Arranca hoje o Torneio de Decifração “Solução à Vista!”, que nos acompanhará durante os próximos meses, com a publicação no dia 10 de cada mês, de maio a janeiro, dos problemas a decifrar, e das respetivas soluções no dia 20 dos meses subsequentes.

O primeiro enigma é da autoria de um leitor que nos acompanha desde a primeira hora, participando em todas as provas de decifração até hoje realizadas e no concurso de contos levado a cabo o ano passado, onde conquistou uma menção honrosa com o original “Viagem de Teleférico”.

Nascido e criado em Gaia, na freguesia de Santa Marinha, Daniel Gomes despertou para a problemística policiária através da leitura desta nossa secção, na sequência lógica da sua paixão pela literatura policial. Devorador compulsivo dos grandes clássicos de Agatha Christe a Arthur Conan Doley, de Patricia Hamilton a Georges Simenon, de Raymond Chandler a Lisa Gardner, de Edgar Allan Poe a Ruth Rendell, apesar de ligado profissionalmente ao mundo informático, onde é comum a defesa da desmaterialização da literatura, o autor do enigma em apreço não dispensa o prazer da leitura de um bom romance policial em suporte físico, trazendo sempre como companhia um desses exemplares. Nesta edição, é ele, porém, quem nos desafia a desfrutar do prazer da leitura.

 

TORNEIO “SOLUÇÃO À VISTA!”

Prova nº. 1
“O Enforcamento do Vigilante”, de Daniel Gomes

Ventura Marques era vigilante numa importante empresa de produtos congelados. Numa tarde de domingo do verão passado, Jorge Cunha, o colega que o foi substituir, encontrou a porta da empresa fechada, com a chave no interior, impedindo a sua entrada. Depois de tocar à campainha da porta por diversas vezes e de ter ligado vezes sem conta para o telefone da empresa e para o telemóvel de Ventura, alertou o superior hierárquico da sua entidade patronal para o sucedido, tendo este ligado de imediato para a polícia.

Meia hora depois, por volta das 17h00, chegou um piquete da PSP, que, depois do uso de algumas chaves de serviço sem qualquer sucesso, decidiu pelo arrombamento da porta. Lá dentro, os agentes deslocados para o local depararam com o pobre homem preso pelo pescoço a uma corda amarrada na tubagem da água que passa junto ao teto e com os pés a cerca de meio metro do chão, já sem sinais de vida.

No chão alagado de água, não havia à vista nenhum objeto, um banco, uma cadeira, um caixote, nada em que o infeliz do Ventura Marques se tivesse empoleirado para cometer aquele seu desesperado ato. Foram de imediato chamados os serviços de emergência médica, que se limitaram a declarar o óbito e a comprovar que a morte fora devida a enforcamento. Entretanto, com a chegada da Polícia Judiciária, o caso passou para a esfera do consagrado inspetor Macunaíma, um homem de poucos músculos, muito franzino e pequeno, lento de movimentos nos afazeres do dia-a-dia mas rápido a usar a arma e… o seu privilegiado cérebro. Passados pouco mais de quinze minutos, fizera-se luz sobre a forma como ocorrera a morte do vigilante, o que deixou toda a gente espantada face à rapidez de raciocínio de Macunaíma. Estamos certos, porém, que o leitor, com a sua vocação para detetive, também já sabe como tudo aconteceu.

Mas antes que faça julgamentos precipitados, convém que o leitor fique a saber que o espaço onde o corpo foi encontrado é composto por outras três portas, que comunicam com os demais espaços de trabalho da empresa. Estas estavam igualmente fechadas pelo interior do local onde se deu o enforcamento, com as respetivas chaves na fechadura, não havendo qualquer outra hipótese de alguém entrar naquele compartimento sem ser através daquelas portas, conforme constatou o inspetor Macunaíma. Nesses outros três espaços, através das bandeiras das portas, feitas de vidro transparente retangular colocado à altura dos olhos de pessoas de média estatura, era possível verificar a ausência de quaisquer pessoas e constatar a impossibilidade de existir algo que pudesse estar de qualquer maneira associado à morte do infeliz Ventura Marques.

Não faltaram, porém, as insinuações que são frequentemente habituais em situações desta natureza. Um ex-colega de Ventura Marques fez questão de dizer que as relações deste com Jorge Cunha não eram as melhores. Um funcionário da empresa de congelados revelou haver entre uma colega sua e a vítima um caso amoroso secreto, que era muito comentado internamente em surdina. O sócio gerente da empresa confirmou conhecer este caso de adultério, que há muito o preocupava sobremaneira por o marido da funcionária ser um sujeito muito ciumento e bastante agressivo. A mulher da vítima confirmou as dificuldades de relacionamento existentes entre o seu marido e o colega Jorge Cunha e admitiu também desconfiar de que a forma como Ventura Marques se referia a uma tal Leninha da empresa de congelados podia esconder um qualquer sentimento muito mais forte do que admiração profissional ou amizade pessoal. Mas a verdade é que o inspetor Macunaíma parecia ter desvalorizado completamente estes depoimentos quando se sentou no seu gabinete para redigir o relatório da ocorrência…

 

DESAFIO AO LEITOR

E o leitor, também desvaloriza as insinuações proferidas nos depoimentos, ou não? E porquê? O que se terá passado? Justifique o seu raciocínio, pormenorizadamente, através de relatório a enviar para o orientador da secção, até dia 10 de junho, por um dos seguintes meios:
– por correio, para AUDIÊNCIA GP / O Desafio dos Enigmas, rua do Mourato, 70-A – 9600-224 Ribeira Seca RG – São Miguel – Açores;
– por email, para salvadorpereirasantos@hotmail.com.
E, já sabe, não se esqueça de identificar a solução enviada com o seu nome ou pseudónimo, nem de indicar a pontuação que atribui ao enigma proposto pelo confrade Daniel Gomes. Recordamos mais uma vez que o vencedor do concurso de produção de enigmas policiários “Mãos à Escrita!” será encontrado através da pontuação média atribuída pelos participantes do torneio de decifração “Solução à Vista!” e pelo orientador da secção.

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