O Clube Desportivo de Rabo de Peixe, fundado em 1985, é um dos maiores orgulhos desta vila piscatória. Com as modalidades de futsal, andebol e futebol, época após época os resultados do clube têm vindo a melhorar. Numa entrevista do AUDIÊNCIA ao presidente do Desportivo de Rabo de Peixe, Jaime Vieira, ficámos a conhecer o Clube de uma perspetiva diferente àquela a que estávamos habituados.

 

Que resumo faz desta última época, que acabou com uma grande vitória para o futebol em Rabo de Peixe?

O país tinha diversas séries, mas devido às componentes financeiras e geográficas, decidiram criar a série Açores. Há sensivelmente oito ou nove anos deu-se o desaparecimento da Série Açores, ficando apenas provas locais, havendo o passo seguinte que é o Campeonato Nacional de Seniores, onde vamos agora competir.

Temos tentado dar o salto. Temos ficado quase sempre no pódio nos últimos cinco anos. Fomos duas vezes vice-campeões, ficamos uma vez em terceiro lugar e outra em quarto.

Finalmente este ano conseguimos este nosso objetivo de subirmos para o Campeonato de Portugal, mas arrancado a ferros porque entra a questão da pandemia, as provas terminam e ficamos na expectativa sem saber o que nos ia acontecer.

Relativamente a todas as outras equipas de todas as outras séries do país, erámos a única que tinha uma situação mais favorável porque, aquando do término das provas cá nos Açores, o Desportivo de Rabo de Peixe já era o virtual campeão, ou seja, faltavam disputar cinco jornadas, e mesmo que perdêssemos todos os jogos e o segundo classificado ganhasse, Rabo de Peixe já era matematicamente campeão.

A grande confusão foi que a Federação Portuguesa de Futebol ficou sem saber o que haveria de fazer relativamente à situação daqueles que foram e daqueles que deveriam ser campeões, ou seja os que estavam em primeiro lugar até ao término do campeonato.

Para nós e para toda a comunidade seria uma injustiça tremenda porque, efetivamente, houve investimento, houve uma preparação, houve uma prova que se realizou por mais de sete meses e não se podia pôr em causa tudo o que alcançámos devido ao facto da prova ter terminado um mês mais cedo. Esta foi a nossa grande luta, mas felizmente acabou bem. Contámos com a preciosa colaboração da Associação de Futebol de Ponta Delgada, que tudo fez nesta altura para que o Clube Desportivo de Rabo de Peixe estivesse representado neste Campeonato Nacional de Seniores; contámos também com o grande embaixador dos Açores, o Pedro Pauleta, que foi um dos impulsionadores desta nossa grande conquista e, também, não podia deixar de reconhecer o trabalho, acima de tudo, da Federação Portuguesa de Futebol através do seu presidente, porque foi ele que percebeu as nossas inquietações.

Esta foi a nossa grande conquista festejámos por duas vezes: a primeira porque conseguimos vencer no campo e a segunda porque, efetivamente, conseguimos festejar esta conquista, um mês e meio mais tarde, quando fomos reconhecidos como uma das equipas a disputar este campeonato.

 

Entrando na parte técnica do funcionamento do clube. Pergunto que dificuldades tem o clube, inclusive sobre não terem sede nem sítio próprio para treinar.

A maior dificuldade nesta altura prende-se essencialmente com o facto de não termos casa. É uma preocupação que nós temos. Quando digo “casa”, não é que não tenhamos um espaço que sirva de sede, ou um campo onde possamos treinar, mas não há nada como termos o nosso campo e as nossas instalações, onde possamos criar as nossas raízes.

O dia-a-dia do clube é muito mais complicado, principalmente a nível da formação: os gastos são duas ou três vezes superiores relativamente à questão do combustível porque há que transportar todos os meninos da formação para a Ribeira Grande ou Pico da Pedra. Há um aumento de desgaste das carrinhas e também da própria estrutura.

Assim vê-se a grandeza deste clube: durante três anos permanecemos no campeonato, quer das provas organizadas pela Associação de Futebol de Ponta Delgada por todos os escalões de formação, ou seja, isto não afetou a nossa ação. Continuamos a competir em todos os escalões de formação e continuamos também a ter resultados desportivos, principalmente a nível sénior que conseguimos o objetivo que foi a subida de divisão.

Quanto às principais dificuldades que vamos ter na equipa sénior a nível do próximo ano, digo que para nós é tudo uma novidade. É um campeonato que desconhecemos… tudo será novidade a partir desta altura, o que requer da nossa parte um maior profissionalismo, requer ter uma ou duas pessoas a tempo inteiro no clube, o que para nós será uma situação completamente nova porque todos nós somos amadores.

