CONCERTO DE SÃO JOSÉ CELEBRA 50 ANOS E CONTINUA A UNIR GERAÇÕES EM TORNO DA BANDA DE CRESTUMA

Criado em 1976, por iniciativa de um grupo de habitantes chamados José, o Concerto de São José tornou-se um dos momentos mais marcantes e emblemáticos da programação anual da Sociedade Filarmónica de Crestuma. Em entrevista exclusiva ao AUDIÊNCIA, o presidente da Direção desta instituição, José Campos Oliveira, recordou a origem desta tradição, destacou a evolução do evento e o crescente envolvimento da comunidade, sublinhando o papel do concerto na valorização da formação musical. A edição que assinala os 50 anos do Concerto de São José vai decorrer no próximo dia 22 de março, no Salão Paroquial de Crestuma, e promete celebrar a história da instituição, apresentar novos músicos e distinguir personalidades ligadas à cultura, reforçando o papel deste concerto na união de gerações e na valorização da música na comunidade.

 

 

O Concerto de São José celebra, este ano, meio século de existência. Como nasceu esta tradição na Sociedade Filarmónica de Crestuma?

Esta tradição nasceu, em 1976, com um grupo de Josés que se juntou e depois falou com a Sociedade Filarmónica de Crestuma, com a direção de então e com o maestro, no sentido de realizar um concerto para a população. Não é estranho a isto que a tradição de São José vem de uma festa que existia na freguesia em 1948 e 1949, que foi realizada também a partir desses Josés e só depois, em 1976, é que eles conseguiram traduzir isso num concerto. A principal figura, que deu origem e que juntou todos os outros Josés, foi o senhor José Coimbra, que nós chamávamos carinhosamente senhor José XIV. Portanto, o senhor José Coimbra foi o impulsionador do Concerto de São José e, de facto, um grupo de Josés estabeleceu que nós precisávamos de um concerto que animasse a freguesia, ao longo da tradição, conforme as festas que existiram em São José, que seriam em março, como eram também essas festas, e que também dignificassem o Dia do Pai e isso foi conseguido, tanto que a filha dele, a Conceição Coimbra, fazia o beberete aos músicos no final desse concerto. O primeiro concerto foi dirigido pelo maestro Joaquim Costa e um dos três músicos desse primeiro concerto ainda está na Banda de Crestuma, que é o Joaquim Oliveira Gonçalves.  Porquê José 14? O José 14 era um pseudónimo que nós dávamos às pessoas, como ainda atualmente damos nas freguesias pequenas e o José 14 era assim conhecido, porque ele era o funcionário número 14 numa empresa de barcos rabelos. Portanto, nós também estamos a preparar uma surpresa a título póstumo, naturalmente, porque ele já faleceu para agradecermos, publicamente, o facto de ele ter iniciado este Concerto, que é o mais importante de todas as épocas e tem a particularidade de ser onde nós apresentamos os nossos músicos saídos da Escola de Música, é onde apresentamos os nossos primeiros músicos, é onde entregamos os prémios ao Músico do Ano, uma iniciativa que fazemos desde 2013, com uma votação que existe só entre os músicos, a maestrina e o mastro assistente, pois nem a direção, nem nenhum sócio podem votar, pelo que também é sempre uma surpresa, porque é só revelado no Dia de São José, mas também apresentámos o Músico Revelação, que é aquele que a maestrina, o maestro, a direção artística e os chefes de naipes escolhem como sendo o músico que se evidenciou mais durante o ano anterior. Atualmente, o galardão mais importante que atribuímos é o Prémio Alberto da Silva Ramos, que distingue uma personalidade crestumense ou gaiense que se tenha dedicado, ao longo dos anos, ao serviço da cultura e das artes, em Crestuma e em Vila Nova de Gaia. Curiosamente, o primeiro foi entregue ao diretor do AUDIÊNCIA, Joaquim Ferreira Leite, e o último ao atual ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente da Assembleia Municipal de Gaia, Paulo Rangel. Portanto, o Concerto de São José, de facto, ao longo dos anos, tem vindo a dinamizar-se, claro, com o esforço de todas as direções e órgãos sociais, mas, neste momento, está bastante implementado no sentido de continuar a ter um forte desenvolvimento.

