Bem o podiam ter apelidado de Lingrinhas, Rato de Esgoto ou Tronco de Urtiga, porque apresentava à primeira vista condições para estas denominações. Mas no Regimento de Infantaria só era conhecido entre os praças pelo nome de Chicharro d’Olho Azul. Decerto a cor dos seus olhos dava inveja a muita gente, porque na realidade eram bonitos, com um tom de azul diferente daqueles que a ver acostumados estávamos nos rostos humanos da Ilha de São Miguel; e se por acaso colocássemos a seu lado um chicharro fresquinho, ainda aos pulos pela agonia da morte, diriamos certamente que os olhos de ambas as criaturas seriam idênticos.

Esta volta de recordar o soldado Chicharro d’Olho Azul surge nesta crónica sem o intuito de ofender ninguém. Como todos sabem, por qualquer coisa se apanhava uma alcunha, desde a aparência até à profissão, passando por feitos, ditos, ligações familiares e sociais e muitas mais. Eis o exemplo do meu amigo de Rabo de Peixe, o Carlos Arruda, que ninguém o conhecia por este nome, mas sim por “Chapa”, porque era bate-chapa de profissão; Ou o caso do Demónio: um pobre rapaz que usava muito a palavra “demónio” na sua linguagem corrente e que acabou carregando-a no nome, pelo que nunca mais foi conhecido por aquele que lhe deram no batismo, fazendo com que toda a gente o passasse a chamar de Demónio, Diabo, ou Satanás.

Com franqueza, digo que não estou gostando do rumo desta crónica. Por isso vou tentar desviar-me do Inferno. Agora sigo o caminho do Paraíso, e num fosso que encontro no tempo cruzo-me com um vendilhão, carregando nos ombros dois cestos suspensos nas extremidades de um varapau, que com rouca voz apregoa: “Eh, Chicharro grado!… Eh, chicharro fresco!…” Afinal, trata-se da mesma pessoa que no dia anterior cantava o “Chicharro vivo”, acabado de apanhar; e muitas vezes anunciava o “chicharro novo”, referindo-se ao mesmo peixe, mas de pequena dimensão.

O chicharro era o peixe que mais se comia em São Miguel e durante o ano inteiro. Claro está que o seu consumo sempre dependia de vários factores, de entre os quais as condições do mar e da atmosfera. Por isso, quando fartura havia, o preço sendo mais acessível facilitava a compra em maior volume e implorava a salga. Estamos a falar da época em que os  frigoríficos e as arcas congeladoras não existiam nas habitações. Haverá por aí alguém da minha idade que negue a sua satisfação pelo peixe salgado de antigamente? Se há, também não deve gostar do bacalhau, que por ser salgado consegue ser o ingrediente número um de mil e uma receitas culinárias.

Que ao chicharro dos Açores os continentais dizem ser carapau, não vou contra, pois estão no seu direito. Podem ter cara-de-pau, mas também têm olhos azuis e são lindos por natureza. Mas isso não interessa. Como também não nos importa se os da Califórnia têm os olhos vermelhos, por serem mais pacíficos. Na verdade, quando entram na frigideira fazem o mesmo barulho e soltam o mesmo aroma, que nos lares da nossa presente era se evita todos os dias, mesmo usando fortes e competentes exaustores.

Antes da vinda do peixe fresco dos Açores para o continente americano podíamos comprar chicharros congelados nos supermercados da Nova Inglaterra. Estamos a falar das casas servidoras da lusa gente. As embalagens traziam em si os chicharros de olhos vermelhos, os tais pacíficos, da Califórnia, como diziam. No entanto não me recordo de ter lido nos rótulos daqueles sacos plásticos o local da sua origem, mas lembro-me que algumas diziam tratar-se de carapaus. À primeira vista um bom observador podia notar três  pequenas diferenças entre aquele peixe e o chicharro dos Açores: um tom de nada mais grosso, um pouco mais curto, e a tal cor dos olhos. Destes poucos ou nadas nunca me interessei saber. Era o que havia, comia-se e matava-se o desejo. Quanto às sardinhas, estas traziam com orgulho a identificação de nacionalidade portuguesa, provenientes de Setúbal ou Peniche.

Isto faz-me recordar a controvérsia da sardinha mantida por muitos e muitos anos na nossa Ribeira Grande e em toda a terra micaelense, principalmente ao longo dos anos de sessenta e setenta do século passado. Que a sardinha de Rabo de peixe não valia nada em comparação com a sardinha de Lisboa. Aquela que no tempo da fome, pós-guerra (segunda guerra mundial), veio para os Açores saciar a população. Vinha salgada e seca em caixas de madeira, e segundo diziam duas sardinhas saciavam uma família de seis pessoas. Houvesse pão! Era tal como o queijo de São Jorge: cheirava-se o queijo e dava-se uma dentada no pão. Aliás, era praticamente assim com quase tudo. A salvação de muitas famílias foi haver fartura de pimenta malagueta salgada durante todo o ano. As práticas passavam a costumes, de tal modo que, no meu agregado familiar de infância onde, graças a Deus, nunca se soube o que era a fome, ficávamos por vezes boquiabertos ao ver minha mãe fazer uma refeição de uma fatia de pão com uma pimenta salgada. Viesse o melhor manjar de dia de festa, a sua comida favorita era a malagueta salgada com uma fatia de pão! Incrível. Acredite quem quiser, e fique sabendo que não tenho necessidade de inventar estas coisas.

