poder.

No tempo felizmente ido do fascismo, era relativamente fácil ouvir personalidades de nome a afirmar convictamente «não precisamos de votar, temos quem pense por nós» ou seja trata-se da mesma cultura conservadora que, lidando mal com a incerteza do novo, prefere continuar no velho mas certo, salvaguardados obviamente os aspectos ideológicos.

O nosso País tem sido um dos mais abrangidos pela abstenção nas eleições europeias e nas últimas, há dias realizadas, cerca de sete milhões de conterrâneos não exerceram o seu direito de voto, não participaram na decisão colectiva de escolher os nossos representantes no Parlamento Europeu, enquanto instituição representativa dos cidadãos europeus e fundamento democrático da União Europeia, envolvido no processo legislativo europeu e exercendo, em nome dos cidadãos, o controlo político sobre as demais instituições europeias, para o bem e para o mal como temos constatado.

Para a juventude, no entanto, as motivações para a não participação parece residirem noutra linha de pensamento diferente da tradicional, pois na sequência de várias análises conclui-se que a escolha pessoal sobrepõe-se à ideia do dever cívico, ou seja, a partir da década de 80 do século passado a geração cresceu afastada dos regimes nazi fascistas e das guerras por eles provocadas, vive em democracia como quem respira e consequentemente
relativiza o seu valor intrínseco.

Relativamente à Europa comunitária e segundo inquérito realizado aos jovens europeus, só 32% dos inquiridos consideram a democracia como um dos cinco valores sociais mais importantes e as possibilidades de efetiva participação na vida política são vistas como algo vago e pouco mobilizador, não querendo esta ideia significar que esta geração não tem causas, só que elas centram-se mais, por exemplo, nas questões ambientais ou de igualdade de género.

Os cientistas políticos olham para estas preferências justificando-as com a questão económica, nomeadamente o elevado desemprego entre os jovens, que os torna mais cépticos sobre a ideia de que a democracia funciona e gera bem-estar e os partidos tradicionais preenchem as lacunas de ordem social.

Resultará daqui também a preferência por líderes extremistas, abrangendo eleitorado jovem e ainda de outras faixas etárias desiludidos todos com a falta de soluções para os seus problemas, quer de ordem social, cultural ou laboral.

Alguns exemplos actuais de subida ao poder de personagens sinistras podem corroborar esta ideia: Sebastian Kurz, primeiro ministro austríaco, agora demissionário por corrupção, Alexander Gaulander líder do partido alemão AFD recem eleito para o Parlamento, Marine Le Pen a francesa vencedora das eleições em França, Matteo Salvini vencedor em Itália, todos da extrema direita europeia.

No nosso rectângulo à beira mar plantado será difícil saber se a abstenção contribuirá para o desenvolvimento de políticas que vão prejudicar directamente os abstencionistas, mas sabemos que as classes dominantes dispõem de instrumentos poderosos para garantir a separação entre o interesse de classe de cada cidadão e o seu sentido de voto.

Para sair deste imbróglio a Escola Pública ocupa um lugar de excelência, pois tem os meios necessários para um investimento efectivo nas ciências sociais e humanas como a História e a Filosofia, tão voltadas ao ostracismo, mas a Comunicação Social tem cumulativamente um importante papel a desempenhar na maneira como aborda toda a discussão sobre os temas europeus, no entanto uma parte dos nossos jornalistas não dispõe de uma cultura política suficiente que lhes permita uma abordagem séria dos temas existentes no espaço público e no Jornalismo, sujeito ao garrote do capital que se sobrepõe ao poder político, é visível a falta de meios humanos e é lamentável porque os jornalistas continuam a desempenhar um papel fundamental na informação séria e mesmo na formação dos cidadãos.

Ficaria incompleta esta abordagem sem mencionar o tema da corrupção como sorvedouro do erário público e a descrença na Justiça por parte do eleitorado perplexo perante a impunidade de figuras ou figurões que usam e abusam; porém, não devemos esquecer ainda a nossa Constituição, nascida com Abril e daí acolhendo os melhores frutos, a lei das leis, a qual se fosse cumprida como devia seguramente traria ao País e aos portugueses uma noção bem diferente sobre o exercício da soberania, tal como aconteceu na Islândia um dos países glorificados na sequência da crise económica de 2008, que reescreveu a Constituição depois de mandar prender banqueiros e políticos corruptos, não a entregou a juristas, quis fazer dela um documento vivo, chamou cidadãos de diferentes esferas sociais e pediu-lhes que trabalhassem juntos, pediu sugestões a todos os islandeses através da internet e referendou o texto abordando questões sobre a gestão dos recursos naturais ou o papel da igreja, entre outras e, quando ficou pronta, a nova constituição teve leituras públicas, para que saísse dos livros e das salas-museu e fizesse parte da vida de todos os islandeses.

No nosso País, alguns protagonistas políticos rejubilam com as lacunas observadas no sistema, sempre prontos a utilizar a ignorância alheia como factor de promoção artificial de méritos objectivamente não existentes, mas há outros que continuam a resistir com os trabalhadores e a população para novos avanços em direitos, rendimentos, melhoramentos dos Serviços Essenciais e de proximidade e mais Justiça Social, tudo para que amanhã possam falar os explorados e não os exploradores como actualmente se verifica, para que o Sol nasça para todos e a todos acalente de igual modo.

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