 

Ao longo destas cinco décadas, de que foram este concerto evoluiu, quer ao nível musical, quer ao nível da participação da comunidade? Acreditam que a comunidade está cada vez mais envolvida na cultura local?

Eu diria que sim e nós temos algumas evidências. Nos primeiros concertos, nomeadamente de 1976 a 1985, de facto havia muita adesão do público. Depois, talvez porque fosse repetitivo, talvez porque fosse apenas um concerto, talvez por outras razões quaisquer que nós não conhecemos, pois, na verdade, nunca fizemos esse estudo, poucas pessoas aderiam a esse concerto, e nós temos fotografias de até 2003 ou 2004 e estavam cerca de 40 pessoas a assistir ao concerto. Não é que ele não fosse importante, porque foi sempre e ainda bem que se ele se realizou durante todos estes 50 anos, obviamente com a exceção da pandemia, porque não os pudemos realizar, mas mesmo que fosse só com uma pessoa já era importante. Contudo, a partir de 2006 e a partir de que houve uma intenção clara em demonstrar que a Sociedade Filarmónica de Crestuma queria progredir e queria dar mais ênfase a este concerto houve, de facto, uma aposta muito forte nesse concerto e uma aposta muito grande na divulgação, seja em termos de Crestuma, como também fora da freguesia e, nomeadamente, no concelho de Vila Nova de Gaia, assim como iniciamos também contactos, no sentido de poder trazer pessoas mais influentes, que conhecessem mais a arte e a cultura, nomeadamente, a escultora Margarida Santos, que acabou por nos fazer o monumento que está junto à Igreja, tal como a nossa peça institucional, que oferecemos, que de facto é o objeto do Prémio Alberto da Silva Ramos, e muitas outras pessoas a nível nacional, rotários, pessoas de elevada consideração, por exemplo, médicos dos diversos hospitais e responsáveis por vários serviços e claro, a palavra puxa a palavra, e eles foram também trazendo este amigo, e aquele amigo, e nós começámos a traduzir isso numa importância muito grande. Para além disso também, e não focando só esse aspeto da importância da divulgação da Sociedade Filarmónica de Crestuma, apelamos, também, à nossa própria comunidade, através de várias ações, por exemplo, das Tasquinhas que fomos realizando, através dos concertos e ensaios que realizávamos no Verão, começámos a atrair cada vez mais pessoas. A Escola Música dinamizou-se de uma forma extraordinária, sobretudo a partir de 2013, e começámos a integrar cada vez mais alunos do Conservatório. É óbvio que os pais ficaram imensamente satisfeitos e isso traduziu-se também num aumento da qualidade extraordinário, seja da Escola Música, seja da banda, e tudo isto ajudou a que a própria comunidade, por si, com todo este esforço, se aproximasse da banda, e de facto, essa proximidade cada vez é maior e nós hoje assistimos a um Concerto de São José, com uma sala de cheia, com mais de 300 pessoas, e não 20 ou 30 como antigamente. Portanto, trata-se de uma visibilidade de todo o esforço que foi conseguido, ao longo de mais de 20 anos e que traz à instituição a importância que ela merece, para além de, a verdade seja dita, todos os projetos que as várias Direções fizeram comigo, nos Planos de Atividades que nós propusemos, foram todos os anos mais de 90% conseguidos, e nós estamos a falar, por exemplo, da aquisição de uma carrinha que não tínhamos, da aquisição de um instrumental que também não tínhamos, nomeadamente de percussão, quando eu cheguei aqui, em 2004, tínhamos um bolo e duas caixas e, hoje, temos um material de percussão de qualidade e vamos investir mais ainda nesse sentido. Recuperámos a sede que era velhinha, estava a cair aos bocados, e que, hoje, é uma sede nova. Comprámos um terreno por 70 mil euros e estamos a planear a construção de um Auditório e se calhar foi por estas razões que fomos agraciados na XXI Gala AUDIÊNCIA com um Troféu. Portanto, todo este trabalho, que é intensivo, da Direção, dos órgãos sociais, dos músicos, dos pais e de toda esta comunidade ajuda a que a Sociedade Filarmónica de Crestuma cresça. Isto é de tal forma interessante, porque nós somos uma freguesia muito pequena, com cerca de 2600 habitantes, e manter uma banda de música e uma instituição como nós temos hoje é extremamente difícil, e posso-lhe dizer que às vezes dá origem às zangas e às vezes a coisas que nós não queremos dizer, mas que dizemos, porque nós queremos sempre todos o melhor para a nossa instituição e às vezes da discussão nasce a luz e se nasce a luz é para irmos para a frente, independentemente das discordâncias que possamos ter, independente de tudo, temos de chegar sempre a um consenso, porque o interesse principal, naturalmente, e o que é para nós essencial, é a Sociedade Filarmónica de Crestuma.

