Em entrevista ao AUDIÊNCIA, José Ferreira, presidente da União de Freguesias do Coronado (São Romão e São Mamede) falou sobre os benefícios que a agregação trouxe a ambas as freguesias e confessou que não acredita que a desagregação seja uma realidade no território que lidera. O autarca local lamentou a falta de relação com a Câmara Municipal da Trofa, salientando o investimento de quatro milhões na Ciclovia do Coronado que, na sua opinião, não se tratava de uma obra prioritária, em detrimento de outras necessidades, como o alargamento da via junto às escolas básicas, a construção de passeios, o asfaltamento de ruas que, ainda, se encontram em terra e o alargamento da rede de água potável. A construção de um parque verde na União de Freguesias, assim como a reabilitação dos três cemitérios do Coronado, são os sonhos que José Ferreira espera ver concretizados até ao final deste que é o seu último mandato.

 

 

 

Qual a história do seu percurso no mundo da política, nomeadamente, desde que tomou posse como presidente da União de Freguesias do Coronado?

Eu tomei posse como presidente da União de Freguesias do Coronado em 2013, quando se deu a agregação, embora eu já fosse presidente de Junta de Freguesia de São Mamede, desde 2009. Quando se deu a questão da agregação, em 2013, com São Romão, eu fui o candidato natural do Partido Socialista, porque já era presidente de Junta. Na altura, o presidente de Junta de São Romão era o senhor Guilherme Ramos, do PSD, que já governava há umas décadas. Acabei por ficar eu. Passei a ser o único presidente de Junta do Partido Socialista no concelho da Trofa, em 2013 e assim continuará, até 2025, onde terminará o meu ciclo político como presidente de junta, porque a lei assim o determina. Muito resumidamente, é esse o meu percurso e chego a presidente de Junta da União de Freguesias precisamente por isso, porque já era presidente, fui candidato e venci.

 

E anteriormente? De que forma começou a sua vida política?

Isto surge em 2005, com um convite do Partido Socialista local, de São Mamede do Coronado, para eu ser cabeça de lista do partido à Junta de Freguesia. Fui, em 2005, não ganhei e estive quatro anos na Assembleia de Freguesia, na altura composta por sete elementos, a liderar a oposição, constituída por três elementos, contra os quatro do PSD. Praticamente, o meu percurso político nasceu aí. Uma coisa muito espontânea, nada muito programado, nunca me tinha passado pela ideia ser presidente de Junta, embora tivesse um percurso e uma atividade muito ativa na freguesia. Tinha sido presidente de algumas coletividades, enfim, sempre fui uma pessoa muito inconformada, muito dinâmica e acho que o estar em comunidade é isto, não deixar que sejam os outros a fazer, fazermos nós também, bem ou mal, o importante é irmos fazendo, e isso, depois, traduziu-se no facto de alguém me ter notado e achar que eu que tinha capacidades para liderar a freguesia, e assim foi.

 

Se tivesse de escolher o momento mais marcante do seu mandato, contando só os anos em que está a liderar a União de Freguesias, qual seria e porquê?

O momento mais marcante foi, sem dúvida, assumir a presidência das duas freguesias. Porquê? Porque, quando se criou o concelho da Trofa, as freguesias de São Mamede e São Romão tiveram de constituir-se como vila, Vila do Coronado, para a Trofa passar a cidade e para que o concelho pudesse existir, naquelas obrigatoriedades que eram necessárias e as duas freguesias separadas nunca conseguiram, desde 1998, no fundo, desde que somos concelho, nunca conseguiram impor-se, ou seja, nunca conseguiram celebrar ou festejar a questão de passarem a vila, o que aconteceu em 1997. No fundo, São Mamede e São Romão, sendo duas freguesias que se fundem uma na outra, e no fundo, usando aquele chavão, mas, é mais aquilo que as une do que aquilo que as separa, nunca conseguiram unir sinergias para que pudessem ser mais reivindicativas e ter mais peso, conseguir fazer mais juntas do que separadas. O facto disso ter acontecido, permitiu dar um salto qualitativo que não era possível até aí. Ou seja, passamos a festejar, todos os anos, a subida a Vila do Coronado, e festejamo-lo em conjunto, ganhamos maior dimensão, maior capacidade reivindicativa, criamos aqui uma série de iniciativas e eventos, que era impossível fazer apenas numa das freguesias, e se isso, por ventura, se vier e verificar, acho que vai haver uma perda muito grande, no sentido de que as duas freguesias vão ficar a perder, cada uma vai ficar com o seu quintalzinho, enquanto, atualmente, conseguimos unir as duas freguesias em torno de uma causa maior. Para mim, foi uma grande satisfação, até porque, enquanto presidente de Junta de São Mamede era muito frustrante, porque havia sempre uma barreira. Depois, não havia aquela sensibilidade para unir esforços, sendo de duas fações políticas diferentes, duas realidades diferentes, duas gestões diferentes. Isto veio eliminar essas dificuldades e veio-nos dar uma capacidade de gestão diferente, mais ampla, mais abrangente e que, no fundo, a população, e nota-se, ficou a ganhar.

 

Então foi fácil a adaptação da população a esta União?

Foi, foi muito fácil. Não havia assim tantas diferenças, eram mais psicológicas e, tanto assim é que, no concelho da Trofa, só há três uniões, Alvarelhos e Guidões, Santiago e São Martinho, e São Mamede e São Romão. Nas outras duas existem duas comissões de desagregação, que se constituíram, com toda a legitimidade, para que volte a desagregar-se as uniões. Aqui não aconteceu. Já houve uma força, alguém que quis impor, o PSD quis e distribuiu aqui alguns manifestos para que se criasse um movimento. Tudo isso não surtiu efeito. Ainda bem que, agora, a lei clarificou um bocado esta situação. Quando foi a questão das agregações, embora as Assembleias de Freguesia tivessem de se pronunciar, pronunciaram-se, mas a última palavra era da Assembleia Municipal. Independentemente de nós, quer São Mamede, quer São Romão, nas Assembleias de Freguesia termos votado contra a agregação, a Assembleia Municipal é que prevaleceu, impos, e acabamos por ir por arrasto com Bougado e com Alvarelhos e Guidões. Agora não. O que sair da Assembleia de Freguesia é o que vai vigorar, independente do que depois for apresentado em Assembleia Municipal. Neste momento, se formos chamados a decidir sobre isso, eu já sei qual vai ser a resposta, estamos bem, não vamos mexer. Nem acredito que haja algum movimento, se não houve até agora, também não vai haver, isso não é uma coisa que se crie de uma semana para a outra, por isso, ao fim destes anos todos enquanto União de Freguesias, não me parece que isso vá acontecer, logo, é o exemplo claro, se existe nas outras e aqui não existe, é sinal de que está bem e as pessoas estão a encarar isto com muita tranquilidade e de uma forma diferente das restantes freguesias do concelho.