Voltando ao chicharro, como proteína de ricos e pobres nos Açores dos meus amores, mais particularmente na Ribeira Grande do meu coração, dos tempos que já lá vão à memória chega o chicharro novo assado na sertã, ou frito, de modo a não ser necessário tirar-lhe as espinhas para mordê-lo do rabo à cabeça; o chicharro médio em caldeirada, ou cozido, ou salgado e assado na brasa; o chicharro grado recheado, nem se fala, pois tudo depende do recheio. Tantas e tantas maneiras de confeccionar uns chicharrinhos, que depois, ao comê-los, nem os seus olhinhos, azuis ou vermelhos, de cor transformada pelo processo culinário, escapavam à dentada.

A história que se segue pode diferenciar-se um pouco da original, por já ter sido contada várias vezes por pessoas diversas, mas não foge ao essencial, que é verdadeiro, o qual tentaremos manter até ao fim sem nenhum exagero. Ei-la:

Manuel Pacheco, conhecido em New Bedford por Manuel da Virgínia, por ter ido trabalhar para aquele estado norte-americano, e por lá ter ficado a viver, acabando por casar com a filha do patrão, e que com a morte deste passou a ser o dono de uma grande empresa de construção, nunca esqueceu as suas raízes, e visitava a cidade baleeira várias vezes por ano. Por volta da viragem do século, numa das suas vindas a Massachusetts convocou uns três ou quatro amigos a participar com ele numa romaria quaresmal em São Miguel. Pensado, dito e feito! Durante a estadia na Ilha Verde, não sei se antes ou depois do cumprimento do propósito da viagem, numa madrugada qualquer acordou os companheiros, e pôs-se com eles em viagem, numa carrinha de caixa aberta, até ao porto da Ribeira Quente. Ali comprou, directamente dos pescadores, várias dezenas de quilos de chicharros, ao preço de duzentos escudos o quilo. Depois, diriu-se à Lomba de São Pedro, sua freguesia natal, e na rua principal entre apitos e altas vozes começou a apregoar “Eh, chicharro vivo, eh, chicharro fresco”, atríndo as mulheres à rua a perguntar o preço. Dizia ele que era a cinco escudos o quilo, e as mulheres retraíam-se, pensando que havia alguma coisa de mal com o peixe. Que era bom, que ainda estava vivo – dizia ele. Mas ninguém o queria comprar. Aquele preço era suspeito demais. Então Manuel teve de justificar o valor da venda. Estava fazendo aquilo em memória da sua mãe. Ninguém dali levaria peixe de graça. Todos teriam de pagar cinco escudos por quilo. Uma cena que nunca lhe saiu da cabeça desde a sua infância foi a daquele dia, em que a sua mãe, ouvindo o pregão do homem do peixe, veio à rua a perguntar o preço dos chicharros. Por custarem cinco escudos o quilo ela não os pôde comprar, porque não tinha aquela quantia de dinheiro. Por isso, desta vez Manuel Pacheco fazia questão que com cinco escudos toda a gente pudesse levar chicharros para casa. Um caso inédito na Lomba de São Pedro.

Também durante a nossa infância, já a caminho da juventude, registámos uma cena em que uma brincadeira de rapazes na rua foi interrompida pelos gritos alarmantes de mais um que se veio juntar ao grupo, avisando o irmão que  “estava bem-amanhado” e que iria levar pancadaria da mãe, por ter comido os chicharros todos. Por curiosidade perguntámos-lhe quantos foram. A resposta foi: três.

Sortuda era a gata aloirada do moinho da Ponte Nova porque vimos, por várias vezes, o senhor Aurino Taxinha comprar ao vendilhão do peixe um chicharro, ou uma sadinha, para dar-lhe de comer. Era um merecido prémio por manter os ratos afastados do moinho, enquanto que as outras gatas, pelos quintais da vizinhança, espreitavam as mulheres governando o peixe, à espera que lhes atirassem as guelras. Se as mulheres se despercebiam, virando-lhes as contas, roubavam-lhes os peixes inteiros.

Já basta, por hoje, de falar em chicharros de olhos azuis e gatas de pelo loiro. Acabei de me  aperceber que os chicharros do meu jantar já estão em cima da mesa. Novos, fritos e secos, como torresmos, para serem comidos com cabeças, espinhas e tudo.

Haja saúde! Por favor, protejam-se.

 

Oh, que lindos olhos tem

O chicharro dos Açores!

Fino, apresenta-se bem,

Rei de mil e um sabores.

 

Seja grado ou miúdo,

Venha do Norte ou do Sul,

Há gente que troca tudo

Por chicharro d’olho azul.

 

Seja frito ou assado,

Cozido ou escaldado,

Tem sempre bom paladar.

As palavras vou rimando

E ao mesmo tempo louvando

Chicharro do nosso mar.

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