AS MADRINHAS DE GUERRA DE OUTRORA

Figura feminina das décadas de 60 e 70 do século passado, em paralelo com as várias frentes de batalha que Portugal travava nas suas possessões de além-mar, há inúmeros portugueses que ainda têm bem presente a figura da “Madrinha de Guerra”, um ser feminino de amizade e aconchego emocional, que nasceu e persistiu enquanto duraram as hostilidades no antigo Ultramar, extinguindo-se com a independência dos territórios. Por isso, várias décadas após, a figura emocional da “Madrinha de Guerra” só poderá ser vista como “relíquia” guardada no baú das coisas em desuso. Ainda assim, achei por bem recordar esse fenómeno histórico, ao menos para que os vindouros possam ter uma leve ideia de alguns aspectos que afetaram a sociedade portuguesa desses tempos, bem como o histórico papel emocional que as mulheres portuguesas tiveram no período em análise, como figura preponderante do estado anímico dos militares em campanha. A figura da “Madrinha de Guerra”, cuja criação terá sido influenciada pelo extinto Movimento Nacional Feminino, que englobava figuras próximas de elementos de Alta Patente dos quadros do Exército, da Aviação e da Marinha. Embora a função da figura criada tivesse por finalidade o apoio moral aos militares em terras distantes, talvez possam contar-se pelos dedos os mancebos mobilizados que não tenham tido pelo menos um elemento feminino com quem tenham mantido contacto mais regular nesse contexto. No entanto, alguns camaradas tinham tantas que se viam ocupados pela leitura ao longo da semana. Mas, pensando bem, era desolador assistir à chegada da avioneta aos pontos mais remotos dos territórios (eu também senti essa privação, tanto no Niassa como em Tete), sem que pelo menos uma missiva nos viesse endereçada. Por isso, sem surpresas, quando a aeronave chegava à proximidade dos quarteis, era vista por todos como se de uma massagem balsâmica se tratasse.

No meu caso pessoal, à semelhança de muitos camaradas da Companhia e do Batalhão, sem surpresas, esses contactos eram vistos como um alimento emocional de que os militares necessitavam para poder suportar o isolamento e a ausência da família. Por isso, receber notícias de Freixo, de Barcelona, Joanesburgo, Sever do Vouga, VN Gaia ou até da Venda das Raparigas, já fazia parte do dia-a-dia de um combatente, pois cada aerograma recebido traduzia também a recontagem para baixo, do tempo de serviço que ainda tínhamos pela frente. No meu caso pessoal, para além dos mais diversos  contactos virtuais que tive, apenas logrei conhecer a uma só “madrinha, pelo facto de, na minha terra de origem, ela pertencer já ao leque das minhas relações pessoais e até com leves ligações familiares. No fim de contas, ao longo dos 24 meses de comissão e afastamento físico a que fomos forçados, tudo se processou como se dum sonho efémero se tratasse, mas que, afinal, de efémero nada teve. Até porque, se as “madrinhas” surgiram no nosso caminho por via da guerra, o próprio armistício se encarregou de as dispersar, estando ainda por apurar o índice de relacionamentos que terão resultado em ligações para a vida inteira”. Passados tantos anos, voltar a falar num tema tão sensível como este, traduz-se num momento solene para saudar a freixenista que durante dois anos teve paciência de sobra para aturar os meus estados de alma, sobretudo nos momentos menos bons. Por isso, os meus agradecimentos à D. ISABEL MARIA E.S., pela sua paciência e pelos seus conselhos encorajadores, que me possibilitaram tornar a solidão mais leve e menos maus os momentos de desânimo, que também existiram. Deixo esta saudação sincera, com votos de felicidades para ti e os teus familiares mais íntimos. Obs: Texto escrito segundo a ortografia antiga

in – A Nordeste do Fíngoè – cap. 21-Agosto/2016