 

O que mudou no Coronado desde a sua chegada?

Eu acho que conseguimos trazer mais proximidade à população, que é o trabalho de uma Junta de Freguesia e do presidente. Simplificamos muita coisa, ou seja, é fácil chegar e contactar a Junta de Freguesia. Não é uma instituição demasiado burocrática, tem sido esse o nosso grande desafio, tanto assim é que somos a única Junta do concelho que continua a levar pessoas à vacinação todos os dias levamos. Ainda há dias ligaram a pedir para levar alguém à Trofa para ir ao oculista, estas pequenas coisas que podem parecer insignificantes, são o resultado de que as pessoas veem na Junta de Freguesia uma instituição de confiança, a quem podem pedir o que quer que seja porque, no fundo, são atendidos. Somos a única Junta de Freguesia do concelho que distribui refeições a famílias carenciadas todos os dias, num protocolo com a Cruz Vermelha, isto é a política de proximidade que se foi criando com a população, o perceber quais são os seus reais problemas e encontrar soluções efetivas, sermos pragmáticos. As pessoas vêm pedir ajuda porque estão desempregadas e este problema da Covid veio realçar um pouco mais isto. As pessoas dizem que não têm o que comer e não têm nada para dar aos seus filhos, e não saem daqui sem nada. Isto criou aqui uma imagem deste executivo da Junta de Freguesia, de grande preocupação e de confiança das pessoas, de que elas vêm à Junta de Freguesia com qualquer problema e saem daqui sempre com uma resposta muito efetiva. Isso tem passado e tem sido transmitido à comunidade e as pessoas sempre que se veem com qualquer tipo de problema, uma conta por pagar, um problema do mais surreal que nos possa parecer, vêm à Junta e nós tentamos sempre encontrar uma solução, dar uma resposta, mas uma resposta eficaz no momento. Isso foi a grande mudança que se perspetivou aqui. Depois, outra grande mudança foi o dinamismo que se implementou. Nós somos, neste momento, também, a freguesia mais visitada e mais turística do concelho. Temos aqui um parque de autocaravanas, já ganhamos vários prémios, somos o melhor parque de autocaravanismo do distrito do Porto. Nós, aqui, recebemos, sobretudo estrangeiros, que deixam cá a autocaravana, fazem três minutos a pé, estão na estação de comboio e, rapidamente estão no Porto, em Braga, em Guimarães, têm essa facilidade, portanto, isso tem contribuído muito para nos trazer aqui milhares de visitantes todos os anos, sem exagero. Há exceção de 2019 e 2020, porque as fronteiras estavam fechadas, mas fora isso, é uma coisa impressionante, nem eu próprio tinha ideia disso. Tinha sido lançado o desafio, ainda em São Mamede do Coronado, mas nunca tivemos um espaço geográfico capaz de construir um equipamento desta natureza e quando se dá a agregação, isto facilitou muito, porque este espaço que temos aqui, esta quinta, tem aqui cerca de dois hectares de terreno, permitiu fazer isso e desde o momento em que o fizemos, não temos parado de crescer. Acho que a Junta também não tem capacidade para ir mais longe, mas necessitávamos de ter aqui uma Loja do Turismo do município a divulgar o que temos no concelho, também para aproveitar, sobretudo quem cá vem, e são estrangeiros, para visitar aquilo que temos, ou muito ou pouco, acho que seria o primeiro aspeto a explorar. Quem tem beneficiado muito é o comércio, sobretudo o nosso comércio local, a nossa restauração, porque eles vêm cá, vão aos restaurantes, comprar o pão, comprar isto e aquilo, até porque eles ainda têm mais capacidade de compra do que nós, e os nossos comerciantes têm sido beneficiados com isso e têm agradecido à Junta de Freguesia. Também temos trabalhado nesse aspeto o que reflete o que temos conseguido fazer com a União de Freguesias.

 

Já tinha uma experiência longa como presidente de Junta quando chegou a Covid-19. O que mudou nestes dois últimos anos?

Obrigou-nos a direcionar as políticas ainda mais para as pessoas. Nós tivemos aqui uma fase em que estava tudo fechado e, não por reação, mas por antecipação, desencadeamos aqui um apoio ao nosso comércio local. Criamos um grupo de voluntários, aos quais cedíamos as nossas carrinhas para a distribuir de refeições dos restaurantes, portanto, nós fizemos isto durante alguns meses, enquanto não foi permitido ser de outra maneira. Foi um apoio efetivo e real à nossa restauração nessa altura. Fizemos aquilo que se fez noutros locais, mas também nos antecipamos e não estivemos à espera de nada, íamos buscar a alimentação para as pessoas, medicação, compras, pagávamos as reformas, levávamos o dinheiro a casa das pessoas para estas não terem de se deslocar aos CTT. As pessoas não saíam de casa e a Junta é que fez tudo isso ao longo de meses.

 

Os pedidos de ajuda alimentar, que referiu há pouco, aumentaram?

