As festas dos Santos populares não se distinguem apenas pelo convívio com a sardinha, a broa ou a carne na grelha, também representações teatrais dedicadas a estas figuras se encenam juntando a hagiografia e o teatro.  Para a figura de São João citamos O Carros dos Pastores,”a representação de um auto pastoril, que teria surgido no séc. XVIII, na freguesia de Landim, concelho de Vila Nova de Famalicão sob o nome de Auto de S. João de Landim.

Nele se representa o Nascimento de João Baptista. Surge a nossos olhos como um palco ambulante construído sobre um estrado ornamentado com folhas de hera e ramos de cedro (o que o levou a ser conhecido como o Carro das Ervas) ao qual se atrelavam duas possantes juntas bois. Mas, com as novas exigências urbanísticas e pela dificuldade em conseguir bois possantes foram as mesmas substituídas das por um tractor devidamente ornamentado para o efeito…sobre o estrado onde decorre toda a cena, existe, ao fundo, como que um segundo palco (mais pequeno e mais estreito), com acesso por dois lances de escadas laterais. Nele podem ver-se dois pequenos anjos que irão ladear o Sanjoãozinho no momento da sua aparição…O Carro dos Pastores é uma alegoria ao nascimento de S. João Baptista, inspirado no Evangelho segundo S. Lucas – “Não temas Zacarias porque foi ouvida tua prece e Isabel, tua mulher, parirá um filho e pôr-lhe-ás o nome de João” – não podiam faltar os pastores que aqui aparecem em número de catorze (sete rapazes e sete raparigas) de cujos cajados e pandeiretas pendem coloridas fitas. Usam chapéus de palha descaídos sobre os ombros, com a aba erguida, presa à copa e ornamentados de flores confeccionadas com fitas de seda dos mais variados tons. Do traje das pastoras constam uma saia, colete e avental guarnecidos com fitas coloridas, blusa branca, meia e sandálias. Os pastores trajam calção e colete com idênticos adornos, camisa branca, faixa vermelha na cinta, meia até ao joelho sobre o calção e sandálias. Zacarias e Isabel, pais de João Baptista e o Anjo são outras das personagens da peça não esquecendo S. João Menino, personificado numa criança de três a quatro anos de idade.”/ http://bragasjoao.no.sapo.pt- Tudo isto enquanto se prepara a Festa de São João de Sobrado/Valongo, recriação que já foi trazida com enorme êxito à cidade do Porto numa passada edição do Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica/FITEI; “Por um dia se recorda a memória dos tempos em que estas terras foram ocupadas pelos árabes; se faz a experiência de subverter e de refazer a ordem social; de pôr em cena pequenas peripécias dos trabalhos e dos dias, procurando linguagens para dizer quão profundas e quão mesquinhas elas por vezes se nos apresentam. Falo da Festa da Bugiada e da Mouriscada de Sobrado, que acontece perto de Valongo, que conseguiu – e consegue ainda – não sem tensões e contradições, ressignificar-se nas condições da vida difícil dos tempos que correm, nomeadamente junto dos mais jovens. Para muitos vale o que aparece à superfície: uma banal luta entre o bem e o mal. Em Sobrado, porém, não é fácil dizer quem são os bons e quem são os maus. Porque os dois lados habitam cada um, numa tensão que se diria quase irresolúvel. Mais do que de bons e de maus, a Bugiada e a Mouriscada revela-nos, afinal, como pode conviver a identidade com a diferença. Não apenas conviver, mas também vivificar-se” (Manuel Pinto-Reflexões e Inquietações)

Este ano pela situação sanitária, festas romarias e ajuntamentos foram proibidos, assim como o lançamento de balões e queima de fogo-de-artifício. Também as fogueiras e os saltos tradicionais, e a ida ao mar/praias para os mergulhos;

“Quem saltar a fogueira na noite de S. João, em número ímpar de saltos e no mínimo três vezes, fica por todo o ano protegido de todos os males. Diz a tradição que as cinzas de uma fogueira de S. João curam certas doenças de pele. Para certos males, são benéficos os banhos que se tomem na manhã do dia de S. João, mas antes do Sol nascer. No Porto,  os que se tomavam nas praias do rio Douro ou nos areais da Foz, valiam por nove… As mães passavam por cima das chamas (sem queimar, claro) as crianças doentes ou fracas, e para todos era bom dizer quando saltavam a fogueira:”

“Fogo no sargaço,
saúde no meu braço.
Fogo no rosmaninho,
saúde no meu peitinho.”

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