Isto vai querer da direção uma maior entrega e também vai requerer que a logística de todo o clube aja de uma forma mais profissional. Temos que estar preparados para este salto e acreditamos que vamos estar, mas numa fase inicial será uma situação mais complicada.

Com o caminhar da carruagem vamos entrando neste novo espírito e nesta nova realidade, mas esta fase inicial vai ser mais complicada devido a tudo aquilo que disse: não termos casa própria, irmos para um campeonato diferente, termos que nos profissionalizar… tudo isto leva a que seja uma situação completamente nova e, como bem sabemos, quando existem coisas novas temos que nos readaptar a uma nova realidade e já o estamos a conseguir.

 

Como conseguem manter o clube financeiramente?

Nós contamos com um parceiro extremamente importante que é a Câmara Municipal da Ribeira Grande. Aliás, enquanto instituição desportiva do concelho da Ribeira Grande, somos privilegiados nesta altura por termos uma Câmara Municipal que apoia o desporto e apoia-o bem. Diria que é o nosso principal patrocinador, e quando digo “nosso”, digo também relativamente ao Sporting Club Ideal da Ribeira Grande, ou do Vitória Clube Pico da Pedra… Num campeonato dos Açores foi assim, num Campeonato Nacional logicamente que também vamos ter o privilégio de contar com o apoio do Turismo nas camisolas do nosso Grupo Desportivo, que é uma verba que ronda os 100 mil euros. Realmente é um grande investimento a partir desta altura.

Também temos o apoio do Governo Regional dos Açores para as passagens, o que nos garante nesta altura alguma folga para enfrentarmos aquilo que aí vem, e tem também o apoio do jogador formado na Região, em que todos os clubes que competem na divisão do Campeonato dos Açores, se utilizarmos jogadores formados na Região, temos um apoio substancial.

Contamos também com o apoio dos pescadores de Rabo de Peixe que descontam para a instituição. Este apoio já foi maior, mas ainda continua a contar, não interessa se é um euro, ou dois ou três, o que interessa é que as pessoas se unem à volta do clube.

Tirando isto, temos receitas de patrocinadores, a quem vamos bater à porta de vez em quando. Temos ainda o apoio da Junta de Freguesia de Rabo de Peixe, mas em pequena escala.

Acima de tudo temos de saber gerir: viajamos sempre com menos pessoas, por exemplo… logicamente que estas três épocas sem campo de futebol fez com que o passivo aumentasse. Não quero com isto dizer que tenhamos contas negativas, mas os gastos aumentaram devido àquilo que já expliquei, que é a questão do transporte e de treinar e jogar fora de casa.

Acima de tudo, o Desportivo de Rabo de Peixe nunca gastou mais do que recebe. Se recebemos 10, gastamos nove. Sabemos que acabamos por gastar mais que o que está no orçamento. Ao fazermos o orçamento, sabemos que se temos 10, vamos pôr nove porque aquele que falta será para alguma derrapagem que haja no orçamento para que, ano após ano, tenhamos as nossas contas em dia, perfeitas e equilibradíssimas. Não temos saldo negativo e isto para nós é motivo de orgulho porque para além dos resultados desportivos, temos a nossa situação financeira estável.

O apanágio desta direção tem sido gastarmos aquilo que temos e nunca mais que aquilo que temos. O principal objetivo é mantermos as contas equilibradas porque é isso que garante o futuro do clube.

 

Há seniores a tempo parcial e também profissionais. Como é que se conjuga isto?

Nesta altura, para o campeonato a que vamos, vamos contar com jogadores vindos do Continente. Nesta primeira fase vamos contar com três e posteriormente poderá vir mais um ou outro.

Um jogador que vem do Continente não faz mais nada sem ser jogar futebol. Nesta situação, não podemos, logicamente, pedir para vir para cá e depois fazer mais qualquer coisa durante o dia. A princípio já temos uma nova realidade e já vão haver jogadores a fazer isso.

Vamos treinar a partir das 20h para que os jogadores amadores possam vir aos treinos. Pretendemos que esta dinâmica continue a acontecer. Sabemos que podemos ficar prejudicados desportivamente relativamente a outros clubes porque estamos numa divisão em que a maioria dos clubes são SAD’s [Sociedade Anónima Desportiva], ou seja, são empresas. As empresas, geralmente, têm como objetivo valorizar esta SAD porque há investidores, há pessoas que põem dinheiro… a maioria dos clubes também são profissionais, ou seja, 90% dos atletas só fazem isto.