As inscrições para o cabaz de Natal, quer da Câmara Municipal, quer da Junta de Freguesia, aumentaram significativamente, porque muitas pessoas ficaram desempregadas. Perderam empregos, podem ter um novo, mas já não ganham o que ganhavam, ou seja, isto muda logo o dia a dia das pessoas. Há ali um problema que se criou e a quem é que as pessoas recorrem? À Junta de Freguesia porque não há burocracia, as pessoas vêm cá, querem falar, expõem o seu problema e nós estamos aqui para isso. Não temos solução para tudo, mas, pelo menos, encontramos um caminho. Pode não ser para sempre, mas durante algum tempo prestamos esse apoio e auxílio. Isso obriga-nos, também, a direcionar muito e a criar outro género de abordagem, mais virada para as pessoas e para as suas necessidades reais. O âmbito das juntas de freguesia não é fazer grandes obras, não temos orçamentos para isso, não somos nós que recolhemos os impostos, não somos nós que temos esse tipo de receitas. As juntas são muito subsídio-dependentes, ou dos protocolos celebrados com as autarquias, onde temos uma série de tarefas para fazer e a Câmara transfere-nos dinheiro para a realização dessas, ou então de Fundo de Financiamento de Freguesias, do qual recebemos cerca de 24 mil euros de quatro em quatro meses, mas isso é para despesas correntes, é para os funcionários, para a luz, não dá para mais nada. Para uma freguesia com a nossa dimensão, temos praticamente 11 mil habitantes, as exigências já são significativas e a máquina que é feita e que é necessária ter na Junta de Freguesia já se torna pesada, as juntas de freguesia deviam ter mais autonomia. Nós não temos um pelouro dedicado à ação social, não temos um pelouro dedicado à cultura, não temos nada, está tudo centrado numa pessoa só, que é o presidente da Junta, que está aqui a tempo inteiro. Eu sou maquinista da CP de profissão, há 28 anos, desde 2009 que assumi a presidência da Junta, pedi licença sem vencimento e estou com essa licença, quando terminar o meu papel aqui, irei voltar para a CP, mas, no fundo, nós não temos uma máquina como tem a Câmara Municipal, que é quem tem esses pelouros. Depois, temos um problema que é mais profundo, que é a falta de relação com a Câmara Municipal. Por questões políticas, a coisa tem-se agudizado nestes últimos anos e, no fundo, não há um trabalho conjunto que devia haver, e como os exemplos têm de vir de cima, é difícil. Temos tido esta relação, as coisas têm funcionado quase de forma autónoma, a Junta é autónoma, a Câmara é autónoma, temos um protocolo, naturalmente que temos, a Câmara vai transferindo para as limpezas, para isto e para aquilo, enquanto não entra em vigor a nova lei da descentralização, as coisas estão ali num limbo, nem se faz, nem não se faz. Nós recebemos 13750 euros da Câmara Municipal, por mês, para as escolas, temos quatro escolas primárias, para a limpeza de ruas, para as diversas manutenções, que estão protocoladas com a Câmara Municipal, e esse valor vem de há 20 anos, é o mesmo valor que recebíamos há 20 anos atrás, embora, há 20 anos não havia União, mas depois juntou os dois valores, dá os tais 13750. Estamos a falar de verbas de há 20 anos, com toda a inflação que houve, e agora as coisas dispararam muito, só nos combustíveis foi uma loucura, continuamos com as mesmas responsabilidades e cada vez mais, porque hoje as pessoas exigem muito, pressionam e já nem se acanham de, com as redes sociais, tirar uma fotografia e expor. Tudo o que é necessário fazer-se e tudo o que se exige das instituições públicas, e as juntas de freguesia estão nesse patamar, nós temos mais para fazer com menos dinheiro. Essa tem sido uma reivindicação nossa, para a Câmara Municipal reajustar os valores. Há 20 anos era suficiente, 20 anos depois não é suficiente. É impossível, era o mesmo que ganharmos 500 euros há 20 anos e hoje continuarmos a ganhar 500 euros, ninguém em diga que é suficiente, porque não é. Esse tem sido o nosso grande problema, as responsabilidades aumentaram e de que maneira, a vida e o custo de vida aumentou, e de que maneira, e os valores que estão protocolados com a Câmara Municipal mantêm-se há 20 anos, é impossível fazer uma gestão desta forma. Vamos fazendo, com muita dificuldade, sim, porque a Junta de Freguesia tem feito muitos protocolos com entidades, como a Cruz Vermelha, a Gota d’Água, que é uma instituição de solidariedade local, temos com alguns empresários, empresas também locais, que nos têm dado imenso apoio e temos feito imensos protocolos com eles, o que nos tem permitido, sobretudo na área social, sermos mais eficazes, porque de outra forma é impossível, a verba que recebemos é para despesa corrente, é para a sobrevivência da Junta de Freguesia. Por isso é que não faz muito sentido, nos dias de hoje, e pela experiência que tenho como presidente, digo que não faz sentido nenhum existirem as juntas de freguesia. O poder local, da forma como está organizado no nosso país, não faz sentido. Então, para isso, delega-se todo o poder na Câmara Municipal e ela nomeava um representante para cada freguesia. Mas, num concelho como o da Trofa, geograficamente tão pequeno, com 40 mil habitantes, quase nem se justifica. Ou se dá autonomia às juntas de freguesia e se aloca uma determinada verba para concretizarmos algo, e, aí sim, fazemos pela proximidade. Só para termos o edifício a funcionar e para termos os funcionários aqui é preciso muito dinheiro. Fomos obrigados, foi uma das coisas que não existia e tivemos de fazer, a legalização de todos os funcionários, uma imposição legal que nos custou milhares de euros de dinheiro que nós não tínhamos, e hoje os nossos funcionários, que viram o ordenado aumentar, e muito bem, representam uma dificuldade muito grande para a Junta. Houve aqui meses que quase não tínhamos dinheiro para pagar salários, é muito frustrante, e como se resolve isto? Não é uma empresa, é um organismo público. Pede-se ajuda à Câmara Municipal, mas ela guerreia com a Junta de Freguesia, é uma impotência, eu não consigo guerrear com a Câmara Municipal, é impossível, às vezes sinto-me aqui quase como os gauleses, como na história do Asterix, estamos cercados pelos romanos, e, enfim, vamos defendendo-nos. A Câmara depois, para mostrar que tem poder, e tem, o poder está na Câmara, e ninguém quer perder poder, quem o tem não o quer perder, e então a Câmara vem aqui e substitui-se à Junta de Freguesia. Em vez de fazer a delegação de competências, por exemplo, é preciso reparar uma rua, a Junta não tem verba para isso, tem para a limpeza, não para a manutenção, e, por norma, esse trabalho é feito através de um protocolo de delegação de competências, onde a Câmara transfere o dinheiro para a Junta, que arranja um empreiteiro, quase sempre consegue melhores negócios e esgrimir mais o dinheiro e os pormenores que as Câmaras Municipais. Mas não, a Câmara faz diretamente, não diz nada à Junta. Nós, todos os anos entregamos um plano de atividades. O nosso orçamento ronda os 400 mil euros anuais, que é muito pouco, sendo que 80% é para gastos correntes, e nós temos, por exemplo, no nosso plano de atividades, a reparação daquela rua, se houver verba. A Câmara tem conhecimento do nosso plano de atividades, porque nós enviamos para lá, mas sobrepõem-se e faz por nós. É uma falta de consideração, de diálogo, de respeito, uma falta de tudo e mais alguma coisa. Isto é terrível e muito frustrante, desanima um bocado, mas depois passa e lá continuamos com o nosso trabalho. Estamos aqui, as pessoas confiaram em nós, fomos eleitos com maioria, estamos 9-4, é sinal que as pessoas gostam do nosso trabalho, de quem as representa e tem sido sucessivo, desde que sou presidente da Junta que as maiorias têm sido assim. Encaro isto com espírito de serviço público, levo isto muito a sério, preocupo-me com as pessoas, com os problemas que elas me trazem, e procuro ajuda-las, isso reflete-se quando há eleições. A Câmara tem 5-2, uma maioria confortabilíssima, as outras Juntas também, aqui é diferente porquê? A Câmara também ganha aqui com o PSD, porque é que a Junta há de ser diferente? Tem a ver com as pessoas, claro, com o trabalho que nós fazemos e com a confiança que transmitimos. Mas é difícil fazer este tipo de trabalho assim, sem relação com a Câmara Municipal. Eu não consigo falar com o presidente da Câmara, ele também não fala comigo, enfim, se nos cruzarmos numa iniciativa ou num evento, como tem sido, nem sequer nos cumprimentamos. Isto é surreal, é daquelas coisas que custa imenso, mas acontece. Eu penso que a relação com uma Junta ou outra, que possa ser de partido diferente, não deve ser assim desta forma. Se o presidente não consegue, tem outros vereadores que faziam ali a ponte, mas nem isso acontece. Há uma vereadora da ação social, Lina Ramos, que era mulher do ex-presidente de Junta, Guilherme Ramos, que, entretanto, faleceu, conhecia muito bem a realidade da Junta de Freguesia, mora cá, mas nem isso. Tenho relação com a senhora, claro, bom dia, boa tarde, e sempre que me liga, eu estou disponível, e sempre que a Câmara nos pediu algo, nós nunca dissemos que não, há este saber estar, mas nem assim, é uma coisa surreal.