 

Como referiu anteriormente, a Sociedade Filarmónica de Crestuma anseia a construção de um Auditório, uma vez que não tem um espaço para a apresentação e realização das suas atividades, como é o caso do Concerto de São José e do Estágio D’Ouro, que se realizam na Igreja e no Pavilhão da localidade, respetivamente. Acreditam que o apoio da Câmara Municipal de Gaia é imprescindível para que este sonho se torne realidade?

Nós achamos que a Sociedade Filarmónica de Crestuma merece, de facto, o apoio das entidades locais, políticas e municipais, porque nós já provámos que somos apolíticos, nós já provamos que temos uma diferenciação no que diz respeito à política interna da freguesia e também da municipal, apesar de cada um de nós ter diferenças ideológicas, isto é um universo aberto, digamos, apesar disso nós queremos acreditar que sim, que o município e a Junta de Freguesia têm todo o interesse em ajudar a Sociedade Filarmónica de Crestuma. De facto, nós não temos um espaço para realizar, não é só o concerto, porque o concerto em si, nós conseguimos realizá-lo na igreja, apesar de não ter a acústica perfeita para um concerto desta natureza e de ter algumas condicionantes, mas é o melhor espaço que temos, neste momento para isso. Também, por exemplo, o Estágio D’Ouro tem de ser realizado num Pavilhão, porque é impossível termos tantos músicos e a própria banda também já não cabe no Auditório da Junta de Freguesia, que é demasiado pequeno e sair daqui para Olival, não é uma solução, aliás, o Auditório de Olival tem a sua própria programação, assim como o Auditório Municipal de Gaia e nós não podemos tentar imiscuir a banda nas suas próprias programações. Por outro lado, também, no caso do Estágio D’Ouro, a única alternativa que nós tínhamos, porque sempre tivemos os grandes maestros europeus das classes e das escolas inglesas e holandesas, até ter vindo cá o Jan Cober foi irmos para a Casa da Música, porque não conseguíamos acolher tanta gente neste espaço. Ora, o Auditório, de facto, é importante para todas estas atividades, para o Concerto de São José, para o Estágio D’Ouro, para fazermos os nossos concertos, porque não temos um local para fazer concertos em condições na freguesia, e se a freguesia e o município assim o entenderem, nós esperamos que sim, devem apostar em coisas de qualidade, até porque o Auditório como está projetado, não é um Auditório per si, isto é, não é um auditório para ser um auditório, é um espaço muito polivalente, que vai dar vida a esta freguesia, seja para o Estágio D’Ouro, seja para outros eventos que quiserem vir para cá, aliás está planeado para no verão ter ensaios ao ar livre e ter concertos ao ar livre até mil pessoas, por exemplo, está programado para darmos aulas e termos uma Escola de Música oficial, isto porque nós andamos durante 20 anos a preparar os nossos músicos, a levá-los para o conservatório e a prepará-los para que eles fossem fazer a universidade, onde hoje são licenciados, mestrados, alguns até já doutorados e com pós-graduações e é de todo o interesse que nós possamos captar investimento deles próprios na nossa instituição, criando postos de trabalho para que eles possam também ajudar outros, ao mesmo tempo que ganham dinheiro, envolvendo toda uma comunidade, que pode passar desde Gondomar até Penafiel, sem prejudicar as escolas já existentes, pois não é isso o que nós queremos. Portanto, todo este valor acrescentado, também está inserido na própria organização do Concerto de São José, que foi iniciado em 1976 e ao qual nós achámos que estamos a dar um seguimento absolutamente extraordinário.

