“ESTÁ A PASSAR-SE TUDO TRANQUILAMENTE, OS NOSSOS PLANOS DE CONTINGÊNCIA FORAM FEITOS COM MUITO CUIDADO”

Sendo uma das maiores instituições de apoio social da região, a Santa Casa da Misericórdia da Ribeira Grande continua a fazer todos os esforços para manter utentes e funcionários a salvo desta pandemia. Apesar de alguns sustos que, segundo o provedor Nelson Correia, foram “resolvidos dentro de portas”, tudo tem corrido dentro do planeado e todos os casos assinalados têm tido o apoio necessário.

 

 

 

A Santa Casa da Misericórdia é uma instituição próxima das pessoas, com várias valências sociais. Como vivem estes tempos de pandemia?

Desde a primeira hora, que vai fazer um ano, a 13 de março, ficamos todos assustados, como é óbvio, porque temos aqui uma equipa de SAT, que é o serviço de apoio ao domicílio que é a maior da região com o maior número de utentes com apoio. São 135 neste momento e com 31 em lista de espera, temos 10 equipas no terreno todos os dias, fora mais 130 refeições que distribuímos diariamente em casa de outros utentes, alguns que não têm o serviço de apoio. Temos também o banco alimentar, em que a distribuição é feita todos os meses. Mas como é óbvio, quem está mais exposto ao público fica mais preocupado com esta situação e nós fizemos equipas em espelho o ano passado no serviço de apoio ao domicílio de refeições, porque tínhamos condições para isso. Foi fácil ir buscar os educadores e auxiliares de educação que estavam em casa, como estão agora há cerca de um mês. No serviço de apoio ao domicílio, não é tão fácil, nem todas as pessoas estão preparadas para lavar um idoso ou fazer a higiene, não é fácil encontrar pessoas para isso. O anterior Governo apelou para que se fizesse equipas em espelho, mas neste caso não era possível porque havia a necessidade de contratar cerca de 20 funcionários e era um custo acrescido que a instituição também não podia suportar e são serviços, já por si, bastante deficitários. A instituição, todos os anos, anda na casa dos 80 mil euros de défice nessa área só do SAT, portanto não foi possível fazer equipas em espelho, tivemos de reforçar os cuidados, como usar mais máscaras, viseiras, fatos descartáveis, mais desinfeção, etc. Houve uns pequenos sustos, mas nada de alarmante e não veio para a comunicação social, tudo se resolveu dentro de portas e as coisas foram ultrapassadas com cuidado. Quem está à frente desse serviço é a Drª Ana Quaresma, que tem sido impecável neste aspeto, tem feito um acompanhamento no terreno sempre em cima do acontecimento, com muita preocupação e estamos a ultrapassar esta situação. Neste momento, face ao cenário que se vive na Ribeira Grande, há mais de um mês tivemos que optar radicalmente porque temos uma zona muito forte de implementação, que é Rabo de Peixe, pela sua grandeza, não pelo resto do estigma que existe, porque infelizmente quando se fala de Rabo de Peixe é sempre pela negativa, mas nada disso. Rabo de Peixe é uma grande vila, e tem como tem a Ribeira Seca ou a Matriz da Ribeira Grande ou a Ribeirinha, tem as suas zonas mais complicadas. Mas a verdade é que tivemos de optar e não sendo possível fazer equipas em espelho, fizemos equipas com rotatividade. As cinco equipas da manhã não se encontram com as cinco equipas da tarde, tivemos também de reduzir alguns serviços aos utentes porque a capacidade de resposta não era a mesma, mas vamos aguentar assim até ao mês de abril, se for possível mais cedo levantar algumas restrições melhor, se não for possível estamos preparados até ao mês de abril para continuar assim. Em termos de centro de dia, tínhamos cerca de 45 idosos, depois do Covid reduziu e estamos com pouco mais de 20 neste momento. Houve uma redução muito grande porque houve famílias que não quiseram que os idosos viessem, até porque tínhamos pessoas com 60 e poucos anos que não são propriamente considerados idosos. Mas temos tido também bastante cuidado no centro de dia, maior distanciamento, as refeições fazemos dois turnos.

 

E a unidade de cuidados de crianças e jovens com cuidados especiais?