 

O presidente da Câmara, Sérgio Humberto, já falou várias vezes que a Vila do Coroando não estava esquecida. Partidos à parte, poderá haver alguma ligação, algum entendimento?

Sim, claro que sim. Nunca foi da nossa parte. É evidente que o facto do presidente da Câmara dizer isso, e diz, e deve dizê-lo, e muito bem, que a vila do Coronado não está esquecida, corretíssimo. Mas os investimentos e as intervenções que a Câmara tem feito na Vila do Coronado, essas, é que são questionáveis. O presidente da Câmara dizer que está a fazer um investimento de quatro milhões na Vila do Coronado, que é a construção da ciclovia, que é o maior investimento feito até hoje, é verdade. Agora, eu questiono, é isso que nós precisamos aqui? Uma ciclovia para ligar o centro da Feira Nova, onde foi descaracterizado o único espaço verde que ali existia, e passou a ser uma praça de cimento, para fazer a ligação por uma rua interior até São Romão? Eu digo, ok, isso até é importante, mas estamos numa freguesia rural, onde existem ruas e mais do que ruas onde as pessoas andam à vontade, a pé e de bicicleta, não era este tipo de projeto que nós queríamos. São quatro milhões, mas isto acontece porque não há diálogo com a Junta. Se o presidente da Câmara ser reunisse comigo e me perguntasse o que é que fazia falta na freguesia, eu dizia-lhe que faz falta, por exemplo, equipamentos desportivos, que não temos nenhuns, as pessoas que querem praticar uma atividade desportiva têm de ir para fora da freguesia e do concelho. Não temos um centro cívico, ou um multiusos, não temos esse tipo de equipamentos, importantes para a realização de uma iniciativa qualquer espécie. Somos condicionados, porque não temos um local onde se possa desenvolver uma atividade cultural, temos de ir para fora do concelho, nem no concelho existe, quanto mais aqui. Temos as ruas e sobretudo esta nacional, esta 318, que não tem passeios sequer. Se calhar não gastaríamos quatro milhões e dotávamos as principais artérias com passeios, para que as pessoas pudessem circular com segurança. Quem quiser ir do centro de São Romão ao Pingo Doce passa ali, sensivelmente, um quilómetro da rua sem passeio. Estamos a falar de uma Estrada Nacional, onde passam centenas de camiões por dia, o trânsito é uma loucura, e as pessoas vão ali numa valeta em v, que se falha o pé, escorrega e cai lá abaixo, e são pessoas de idade, que não têm carro para lá ir. Ou seja, a freguesia migra um bocadinho para ali, porque tem lá o centro comercial, e não tem passeios. Há prioridades, não quer dizer que o investimento não fosse feito, mas não era nesta fase, era mais para a frente, quando tivéssemos a nossa rede viária razoável. Quando tivéssemos parques infantis e um nível de vida e de equipamentos acima da média, aí, depois, partíamos para o supérfluo. Assim, estamos a começar a casa pelo telhado. Neste momento, ainda temos, pelo menos, três ruas em terra na Vila do Coronado, onde vivem famílias, pessoas que pagam IMI como pagam outras quaisquer, que pagam os impostos caros do concelho da Trofa. Então, e como é que eu resolvo o problema? As pessoas queixam-se. Nós já mandamos o orçamento para a Câmara para fazermos aquilo, para ser protocolado connosco.  Bastavam 50 mil euros, que são peanuts para uma Câmara Municipal, para repavimentar uma rua de quase 800 metros, que está em terra nos dias de hoje e onde vivem algumas dezenas de família. Então, está a construir-se uma ciclovia de quatro milhões e ali a rua ainda continua assim? Nós temos aqui, ainda, ruas, sem acesso a água potável, onde as pessoas se valem pelos fontanários públicos que a Junta disponibiliza e com a rede que foi construída pela Junta de Freguesia para as pessoas que não têm uma torneirinha em casa para abrir a água, como nós temos. Então, e como se justifica a estas pessoas que se está a construir uma ciclovia, coisa espetacular, e elas não têm água em casa? Vem o verão, avaria o motor e a pessoa nem água tem, para o mais básico, como tomar banho. Como justifico isto? E não é só um caso, são também algumas dezenas de famílias, em vários locais da freguesia. É evidente que a Junta tentou, já fizemos exposições à Câmara, à INDAQUA, a todas as entidades e mais algumas. A INDAQUA, claro, está à espera que a Câmara dê o avale. São doze anos de executivo, a Câmara conhece muito bem, faz campanha porta-a-porta, conhece esta realidade, as pessoas já se queixaram, e mais do que uma vez. Portanto, eu não sou contra os investimentos que são feitos na freguesia e a Câmara deve fazê-los, agora, o que tem sido feito, não é prioridade. Devíamos ser mais pragmáticos, ver quais são estes pequenos problemas e resolvê-los, pois são grandes problemas para o dia a dia de uma pessoa, porque para quem não tem água em casa, é um drama. Isto em pleno século XXI é um problema, e quase sempre ao fim de semana rebenta um tubo de água e eu tenho de andar ali a fazer de bombeiro. Isto já não se justifica. E em pleno verão, onde se consome muita água, os poços secam, não há água, as pessoas estarem três dias sem água, como já aconteceu, como se justifica isso? Depois o presidente de Câmara vem cá e as pessoas insurgem-se contra ele. Primeiro, não concordam com o tipo de projeto e de investimento que está a ser feito, quando as carências ainda são muitas na nossa freguesia. Temos duas escolas primárias, a escola de Vila e de Feira Nova, onde os acessos, a entrada e a saída, são feitas pela mesma rua, ou seja, chega-se à escola, faz-se uma rotundazinha, porque a Junta fez lá uma rotunda, e a Câmara foi lá e apenas pavimentou, e volta a sair pelo mesmo sítio. Ora, hoje ninguém vai a pé para a escola, toda a gente vai levar a criança de carro, e já não cruzam dois carros ali, porque os carros estão parados. E ainda não se encontrou uma solução para isto? E as soluções estão lá e podem fazer-se, é comprar um bocado de terreno aos proprietários, que não era tanto quanto isso, com 20 mil euros em cada uma das escolas resolvia-se o problema. Continuamos ano após ano com isto. São tantos os detalhes que, apenas e só, por falta de diálogo e de concertação entre as reais necessidades da freguesia que, se calhar, com muito menos dinheiro, eram mais eficazes e a popularidade do presidente da Câmara subia em flecha aqui no Coronado. Agora, a ciclovia, é evidente que é uma obra emblemática, com subsídios comunitários, não vamos perder os subsídios, ótimo, mas caramba, há subsídios para tudo e mais alguma coisa, é preciso é saber. A questão das acessibilidades às escolas primárias também estava abrangida por subsídios comunitários, disso não tenho a menor dúvida. A questão das acessibilidades, a construção dos passeios nas principais artérias de acesso às escolas, por exemplo, que não temos. A Escola Básica de Feira Nova atravessa a estrada 318-1, não há um passeio, e as crianças fazem ali aquele percurso a pé com os pais e passa ali imenso trânsito pesado. Mas vamos fazer uma ciclovia pelo meio da zona agrícola. E agora? Para quê? Está bem, vai ficar bonito, vai. Não queríamos perder a oportunidade, não. É o maior investimento na Vila do Coronado, é. Pronto, e depois disso? Não é mais nada? Porque em termos eficazes e de qualidade de vida que traz para a nossa freguesia, zero, não traz nada, absolutamente nada. Vai ser mais uma obra de grande marketing e divulgação. Meu Deus, mas estão a construir-se ciclovias em todo o lado e mais algum, quer dizer, parece que é a coisa mais importante do mundo. Não é, quando os reais problemas das pessoas, que existem aqui na freguesia, ainda não foram resolvidos. Agora, o facto do presidente da Câmara dizer isso, diz muito bem, então, tem razão, não está esquecido, agora, o que ponho em causa é o que tem sido feito e a forma de o fazer.