 

Este ano assinalam-se os 50 anos do Concerto de São José, que vai decorrer no próximo dia 22 de março. O que vai tornar esta edição especial? O que é o que público pode esperar deste concerto?

Nós todos os anos convidamos um elemento surpresa a nível nacional, mas claro, gostaríamos de ter também a presença do senhor presidente da Câmara, do senhor presidente da Junta e de todas as individualidades que nós conhecemos e com as quais tivemos sempre relações e temos a certeza de que estão presentes, como é o caso da escultora Margarida Santos, do past-governador do Distrito 1970, Duarte Besteiro, e de todas as figuras que se relacionaram com a instituição ao longo destes ano, como também o doutor Cancela Moura, que foi deputado e vereador do município e que, hoje, é o presidente da Mesa da Assembleia da instituição. Portanto, temos todo o interesse em tê-los por aqui, porque, de facto, foram pessoas que colaboraram sempre com a instituição e que deram o seu melhor também, em nome da instituição. Para além dos prémios que revelei anteriormente e da apresentação dos músicos novos, haverão outras surpresas, que provavelmente irão deliciar a população, nomeadamente, divulgação da gravação de dois CDs, um dirigido aos temas da Freguesia de Crestuma, que foram compostos pelo António Ferreira Alves e Joaquim Luís Meireles, e que os poemas são do Eugénio Paiva Freixo, e um outro CD também, com os temas do nosso Maestro Assistente, que é um compositor emergente e que já ganhou diversos prémios a nível nacional e internacional, que é o Francisco Ribeiro. Portanto, vamos combinar tudo isto, no sentido de fazermos toda esta programação anual e termos sucesso, através do Concerto de São José, porque este concerto é que nos vai potenciar toda a época, porque desde há muitos anos, marca o arranque da época da Sociedade Filarmónica de Crestuma, daí a importância, porque é, basicamente, o elemento que catalisa e que faz acontecer tudo o resto, daí ser o nosso concerto mais importante. Isto para além de já pelo 22º ano consecutivo fazermos as Festas de Nossa Senhora dos Remédios, em Arcozelo, que é, de facto, um acontecimento inédito em qualquer banda do país e para além de já garantirmos pela segunda vez consecutiva as Festas de Viana, que também é inédito em qualquer banda neste país, assim como de Lamego e todo este trabalho nasce sempre a partir do Concerto de São José, porque também convidamos as comissões de festas para virem assistir ao nosso concerto. Mas, também dizer que o Concerto de São José, nos moldes em que está instituído desde 1976, e eu próprio já estive a procurar isso na internet, provavelmente será o único concerto em Portugal, na Europa e até no mundo, que se realiza há mais tempo consecutivamente e nós queremos que continue a ser um dos mais antigo e queremos prestigiar cada vez mais este concerto. Então, quando tivermos o nosso Auditório, este concerto vai ser espetacular.

 

Sente que este concerto também consegue unir gerações?

