Nada é firme, nem seguro nesta vida: Não fazemos outra coisa, que não seja experimentar caminhos, nunca chegaremos a um fim. É precisa muita coragem para se viver, sobretudo num país como o nosso, neste tempo e quando não se é de todo estúpido e inculto.»[…] no Teatro, o homem, cada um de nós, pode ver-se realizado, cumprido integralmente, pode aferir a sua real potencialidade de paixão, saber de quanto amor e ódio, de quanto bem e mal é capaz; o Teatro dá-nos o desenho completo de nós mesmos, a tragédia ou a comédia totais das nossas vidas prisioneiras. (SANTARENO, 1967, p. 10)

Escrita no ano de 1961 O Pecado de João Agonia, peça de Bernardo Santareno volta à cena no TECA num belíssimo espectáculo sob a direção de João Cardoso numa coprodução da Assédio e o TNSJ, com uma inteligente dramaturgia da poeta e dramaturga Regina Guimarães. Não será difícil imaginar o impacto que a obra teve na altura da sua estreia dado o tema central, a homossexualidade do protagonista. Belo apelido dado ao João, que arrastra consigo a angústia agónica (no melhor sentido grego) como um estigma e anátema.

Como o Édipo de Sófocles, o João Agonia, carrega a ferida interna do seu pecado escondido num segredo doloroso e arrebatador. Em várias ocasiões já ouvi e li sobre o parentesco que se estabelece entre a obra de Santareno e do vizinho dramaturgo e poeta espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936). Helena Serôdio escreve: “Na exclusiva práctica da escrita dramática é, todavia Bernardo Santareno (pseudónimo de António Martinho do Rosário) o autor que de forma…

https://repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/4303/1/Maria%20Helena%20Ser%C3%B4dio.pdf

Nas Bodas de Sangue, peça de Lorca que integra uma trilogia formada por Yerma e A Casa de Bernarda Alba, escrita em 1932, assistimos a luta entre duas famílias rivais. No dia do casamento o regresso de Leonardo, ex-noivo da noiva, decide seduzi-la e relembrar o passado. Em meio da cerimônia do casamento, a noiva e Leonardo fogem, e desencadeiam uma série de perseguições que acentuarão o destino trágico das personagens. Se na peça do Lorca o prometido casamento fica interrompido, na obra de Santareno, as famílias rivais Agonia e Giesta, estão condenadas a não efectuar qualquer boda, qualquer casamento.

No drama de García Lorca, ele explora ainda a possibilidade do irreal, a Lua e a Morte se corporizam e ganham vida, e participam do desenrolar da trama, auxiliando a luta/ (agon) ritualística entre o noivo e Leonardo.  Em Santareno a presença de uma matilha de lobos anuncia a verdadeira alcateia na qual o pai, o tio e o irmão se converterão para assassinar e sacrificar João Agonia para assim satisfazer a revolta popular indignada quando o segredo de João é revelado publicamente na aldeia.“Santareno testemunhou e vivenciou a ditadura salazarista que, com a força da censura e o apoio da Igreja Católica, buscou inibir a liberdade criativa de todos aqueles que pudessem ir além dos códigos de conduta vigentes. O uso da ironia pelo dramaturgo vem permitir a fragmentação das relações e significados sociais e, por conseguinte, a liberdade para a desconstrução dessas realidades e/ou para uma redefinição do mundo e das relações humanas. Neste sentido, pode-se afirmar que a ironia, na obra santareniana, apresenta-se também como uma “maneira especial de questionamento, de denúncia, de desmascaramento, de argumentação indireta, de ruptura com elementos estabelecidos” (BRAIT, 2008, p. 139). …em O pecado de João Agonia a ironia recai sobre componentes da sociedade portuguesa, nomeadamente, a forma como são representados o meio social, as personagens, a sexualidade, as superstições, os preconceitos e as relações de poder.” (in O pecado de João Agonia, de Bernardo Santareno: entre ironia, opressão e silêncios Márcio Ricardo Coelho Muniz UFBA Solange Santos Santana UFBA)Para ouvir na rtp: “O Pecado de João Agonia”, da autoria de Bernardo Santareno, numa adaptação radiofónica de Isabel Figueiredo de Barros. https://arquivos.rtp.pt/conteudos/peca-de-teatro-o-pecado-de-joao-agonia/

Ángel Fácio: Na passada segunda-feira dia 15/11/21 recebemos a notícia da morte do encenador Ángel Fácio, do qual nos lembramos recentemente numa destas crónicas. No ano de 2017 celebramos em conjunto a ESAP/Escola Superior Artística do Porto com a ESAD/Escola Superior de Arte Dramático de Vigo e Os Goliardos, os 45 anos da encenação no TEP de A Casa de Bernarda Alba de Federico Garcia Lorca, nessa oportunidade na qual Ángel Fácio esteve presente, conseguimos reunir a maior parte do elenco dessa já quase mítico espectáculo. “El legado del teatro riojano está de luto, tras el fallecimiento en Cellorigo el lunes del director teatral Ángel Facio, fundador del grupo ‘Los Goliardos’…” https://www.larioja.com/culturas/angel-facio-deja-20211116183047-nt.html