 

Já falou do Parque de Autocaravas, quais são as outras grandes valências da Vila do Coronado?

Temos aqui uma zona industrial muito significativa. A Zona Industrial do Soeiro onde temos algumas empresas de renome, temos aqui a Bial, naturalmente, e temos tirado pouco partido disso, embora sempre que eu solicito algo à Bial, eles têm sido muito cordiais connosco e têm contribuído para a comunidade. Temos a Transmaia, que é uma das maiores empresas de transporte nacional, um dos maiores empregadores aqui da nossa freguesia. Temos os nossos vassoureiros, a indústria da vassoura ainda predomina, sobretudo em São Romão do Coronado, já foi a principal indústria, começou nos anos 50 e anos 70 foi predominante, não havia, se calhar, uma casa em São Romão onde alguém não trabalhasse para os vassoureiros. Somos a Capital da Vassoura porque a Junta registou esta marca em 2015. E estamos a tentar dinamizar, e já fizemos algumas iniciativas com a vassoura e já foi um dos nossos vassoureiros, das empresas que ainda existem, motivo de algumas reportagens de alguns órgãos de comunicação social, porque a Junta também criou este dinamismo. A Arte Sacra, naturalmente, é aquilo que está na moda. Os Santeiros de São Mamede do Coronado. Temos dois no ativo, um deles é meu irmão, que é o mais novo, o Augusto. Ele trabalha em casa dos meus pais. E tem o Jorge Brás, que ainda continua. Agora, são os únicos que estão a trabalhar, os outros são pessoas já de muita idade. Não sei que futuro é que isto terá, porque é uma arte a desaparecer, pelo menos aqui. A Arte Sacra daqui tem características muito próprias. Cada região tem uma forma diferente de trabalhar. Em Espanha também há muita Arte Sacra, é diferente da nossa. Em Itália então, mas é diferente da nossa. Isto não acaba, vai mudar, porque para aprender a fazer uma imagem daquelas são precisos muitos anos. O meu irmão começou com 13 anos e foi sempre a vida dele. Mas não é com um curso de um ano que se aprende a fazer aquilo. Depois, não é uma coisa que dê dinheiro, ou seja, para dar dinheiro a pessoa tem de, primeiro, saber fazer e fazer bem, e até aprender, como é que a pessoa sobrevive? Mas isto sou eu, a minha maneira de ver. A promoção toda que foi feita, certo, mas mais uma vez, começou-se pelo telhado. A Junta também tem sido vítima de todo este show off que se criou. Porquê? As pessoas vêm cá e dizem que querem falar com um santeiro, mas eu não lhes posso dar o contacto. Nós devíamos ter, pelo menos, uma rota da Arte Sacra, um Museu da Arte Sacra, qualquer coisa…

 

Mas já foi criado um roteiro dos santeiros, não foi?