Essa questão é muito interessante e eu acho que sim. Se eu olhar para o meu próprio caso, a minha filha entrou em 2003 na banda, tinha oito anos e hoje é maestrina. Portanto, já uniu a minha geração e já uniu a dela, a dos meus pais, a do meu avô, que foi mestre da banda e secretário da banda durante 40 anos e a do meu bisavô, que foi o fundador da banda em 1921, Alberto da Silva Ramos. Logo, já são quatro gerações de várias famílias de Crestuma, não é só da minha, por exemplo, Agostinho era pai do Joaquim Gonçalves e já era músico, depois foi o Joaquim, mais tarde a filha Isolete e a irmã Ana. Outro exemplo, o mestre da Banda de Fermentelos, o Hugo Oliveira, que por acaso até é nosso primo também, nasceu nesta banda, o pai dele nasceu nesta banda e o avô dele também, que era o tio Daniel. Portanto, quase 65% das pessoas que estão aqui representam gerações ligadas historicamente à Banda Filarmónica de Crestuma. Portanto, demora anos para se formar um músico, quase uma geração e isso é que é extraordinário, porque se os avós, se os pais e os filhos vêm para aqui durante gerações, nós estamos a falar em imensos anos de aprendizagem, de participação na banda e de ensinamentos. No fundo, acaba a ser um reconhecimento por parte da comunidade, que uma instituição como a Banda Filarmónica de Crestuma, como acontece também noutras bandas pelo país fora, que o ensino artístico, neste caso musical, é uma valência, é importante e as próprias pessoas reconhecem e querem manter esse legado dentro da própria família ou expandir até e passar para a própria comunidade. Mas, é importante existirem instituições como a Sociedade Filarmónica de Crestuma, que consigam potencializar esse ensino e continuar a perpetuar o ensino artístico. Eu até presumo que, sendo mais difícil para nós, que somos uma freguesia muito pequena, relativamente às bandas das cidades, é muito mais difícil para nós captar elementos para a nossa Escola de Música. Todavia, e apesar de muitas das escolas de música dos vários concelhos no país terem uma adesão, neste momento, que eu acho que até é admirável, eu continuo a achar que às vezes parece impossível termos o número de alunos que temos numa freguesia tão pequena e isso deve-se de facto a esta interação e proximidade que existe entre a instituição Sociedade Filarmónica da Costuma e os habitantes da Freguesia de Crestuma e não é mesmo exagero dizermos que em cada casa de Crestuma há um músico e isto é absolutamente fenomenal. Eu não conheço casos, se calhar era uma oportunidade de fazer um case-study desta comunidade, porque de facto eu não conheço casos assim, não conheço mesmo. Depois, também, o rácio que nós temos daqueles que começam e terminam a nossa Escola de Música e que ao mesmo tempo vão para o Conservatório e para as diversas escolas com as quais temos protocolos e até universidades, como Braga e Aveiro, tem sido um percurso sempre a subir, ainda não vimos uma tendência descendente. Portanto, isto de facto é extraordinário. Quer dizer, nós temos mesmo de ter esse Auditório, temos mesmo de ter essa Escola de Música, porque os nossos meninos já são professores doutores e nós temos, de uma vez por todas, de saber organizar um polo de investimento e um polo de trabalho aqui para que os nossos meninos consigam ter trabalho dentro de portas e isso é o nosso objetivo principal. Portanto, Concerto de São José, Auditório e Escola de Música, são os três desígnios que nos fazem movimentar neste momento e que queremos, de facto, melhorar. Para muitas pessoas, o Concerto de São José também é a única oportunidade que têm de ver a banda a tocar, fruto de não termos um espaço próprio para os nossos espetáculos, assim como de nós mostrarmos às famílias e a população o nosso trabalho e a razão de tantos ensaios, porque nós temos das poucas bandas que, em 52 semanas faz 48 ensaios, se não formos a única. Eu não conheço nenhuma banda que faça tantos ensaios. Mas, isso também é necessário, porque saber tocar bem não tem a ver só com a técnica, também tem a ver com o ensaio em conjunto, tem a ver com harmonia, tem a ver com sonoridade, tem a ver com altos e baixos, tem a ver com dinâmicas, com acidentes, com tocar mais depressa, mais forte ou menos forte. Tudo isto é preparação que a maestrina Joana e o maestro assistente Francisco dão em todos esses ensaios. É normal que falte um, dois ou três nos ensaios. Mas, se faltarem neste ou naquele, depois vão recuperar e, de facto, quer queiramos, quer não, a banda está a tocar muito bem e isso é fruto dos ensaios e da logística que a Joana também está a implementar nesse sentido e, realmente, nós temos tido muita sorte por ter uma mulher, na direção artística da Sociedade Filarmónica de Crestuma e, já agora, a título de curiosidade, a direção da instituição não se mete nesses assuntos. Todo o planeamento logístico de ensaios, festas, o que se vai tocar, o que não se vai tocar, quais são as programações dos concertos, etc., isso é com a Joana e com o Francisco, e com os chefes de naipe, não é connosco, nós tratamos de outras coisas.