Para nós isto é uma desvantagem. Temos jogadores que têm de ir ao mar, trazer o peixe, passar horas no mar e depois treinar, ou são pedreiros e levam o dia a partir pedra ou a trabalhar com cimento… temos outros atletas que têm outras profissões como professores ou enfermeiros… logicamente que ficaremos um pouco prejudicados relativamente aos outros clubes. O que nos vai valer é a mística que este clube e estes jogadores têm que, à semelhança dos outros anos, irão fazer tudo para conseguirmos o nosso objetivo, que é a nossa presença no Campeonato Nacional de Seniores.

 

Tendo em conta todas estas adversidades, como é que viram esta vitória?

Ainda mais saborosa! Devido a todas as dificuldades, devido ao facto de termos vindo a apostar fortemente na preparação da época desportiva, o que dissemos à equipa técnica e aos jogadores foi: vamos fazer um investimento maior, mas este investimento só tem que ter um caminho que é a subida de divisão. Fomos buscar os melhores jogadores que havia nos Açores. Tivemos um leque de jogadores fantásticos e agradeço publicamente tudo o que fizeram. Tivemos também a coragem de apostar num treinador jovem, que ia treinar pela primeira vez uma equipa como treinador principal. Esta aposta no Nelo fez do Desportivo de Rabo de Peixe uma das melhores equipas que competiu naquele campeonato, aliás, nós conseguimos bater quase todos os recordes que havia nesta prova como, por exemplo, a equipa com mais vitórias, com menos golos sofridos e com mais golos marcados.

Aproveito esta ocasião e esta entrevista para reconhecer o trabalho que o Mister Nelo realizou. É um jovem trabalhador com um grande futuro pela frente. É verdade que tivemos um plantel muito forte, talvez dos mais fortes que o clube já teve, mas também é verdade que tivemos quem o soubesse potencializar ainda mais; para os jogadores e para a equipa técnica, um reconhecimento enorme pelo magnífico trabalho que ambas as partes fizeram. Aproveitando isto, quero também agradecer a toda a estrutura do Clube Desportivo de Rabo de Peixe, que tem trabalhado nestas condições. Não é fácil… Não é fácil andar de casa às costas. Por esta estrutura, pela formação do Desportivo de Rabo de Peixe, para os pais destes miúdos que nos acompanham, é mais difícil irmos treinar nos outros campos porque temos de nos adaptar. Logicamente que os pais têm sempre a preocupação de os filhos não chegarem muito tarde a casa, por isso agradeço a esses pais que deixaram, durante estes três anos, que os miúdos continuassem a pertencer ao Clube e fizéssemos deste um dos maiores clubes dos Açores.

No meu entender, os maiores clubes que trabalham a formação não são só aqueles que ganham títulos porque é muito mais fácil ganhar um título numa equipa de Ponta Delgada devido ao nome que se criou e devido a outras condições, como por exemplo vir buscar miúdos a outros clubes, mas, mais importante que isto, é ficar alguns anos com a casa às costas e continuar a ter equipas competitivas e jogadores que não querem sair deste clube e que vão ingressar nesta época nos seniores. Esta é a nossa verdadeira formação: formar homens e jogadores para quem um dia possam chegar lá a cima, a uma equipa que vai disputar o campeonato nacional de seniores. Daí, digo que a formação de Rabo de Peixe também está de parabéns, todos os treinadores, e aproveito o momento para agradecer a paciência que tiveram, pedir desculpa pelos transtornos e dizer que esperamos que em fevereiro ou março já teremos o nosso campo. É uma previsão que faço devido à rapidez em que a obra está a ser construída. Só peço mais um pouco de paciência até às coisas voltarem à realidade.

 

Acha que o facto de os seniores terem ganho deu um alento aos mais novos? Este clube é uma forma dos miúdos serem mais responsáveis e retirá-los da rua?

Logicamente que sim. Esta vitória dos seniores – e na altura disse isso a um órgão de comunicação social nacional – não representa só uma vitória desportiva. É uma vitória social de uma terra que muitas vezes é incompreendida, muitas vezes é acusada, muitas vezes é estigmatizada, mas, aos poucos, de ano para ano e de geração para geração, os rabopeixenses têm conseguido transformar esta terra numa terra completamente diferente. Sempre houve potencialidades… mas temos conseguido fazer com que as pessoas de fora olhem de maneira diferente e respeitem esta terra com o respeito que ela deve ter.