Um flyerzinho. E quem é que conhece isso? Eu não tive acesso a isso. Mas imaginem, eu não sou de cá, chego aqui e quero visitar os santeiros, onde vou? À Junta. Devia haver, e volto um bocadinho atrás, uma Loja do Turismo. Assim sim, vinham cá, as casas deviam estar perfeitamente identificadas, porque hoje, devia haver uma app, ou outra coisa qualquer, até através de um QR Code onde aparecia ali tudo. É evidente que bater à porta de alguém que não está a trabalhar, como a maioria dos santeiros, não é fácil, até porque eles , provavelmente, nem têm paciência para estar ali, porque quem vem visitar quer saber os pormenores todos. Eles ficam contentes, ficam, mas uma vez de vez em quando, porque é uma vez de onde a onde, agora, imaginem o que é receber gente pela casa dentro sempre, não é fácil isto. A coisa tem de ser muito bem articulada, principalmente com eles, para que quem vem visitar, saiba o que vai fazer. Nós, a Junta, queríamos também registar, em 2014, a Capital da Arte Sacra, ainda nem se falava nisto, mas não conseguimos, porque em Braga já alguém o tinha feito, então, registamos a marca Berço de Arte Sacra. Guimarães também não é a capital, mas é o Berço da Nação, e nós a exemplo disso, criamos, temos o logo, e está criada a marca Vila do Coronado – Berço de Arte Sacra. Críamos, mas isso já vem de São Mamede de Coronado, uma iniciativa para promoção da Arte Sacra, que é a Rota de Arte Sacra, uma prova de BTT, que tem acontecido todos os anos. Já homenageamos, mais do que uma vez, os nossos santeiros, obviamente. Queríamos fazer mais ainda, mas não temos como. Quando as 7 Maravilhas, que é um programa, que ganha dinheiro com estas coisas, fez isto, mandou também para nós. A primeira coisa que nós, enquanto Junta, quisemos fazer, foi avançar com a Arte Sacra e falamos disso aqui, mas depois, quando lemos o regulamento percebemos que não íamos ter capacidade financeira para isso. A inscrição era mais de 400, isso era fácil, mas como é que se faz a promoção? É evidente que para a coisa acontecer, uma vez que era em São Mamede de Coronado, pelo menos a Câmara podia ter dito que ai concorrer, acho que devia haver uma sintonia. A Junta não queria protagonismo, queria colaborar também, porque acho que era uma peça fundamental na divulgação da Arte Sacra, mas nada, fomos sempre mantidos à margem. O programa foi feito aqui, em São Mamede de Coronado, a Junta nem informada foi. Uma coisa surreal. Mas, independentemente disso, tudo o que se fez à volta da Arte Sacra, quem está de fora acha que foi uma coisa fabulosa, espetacular, foi, em termos de marketing e show off, enfim, de imagem. Tem-se a ideia de que um santeiro, uma pessoa que faz Arte Sacra, passa na rua e as pessoas lhe fazem quase uma reverência. Nada disso, ninguém quer saber. Quiseram na altura, porque se falava na televisão, mas já passou. Tanto assim foi, que a Câmara tinha a ideia de que se promovesse os Santeiros de São Mamede de Coronado, ia ter aqui um resultado eleitoral espetacular, não teve nada, foi igualzinho ao que tem tido, nem mais nem menos. O que é que eu quero dizer com isto? Mais uma vez, o facto de não haver uma articulação com a Junta de Freguesia fez com que a comunidade ficasse mais aborrecidas pela Junta ter sido mantida à margem disto, que é quem representa a população. Agora meteram lá um sete no meio da praça, uma coisa gigantesca, à qual ninguém passa cartão. Hoje, não há ninguém que diga bem daquilo. É uma coisa forçada. A Arte Sacra merece toda a consideração, eu acho que pode ser um dos pilares a explorar pelo município da Trofa. Eu tenho dificuldade em dizer o que é que existe na Trofa para se visitar. Tem Igrejas para visitar, mas isso tem em todo o lado. Tem gastronomia, mas isso tem em todo o lado. Tem Arte Sacra, mas como é que eu posso ver? Posso ir a umas oficinas e ver as pessoas a trabalhar? Sim, posso, mas não há um museu, não há nada onde esteja exposto, onde se conte a história. Em relação às outras Artes Sacras que existem no país, temos esse detalhe, de ter sido feita aqui, por José Ferreira Thedim, a imagem da Nossa Senhora de Fátima que está na Capelinha das Aparições. Então, e ainda não foi feito nada sobre isso? Em tempos, nós fizemos uma proposta ao Santuário de Fátima, na pessoa do seu diretor, Padre Carlos Cabecinhas, para criar aqui um Centro Interpretativo da Imagem da Nossa Senhora de Fátima. Temos lá um Bispo, o Dom Serafim, que foi reitor do Santuário de Fátima durante muitos anos, tem raízes aqui em São Mamede, e eu conheço-o e dou-me muito bem com ele. Pedi-lhe ajuda. Embora seja reformado, está lá a morar no lar, no Santuário. Ele disse que não era ele que mandava, mas que podia tentar ajudar. Fomos lá almoçar com ele, a Fátima, e fizemos chegar a nossa proposta ao Santuário. Tínhamos local, tínhamos tudo, e entendemos que isso era uma mais-valia, ainda nem se falava nisto da Arte Sacra no programa das 7 Maravilhas, nada disso, mas a Junta foi sempre inconformada e tentou procurar solução. Falei com o padre da altura, o padre Rui Miguel, e ele disse-me que achava a ideia interessante e que, se fosse preciso, a paróquia estava disponível para ajudar. Termos aqui um Centro Interpretativo era interessante, trazia cá turismo e o turismo religioso atrai massas. A resposta que veio é curiosa, temos aqui tudo, está tudo documentado, porque ele diz que o Santuário de Fátima não tem por hábito estabelecer parcerias com entidades particulares, privadas, o mesmo que dizer que não iam correr o risco de perder receita no Santuário, porque se as pessoas viessem à Trofa, não iam a Fátima. Eles estão a ver com a perspetiva de futuro e, claro, questões economicistas. Logo após nos darem essa resposta, vimos que não tínhamos hipótese e, depois, saiu aquela notícia de que o Santuário de Fátima fez protocolo com vários municípios, para criarem os Caminhos de Fátima, como os Caminhos de Santiago. E eu disse ‘olha estes sacanas’, dizem que não fazem protocolos com entidades e agora vão fazer com as câmaras municipais. Isso era um investimento que leva os peregrinos a Fátima, por isso é um interessante para eles, este não, iam perder, ia tirar gente de Fátima e eles não quiseram. Pronto, isto para vos dar o exemplo de que temos feito alguma coisa relativamente à Arte Sacra, para trazermos algumas referências para o município da Trofa. O nosso parque de autocaravanas está classificado como sete estrelas, não somos nós que fizemos essa classificação, foram os próprios utilizadores. Neste momento, é um dos motivos que atrai gente, de toda a Europa, maioritariamente franceses, mas vem gente desde a Lituânia, Itália, Bélgica, Espanha, de todo o lado. Eu acho que não devíamos perder esta oportunidade, a presença deles cá, para levarem daqui uma imagem do que somos, darmos-lhes a oportunidade de visitarem o concelho. O comboio vai até à Trofa, mas vamos levá-los à Trofa para verem o quê? Por exemplo, a Arte Sacra, para alguns deles, é um motivo interessantíssimo, que se podia promover, e se tivéssemos aqui uma Loja do Turismo, teria aqui souvenires do concelho que eles poderiam levar. Depois, temos aqui um dos maiores produtores de mel, a ApiSantos, que também tem