 

Quantos músicos tem a Sociedade Filarmónica de Crestuma neste momento?

Neste momento temos 58 músicos. Estávamos com a expectativa que pudéssemos subir para os 61. Vamos ver, ainda não temos a certeza, só agora a partir do Concerto de São José é que vamos ter essa perspetiva. Mas, essa é uma questão que as comissões de festas colocam. Quantos músicos tem? Às vezes há a tendência de dizer que se tem 90 músicos significa que é uma banda boa, mas não é. Contudo, eu conheço bandas com 40 músicos que são melhores que as de 90 e isso é fácil ver nos concertos. O número não é uma questão fundamental, o fundamental é a qualidade e os ensaios, porque aquilo que nós mostramos nas festas é fruto do que trabalhamos cá dentro, mais nada, pelo que o número de participantes não é essencial.

 

Quantos associados tem a instituição?

Neste momento, tem cerca de 300 sócios a 10 euros cada um, o que já não é normal, porque a maior parte das coletividades já leva 40 ou 50 euros, pelas quotas de associados. Nós já não mudámos as nossas desde 2006. Portanto, achamos que não é muito e se fizermos 3 mil euros já é muito bom. A título de curiosidade, o financiamento dos sócios, em termos de investimento, é direcionado, apenas, para a Escola de Música. Nenhum sócio paga aos músicos e o valor das quotas não é para pagar os prémios aos músicos. O valor dos prémios vem apenas e só das festas e romarias que fazemos. A nossa Escola de Música neste momento não é oficial. Portanto, os nossos professores de música ganham uma ninharia. Nós não podemos pagar 40 ou 50 euros a um professor, porque senão teríamos de levar 40 ou 50 euros aos pais da Escola de Música. Ora, em 2006 ou 2007, nós decidimos que nós deveríamos ter o princípio do ensino da Escola de Música tal como ela foi fundada em 1971. Já agora, quem fundou a Escola de Música, o presidente era o senhor Gonçalo e o mestre era o Rodolfo Campos, que é nosso tio também, e nós achamos que devíamos ter uma Escola de Música financiada exatamente pelos mesmos valores, isto é tendencialmente gratuito. Portanto, nós não temos uma obrigatoriedade de nos pagarem, quando os meninos vêm para cá. Mas, todos os anos, quando começa a Escola de Música, nós pedimos uma comparticipação aos pais. Vocês aceitam dar 25 euros por mês? E aquele dinheiro que vai para os professores. Portanto, 25 euros por mês, todavia os meninos não vêm só aprender uma aula. Eles têm, nomeadamente, aulas de Instrumento, instrumento o qual somos nós que fornecemos a primeira vez, aulas de Formação Musical e aulas de Solfejo. São quatro aulas por semana e apenas pagam 25 euros por mês, valor que é pago ao professor. Além disso, quando os professores nos solicitam que os meninos que têm de começar a tocar os nossos instrumentos, cada um dos nossos instrumentos custa mais de 1.500 euros, porque são instrumentos bons, são instrumentos de marca, não são instrumentos de brincadeira, são de madeira e de metal, e das melhores marcas. Portanto, todo este investimento, é de facto para garantir que a Escola de Música tem qualidade, que os meninos têm bons instrumentos para aprender e que os professores têm condições para lhes ensinar este tipo de cultura. Portanto, nós chegámos ao fim do ano e ainda nem sei como é que temos lucro, mas temos.