Esta vitória no campo desportivo vai potenciar ainda mais a ideia que as pessoas têm deste clube e a ideia que as pessoas possam vir a olhar para este clube de forma diferente porque vamos colocar Rabo de Peixe no panorama nacional: vamos trazer equipas e jogadores e vamos potenciar esta vila. Enquanto presidente deste clube, esta é uma grande vitória, ao mesmo nível que a vitória desportiva. Quanto mais este clube for falado pelos bons motivos, maior será o reconhecimento desta vila. Posso dizer que esta vitória colocou Rabo de Peixe nos jornais nacionais por bons motivos e colocou Rabo de Peixe a ser falado na Federação Portuguesa de Futebol, onde estão os maiores clubes do país não profissionais.

Quanto à outra questão para quem está mais em baixo [mais novos], imagine-se um miúdo de 12, 13, 14 ou 15 anos, poder um dia estar neste clube, poder um dia viajar até Lisboa, pisar outros palcos, ir ao Centro Comercial Colombo, ir ao Jardim Zoológico… é tudo uma oferta diferente que eu acredito que vai fazer com que estes jovens estejam no futebol e estejam no desporto. Ao estarem no desporto, logicamente que vamos retirar os jovens e os miúdos desta vila de outros possíveis caminhos. Não é por ser em Rabo de Peixe. A oferta em termos de malefícios para a sociedade é cada vez maiores, e um dos maiores vícios atuais é as novas tecnologias, por exemplo.

Os miúdos podem ter outro caminho e podem ter objetivos na sua vida como desportistas. Acredito que um dos nossos grandes males hoje em dia é não colocarmos objetivos e deixarmo-nos ficar… não olhar para cima, não querermos chegar lá a cima… não tenho dúvidas de que se conseguirmos manter-nos nesta divisão, muitos jogadores poderão dar outros saltos porque estão mais próximos dos grandes clubes e temos grandes exemplos de jogadores que estiveram neste campeonato e já chegaram lá a cima.

Acredito que o Desportivo de Rabo de Peixe dê um salto enorme naquele que é um dos principais clubes que irá trabalhar também as questões sociais desta vila e dos mais novos.

 

Muito se fala no futebol, mas o Clube Desportivo de Rabo de Peixe tem outras duas modalidades.

O desporto 11 é sempre o desporto rei, mas ao longo dos tempos temos sabido traçar um trabalho rumo a um objetivo.

Temos sabido consolidar-nos no futsal de forma correta, para que, ano após ano, os miúdos possam ir crescendo a nível desportivo e um dia abrirmos novamente uma equipa sénior com jogadores locais. Tem sido um trabalho árduo. Pouca gente tem estado à frente desta secção. Merecem todo o respeito e admiração à semelhança daqueles que estão à frente do futebol 11. Queremos continuar a apostar no futsal porque é uma modalidade que tem tudo para crescer e para vingar no panorama regional.

Mais importante que ganhar títulos é a consolidação das equipas e é haver uma oferta desportiva. Além do futsal e do futebol temos também o andebol, fruto de uma aposta de um grupo de pessoas que quis abrir andebol em Rabo de Peixe e que tem tido uma grande aceitação quer a nível desportivo, mas mais importante, a adesão por parte dos miúdos e dos pais.

A estes dirigentes, que muitas vezes não têm palco para brilhar ou que muitas vezes ficam na retaguarda, digo que são eles os verdadeiros obreiros nestas duas modalidades.

 

Onde é que estas equipas treinam?

Treinam no pavilhão da Escola Básica Rui Galvão de Carvalho. As condições são boas. Logicamente que, devido à dimensão do nosso clube (estamos a falar de uma instituição que gere mais de 350 miúdos e que vai crescer mais quando tivermos o nosso campo), deveriam olhar para nós de uma forma diferente. Não é que não sejamos respeitados, porque somos, mas a realidade é que estamos inseridos numa sociedade e numa vila com especificidades muito próprias, mas dentro daquilo que são as nossas limitações, temos conseguido crescer. Relativamente a esse crescimento, o clube prepara-se para adquirir mais uma carrinha nova para dar uma resposta diferente àquilo que são as grandes solicitações que temos vindo a ter.

 

Como é que se consegue ter este número que chega a ser “invejável” para muitos clubes?

Só a nível do futebol nesta altura, temos mais de 200 praticantes no total. Posso dizer que quando tínhamos o nosso campo, já tivemos mais de 300 praticantes. Com a insistência de um campo próprio, logicamente que perdemos alguns miúdos, mas não tenho dúvidas de que vamos recuperar o número que tínhamos.

Cada vez que abrimos uma nova modalidade, ela é sempre muito requisitada por parte dos miúdos. Somos uma vila jovem, o que faz com que tenhamos esse privilégio de ter um grande número de pessoas inseridas. 240 a nível de futebol 11, mais três escalões de futsal, mais dois no andebol… é um número que chega aos 350.

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