contribuído um bocadinho para a promoção da nossa freguesia. Temos aqui, em São Mamede do Coronado, a única fábrica de brinquedos tradicionais de madeira e que tem divulgado muito o nome da freguesia e do município da Trofa, mas está subvalorizado. Portanto, são pequenas coisas em que podíamos apostar e nós não temos tirado proveito disso, sendo a Trofa um concelho com tanta falta de referência. Ninguém me diga que somos um concelho apelativo, novo, empreendedor, são chavões, mas a falta de acessibilidades, falta disto, falta daquilo, tem tirado daqui muita empresa e muito investimento. Agora, eu tenho dificuldade em vender o concelho da Trofa a alguém. Isto é sinal de que nos falta ainda muita coisa, ou melhor, aquilo que temos cá, não temos sabido dinamizar. Nós somos uma freguesia muito rural, às portas do Porto. São Romão tem crescido muito pela proximidade do comboio. Ermesinde está lotado e é caro e as pessoas têm procurado muito São Romão, tem crescido e não temos ainda capacidade de oferta. Mas quem vem de fora, chega aqui e não tem um parque infantil nem um jardim para passear, não tem nada. Na primeira oportunidade que tem, muda de casa, porque não tem aqui um equipamento desportivo, um campo de futebol, um pavilhão, uma piscina, ou seja, estes equipamentos que são, no fundo, o que traduzem a qualidade de vida de determinado local, nós não o temos. Depois podemos dizer que temos aqui uma ciclovia espetacular. Está bem, e vamos andar aqui de bicicleta só para cima e para baixo? Não. Ou seja, falta cultura, falta desporto, falta, enfim, aquela animação. A Junta de Freguesa tem tentado contrariar isto, nós temos uma iniciativa que se chama ‘Coronado ConVida’, onde, durante uma semana, reunimos artesanato, gastronomia, espetáculos, cultura e algumas empresas. Desde 2010 que fazemos isso, quando eu cheguei à Junta. Era ‘São Mamede ConVida’, em 2013 passou a ‘Coronado ConVida’, porque sentimos que era necessário promover-nos. Primeiro, promover-nos para dentro, porque mesmo as pessoas não conheciam o que existia cá, e a Arte Sacra foi das primeiras coisas a serem promovidas. Fizemos exposições de Arte Sacra e as pessoas ficaram maravilhadas. Para um artesão de Arte Sacra é difícil, primeiro eles ainda iam para ali, mas é complicado. Mas em todos os eventos havia o stand da Arte Sacra e embora eles não estivessem a trabalhar ao vivo, pelo menos estavam presentes, e era sempre o que atraía mais gente, claro, as pessoas gostam muito de ver as imagens dos santos, da Nossa Senhora, de Cristo. Esta questão do imaginário religioso atrai muita gente. E temos feito isto de forma constante, tem crescido, e é um evento de referência, hoje, na Vila do Coronado. Não o fizemos nos últimos dois anos, devido à Covid, mas no próximo ano iremos fazê-lo e será um sucesso, naturalmente. Mais uma vez, feito em parcerias, a última foi feita com a Rádio Voz de Santo Tirso, que traz cá os artistas e promove. Temos procurado estas sinergias, porque não temos capacidade financeira para o fazer, e então, através de parcerias faz-se aqui um evento maravilhoso, onde a praça da alimentação está esgotada todos os dias. Tem sido um sucesso e atrai gente de fora, nomeadamente artesão e pessoas que vêm dos concelhos e das freguesias vizinhas. Isto tem sido replicado noutras freguesias também, o que me dá uma enorme satisfação, é sinal que é uma iniciativa de sucesso e que os outros copiam. Temos tentado fazer isto desta forma para que, no fundo, a nossa comunidade tenha conhecimento daquilo que existe. Os brinquedos de madeira são um sucesso, tudo aquilo que temos cá está representado durante oito dias, para que as pessoas vejam, e o facto de não ter havido nestes dois anos, criou uma angústia tão grande na nossa comunidade, porque as pessoas sentiram falta desse convívio. Alguns emigrantes já fazem por estar cá nesses oito dias, porque é uma festa, dias de animação, noites alegres, convívio, e tudo isso é importante e faz falta. A Junta de Freguesia tem feito esse trabalho, isso depois traduz-se nestes resultados, no reconhecimento da população. Agora, podíamos fazer mais? Podíamos, se a relação com a Câmara Municipal fosse diferente, sem dúvida nenhuma, aí conseguíamos fazer aqui coisas maravilhosas e o concelho sairia beneficiado, sem dúvida nenhuma, até porque aqui é o segundo polo habitacional mais numeroso do concelho. Com a passagem da Trofa a concelho nós não perdemos o problema que tínhamos com Santo Tirso, que é o facto de estarmos na periferia, no limite com a Maia. Hoje, é mais fácil ir à Maia resolver qualquer problema, do que ir à Trofa, porque é difícil lá chegar. Ou temos de contornar a montanha e ir ali por Covelas, ou ir pela Estrada Nacional, pelo Muro, que também é um Deus me acuda para lá chegar. Tudo o que está a ser construído, desde os Paços do Concelho, as piscinas, todos os equipamentos que são públicos e que podemos usufruir deles, estão no limite do concelho, ou seja, nós temos de ir de uma ponta à outra da Trofa, portanto, é mais fácil irmos à Maia. Tem aqui a piscina de Folgosa a dois passos, e toda a gente vai para lá, ninguém vai para a Trofa. Quero ir às Finanças, à Segurança Social, vou lá. Primeiro, há transportes públicos para lá e não há para a Trofa, os que existem são poucos e insuficientes. Não existe uma rede de transporte público interna, que transportasse toda a gente das freguesias à sede do concelho, aos serviços. Não temos isso ao fim de vinte e muitos anos. As coisas têm avançado, mas não se tem criado as bases para que a coesão territorial seja sentida, as coisas são feitas um bocado avulsas. Ora bem, hoje isto vai ser um sucesso, mas pronto, é uma coisa efémera, porque depois não se traduz na qualidade de vida das pessoas. Não tem excelentes arruamentos, temos aqui um estradão que devia ser usado para encurtar a distância para a sede do concelho, chegávamos lá em cinco minutos, mas não, temos de andar à volta. Não tem sido eficaz o investimento. São coisas muito localizadas, um investimento aqui e outro acolá, mas que, no fundo, não é nada concertado, não é programado, não tem sido bem projetado. As pessoas têm de se sentar, e só dessa forma é que as coisas funcionam, têm de conversar com quem conhece o território, e a Junta não pode ser ignorada nisso, mas tem sido ignorada. Valha-me Deus, então, como é que uma Câmara Municipal pode fazer um investimento bem feito numa freguesia, se não fala com a Junta? É impossível, ninguém me diga que conhece perfeitamente o território. Não conhece nada, conhece quando cá vem, ou porque falou com A, B ou C, que essa pessoa até tem mais interesse aqui ou ali, e dá a falsa sensação de que conhece a realidade. A Junta de Freguesia, quer queiramos, quer não, é quem está cá todos os dias, quem ouve todas as pessoas, de todas as faixas etárias, de todos os quadrantes, e quem percebe perfeitamente o que as preocupa. É um bocado isto que tem acontecido e, portanto, ficamos sempre com aquela ideia de que está a ser feito, está, mas não é o que pretendíamos, nem aquilo que necessitávamos. Olhando para o estatuto de Vila, já devíamos estar um bocadinho acima, a qualidade de vida das pessoas devia ser melhor.