 

Quais são as perspetivas para futuro?

Nós gostaríamos de levar a banda cada vez a mais concursos e a mais mostras nacionais e internacionais, sobretudo, às boas escolas, como por exemplo, a Escola Holandesa e a Escola Inglesa, que são as principais no que respeitam as bandas filarmónicas. Nós já tentamos. Já fomos a Bruxelas fazer uma demonstração das nossas capacidades, já fomos a um concurso a Espanha onde ficámos em 3º lugar, já fomos ao Concurso Filarmonina D’Ouro. Também, já fomos aos Açores, à Ribeira Grande, também por intermédio do Ferreira Leite, para fazer uma mostra daquilo que sabemos fazer e no resultado disto tudo, de todas as coisas que nunca tínhamos feito, aliás o primeiro CD foi em 2006, já era eu o presidente, o segundo CD também já fomos nós que fizemos, depois os outros CDs, os outros DVDs que fizemos também com o Estágio D’Ouro e o próprio Estágio D’Ouro foram iniciativas extraordinárias que eu gostaria de repetir e que gostaria que, por exemplo, o Estágio D’Ouro tivesse, é um dos propósitos, porque nós precisamos de um investimento grande por ano, cerca de 20 a 25 mil euros, e por exemplo se nós tivéssemos o Auditório já não precisávamos de tanto dinheiro. Contudo, o Estágio D’Ouro foi considerado o melhor estágio a nível europeu, onde estavam 100 jovens de todo o país e da Europa, aqui em Crestuma, com os melhores maestros nacionais e internacionais a preparar um concerto que íamos dar na Casa da Música e isso é absolutamente fenomenal para qualquer banda e ainda por cima para a Banda de Crestuma. Portanto, esse é um dos objetivos futuros e primordiais. Depois, claro, fazer mais intercâmbios e não nos faltam pedidos para irmos à Hungria, para irmos a Itália, para irmos a Espanha, só que o problema é que nós não temos dinheiro para isso, porque os quartos são caríssimos, eles dizem que nós temos de fazer três ou quatro concertos em três cidades diferentes e depois eles oferecem apenas o autocarro e a alimentação e as despesas com a deslocação dos músicos têm de ser à nossa conta, para além disso, nós temos de fazer seguros para os instrumentos e eles são caríssimos e, para além disso, só nos fazem seguros para os instrumentos dentro da sala se não os transportarmos acabou o seguro. Logo, nós não podemos fazer seguros daqui para Itália. Os custos são incomportáveis, porque nós somos portugueses e temos um rendimento per capita muito baixo, ao contrário de outros países. De facto, se nós tivéssemos o auditório e se tivéssemos já tudo em pleno funcionamento, as nossas perspetivas seriam a internacionalização, o Estágio D’Ouro e mostras da banda por tudo quanto era lado.

 

Como é que imagina o Concerto de São José daqui a 50 anos? No Auditório da Sociedade Filarmónica de Crestuma?

Eu, muito honestamente e sem otimismo exagerado, mas sendo otimista, daqui a 50 anos já cá não estou, mas do lado de lá acho que vou soltar lágrimas de alegria, nessas condições.

 

Qual é a mensagem que gostaria de transmitir?

A mensagem que eu gostaria de transmitir é, no fundo, a mensagem que todos os elementos da instituição gostariam de transmitir: otimismo, fé nas pessoas, sobretudo, nos que cá estão, entreajuda e ir para a frente, sem medos.