CAPELA DO SENHOR D’ALÉM VAI RECUPERAR A DIGNIDADE

A Capela do Senhor d’Além apresenta atualmente um avançado estado de degradação, após anos de abandono, vandalização e sucessivas ocupações ilegais que deixaram profundamente danificado este importante património religioso e cultural de Gaia.

Situada numa zona de difícil acesso, e na freguesia de Santa Marinha, junto à zona histórica ribeirinha próxima da margem do rio Douro. O templo encontra-se implantado numa encosta sobranceira ao rio, numa zona isolada e de acesso discreto, entre a zona do Cais de Gaia e os antigos caminhos que ligavam Santa Marinha às áreas ribeirinhas.

O templo acabou transformado em palco de destruição e desmandos, apesar de já ter existido um projeto de recuperação que nunca teve continuidade durante o anterior executivo camarário.

Após uma visita ao local do presidente Luís Filipe Menezes, os serviços municipais identificaram a situação e notificaram a paróquia de Santa Marinha, proprietária do imóvel, para proceder às obras de limpeza e reparação dos danos provocados pelo vandalismo. A própria paróquia já havia alertado anteriormente a autarquia para o estado de abandono do edifício, sem que tivessem sido tomadas medidas eficazes.

Perante a eventual impossibilidade financeira do proprietário, a Câmara admite avançar com posse administrativa temporária do espaço, mecanismo legal que permitirá realizar os arranjos necessários. Segundo fonte camarária, trata-se apenas de uma formalidade administrativa e não de qualquer processo de expropriação. Com esta intervenção, o atual executivo pretende devolver dignidade e segurança a um dos espaços religiosos mais simbólicos do concelho.

A RAZÃO DE SER D’ ALÉM

A Capela do Senhor d’Além constitui um dos mais antigos e simbólicos espaços de devoção religiosa de Vila Nova de Gaia,profundamente ligadas à história espiritual das margens do Douro.

A tradição histórica refere que, no século XII, durante a edificação de um convento feminino de invocação a São Nicolau, no local onde mais tarde surgiria o Mosteiro da Serra do Pilar, terá sido encontrada uma imagem de Cristo Crucificado. O bispo do Porto dessa época, mandou construir uma pequena ermida no sopé da encosta, junto ao rio, destinada a acolher a imagem sagrada. Esse núcleo religioso daria origem à futura Capela do Senhor d’Além.

O nome “Senhor d’Além” está  ligado à relação entre Gaia e a cidade do Porto. Para os habitantes portuenses, a imagem venerada encontrava-se “além do rio”, isto é, na outra margem do Douro. A designação popular acabou por consolidar-se ao longo dos séculos, tornando-se a invocação oficial do templo.

Ao longo da sua história, a capela assumiu grande importância na religiosidade popular da região. A imagem do Senhor Crucificado era considerada milagrosa e chegou a ser transportada em procissões fluviais pelo Douro, sobretudo em períodos de seca, para preces pedindo chuva. O culto ganhou tal notoriedade que a devoção ultrapassou as fronteiras de Gaia, envolvendo também o Porto e as comunidades ribeirinhas.

No século XVIII, junto à capela foi fundado um hospício carmelita, reforçando a relevância espiritual do local. A atual capela foi edificada em 1877, mantendo viva uma tradição religiosa secular que permanece profundamente ligada à memória histórica e cultural de Gaia.