 

Relativamente ao futuro, que obras materiais e imateriais sonha conquistar para esta União de Freguesias?

Queria terminar no meu ciclo político com a requalificação dos cemitérios. Nós temos três cemitérios na freguesia, tem sido o maior investimento da Junta, tudo expensas próprias. Já solicitamos alguns apoios à Câmara Municipal, mas não os tivemos. São cemitérios que têm muitos anos, muitas carências, muitas necessidades, muita falta de dignidade, e são, neste momento, os locais onde tem sido gasto, praticamente, todo o dinheiro que a Junta consegue arrecadar para investimentos. Não é para quem lá está, é sobretudo para quem lá vai. Temos três cemitérios, que também é uma coisa curiosa, duas freguesias, três cemitérios. São Romão tinha dois, um pequenino que não foi desmantelado quando foi criado o novo. Estas obras levam tempo, por todas as vicissitudes que um cemitério tem, e aquilo que implica, temos de fazer as coisas equilibradas. Se fazemos num e não fazemos no outro, as pessoas sentem-se um bocado postas de parte, a coisa tem de ser equilibrada. Queria, também, requalificar aqui esta zona verde, a Quinta de São Romão, fazer dela o Parque da Vila, porque há essa necessidade. Há um espaço verde que é necessário ter para que as pessoas possam vir passear, trazer os seus filhos, ter aqui um equipamento onde podem vir conviver com a família, um parque de merendas para que as pessoas possam vir cá e desfrutar dele. No fundo, são as duas grandes necessidades e os dois grandes objetivos que eu tenho para este mandato, o resto é tudo social e que vai continuar, não vale a pena ignorar isso, nem conseguimos, a realidade está aí e vamos ter de mudar um bocadinho as nossas políticas, torna-las mais sociais. Mais uma vez, a articulação com a Câmara é fundamental, assim como a articulação com as entidades de cariz social da freguesia, como as Conferências Vicentinas. É importante, para haver um conjunto de sinergias, para ninguém se estar a sobrepor a ninguém, nem estarmos a ajudar indevidamente duas vezes um e nenhuma vez outro. É importante haver essa articulação para que o nosso apoio seja efetivo e eficaz. Deixamos, nestes últimos dois anos, tudo aquilo que estava projetado e estava programado no plano de atividades, porque foi tudo direcionado para as famílias, para as pessoas, para o apoio ao comércio, para tudo e mais alguma coisa relacionada com a Covid, e hoje continuamos a ter esse cuidado, continuamos a transportar, diariamente, as pessoas para o Centro de Vacinação. Continuamos a fazer isto, e implica o quê? Disponibilidade humana, alguém para conduzir as nossas carrinhas e financeira para o combustível. Isto traz custos e é evidente que se gastamos na área social, não podemos fazer outros investimentos, não conseguimos, e daí a necessidade de haver uma articulação com a Câmara Municipal e uma relação melhor, para que isto fosse compensado, porque, francamente, não vejo mais nenhuma freguesia a fazer isto da forma como nós fazemos, de forma tão rotineira e diária. Demos agora início à Universidade Sénior que é uma das iniciativas que criamos com a agregação, uma universidade de promoção da literacia das pessoas mais idosas, que estão reformadas e que não têm onde ocupar o seu tempo. Temos desde aulas de informática, história, inglês e hidroginástica. Tivemos de parar nestes dois anos, mas tínhamos 60 alunos aqui na nossa Universidade Sénior. Agora já abrimos, e já estão inscritas 50 pessoas, ou seja, mais uma iniciativa virada para as pessoas, para a comunidade, para, no fundo, as pessoas não sentirem necessidade de sair da freguesia e encontrarem aqui o acolhimento e formas de se ocuparem, evoluírem e crescerem. Temos aqui a decorrer nas instalações, num protocolo celebrado com o IEFP, um curso de jardinagem, com pessoas da freguesia, para não terem de ir para outros sítios, como Santo Tirso e Trofa, para outros centros de formação. Quem está a frequentar estes cursos está desempregado, quase sempre são desempregados que não estão a receber rendimentos nenhuns e recebem apenas por frequentarem estas formações. Se não têm dinheiro, também não têm para andar a fazer deslocações em transportes para aqui e para ali. A Junta disponibiliza as instalações e tem sido um sucesso, acaba uma formação e começa outra. Temos cá o Gabinete de Inserção Profissional para que as pessoas venham cá tratar dos seus problemas com o IEFP, e não tenham de sair da freguesia. A Junta tem desenvolvido uma série de esforços para termos aqui as melhores condições possíveis, foi o caso do protocolo com os CTT, que já temos desde 2015. Temos o Espaço Cidadão em São Mamede. Tínhamos aqui na Junta, mas era da Câmara e ela entendeu que o devia tirar daqui, porque criou uma dependência da autarquia. Para mim, mais uma coisa surreal. Então, temos aqui um edifício espetacular, com muitas condições para serem ocupadas, até, pelos serviços da Câmara, e esta preferiu pagar instalações a terceiros, com uma gestão caríssima. Não sei, não faz sentido nenhum. É assim que se resolve a questão da proximidade?. As pessoas podem tratar ali de alguns assuntos, mas para os mais importantes têm de ir à Câmara, para tratar de processos, licenças. Para tirar o Espaço Cidadão daqui e coloca-lo ali a 200 metros abaixo? Para que as pessoas vão lá e não à Junta de Freguesia? Isto é uma declaração de guerra aberta. Nós, desde 2015 que tivemos aqui, e suportamos os custos de ter aqui um equipamento daqueles, e então, em 2020, resolve tirar? Com que razão? Não se faz uma coisa destas. É frustrante, estas coisas não deviam funcionar desta forma, mas pronto.

 

Ainda estamos no início deste que será o seu último mandato, mas pensando já um pouco no final, vou pedir para completar a frase: Um dia que abandone as funções de presidente da Junta, sairia feliz se…

Cumprisse quase tudo aquilo a que me propus. Isso sim, deixar-me-ia muito feliz.

 

Aqueles dois sonhos que falava anteriormente?

Sim. Alguns já foram sendo cumpridos ao longo destes mandatos, e aquilo que temos perspetivado para este. Sairia feliz, não digo que cumprisse a 100%, porque é impossível, mas se deixar esses projetos bem encaminhados, sairia muito feliz, sem dúvida.

 

Qual é a mensagem que gostaria de deixar à população?

Enquanto presidente, que continuem a confiar na Junta de Freguesia e que vejam nela um parceiro como têm visto até agora, para os bons e os maus momentos, porque a Junta estará cá sempre para trabalhar e ajudar nas dificuldades que cada morador da Vila do Coronado vai encontrando no seu dia a dia. Quando não tem mais a quem recorrer, não tenha medo, venha à Junta de Freguesia que ela está cá para ajudar. Às vezes não tem uma solução, mas tem uma resposta e encontra um caminho alternativo àquilo que possa parecer, às vezes, um problema sem solução.