Essa área, no final de outubro, início de novembro, aquando das eleições, na fase de indefinição, tivemos de tomar uma decisão forte porque efetivamente não havia diretrizes e as que havia não nos davam segurança a quem lá trabalha, empurravam muito para cima do CATL Sul da Ribeira Grande, que por sua vez não dava resposta nem conta do recado, porque temos 42 jovens, sendo que cerca de 12 não conseguem usar máscaras, e há um desconforto muito grande para os próprios trabalhadores. E houve problemas complicados, que também foram geridos dentro de portas, mas tudo se resolveu sem alarido. As famílias compreenderam, foram também sensíveis em que esses jovens com deficiências mais complicadas ficassem em casa, o que nos deu alguma tranquilidade, porque ficamos só com os jovens que usavam máscaras, ou seja, houve uma redução significativa de utentes para benefício quer do próprio utente na sua família, porque se ele apanhasse o vírus iria levar para a família, quer para o conforto dos próprios funcionários. Portanto, está a passar-se tudo tranquilamente, os nossos planos de contingência foram feitos com muito cuidado, sempre atualizando à medida que encontrávamos algumas lacunas, e o que é verdade é que, até à data, nada nos tem apoquentado dentro de portas, inclusive a própria cozinha, em que são preparadas mais de 300 refeições por dia, e um dia em que a cozinha parasse era muito complicado. Aí temos de ter mesmo equipas em espelho.

 

O presidente da Câmara disse, recentemente, que havia fome na Ribeira Grande. A Santa Casa da Misericórdia tem conseguido amenizado essa situação com esta quantidade de refeições que distribui? Conseguem substituir os poderes públicos nesta missão?

Eu julgo que é forte demais dizer que há fome na Ribeira Grande, porque, no terreno, existem muitas equipas. Há a Cáritas, a Santa Casa, a Câmara através da sua ação social, as organizações de freguesia, nomeadamente, os Vicentinos, ou seja, possivelmente pode haver um ou outro foco, mas estão todos identificados. Nós, como temos aqui o Banco Alimentar e são cerca de 550 distribuições de cabazes que fazemos, todos os meses, é muito, e ainda temos capacidade de ir mais além, porque o protocolo ainda permite. Acontece que as equipas multidisciplinares que estão no terreno, uma das quais pertence à Santa Casa, e julgo que os problemas de fome estão, por isso, identificados. Nós tivemos uma parceria, o ano passado, em dezembro, o senhor presidente da Câmara contou com o financiamento de Rabo de Peixe, solicitou-nos uma parceria para a ajuda de distribuição de alimentos em Rabo de Peixe, em que nos cedeu 15 mil euros, todos absorvidos em géneros alimentares, foram identificadas as famílias através da divisão da ação social da Câmara, e nós colaboramos na distribuição, na organização e na compra. Essa situação da fome está mais ou menos suprida, porque as pessoas sabem onde se dirigir e nenhuma dessas instituições volta as costas.

 

Talvez o presidente se estivesse a referir a famílias que têm carência de receber os cabazes mensais e que não conseguem por si só…

Mas é também a gestão dos cabazes alimentares que não é feita em condições. Uma das regras do Banco Alimentar impostas à instituição é que temos de dar formação a essas famílias para gerirem bem, mas não há capacidade. Cinco técnicos não conseguem abranger 500 famílias. Essas famílias deviam ter uma gestão desse Banco Alimentar para o mês, e inclusive é obrigatório essas famílias fazerem a reciclagem do material dos caixotes que recebem. Isso tem sido mais ou menos acompanhado, a parte da reciclagem. Mas na área da gestão dos próprios alimentos as coisas são mais complicadas e falta-nos fazer essa formação dentro de portas de cada família. Além disto, também apoiamos cerca de 50 pessoas, identificadas pelo RSI, em cantina social, que não pagam nada, a instituição é que dá tudo.

 

Além desse apoio que referiu, por parte da autarquia, têm outros apoios?

O anterior Governo teve o cuidado, desde a primeira hora, de suportar grande parte, ou quase tudo, de todos os gastos que tivemos com máscaras, luvas, gel desinfetante e tudo o que era necessário, e correu bem. No final, face às eleições, houve ali alguns atrasos, mas não é por aí que houve problema. Para algumas instituições que têm lares, o gasto é muito superior, a nossa média de gastos mensais anda na casa dos 3 mil euros, enquanto essas instituições com lares ultrapassam em muito os 5 ou 10 mil euros, conforme a grandeza deles, portanto é um custo acrescido que as instituições tiveram. O Governo quanto tomou posse ajudou no mês de dezembro, por isso, as coisas estão controladas. Mas nunca se pós entrave, da parte da mesa administrativa, a qualquer tipo de aquisição que se quisesse fazer, para equipamentos de proteção.

 

Então, os órgãos autárquicos e regionais têm acorrido às necessidades das instituições?

Mais os regionais sim. A autarquia, nesse aspeto, no caso da Santa Casa foi apenas 15 mil euros, que foram diretos para as famílias. O dinheiro entrou e saiu, foi um protocolo específico para dar apoio às famílias em termos de alimentos. Tivemos foi outro apoio que veio do continente, 500 euros de uma associação, que foi específico para Rabo de Peixe, para comprar máscaras e que distribuímos às famílias de Rabo de Peixe. E chegaram a questionar se havia necessidade de ir mais longe, eu disse que sim, porque não era o suficiente dado o que se passava lá.

 

O que a Santa Casa da Misericórdia sugere para mais facilmente chegar às pessoas e ajudar a ultrapassar esta pandemia?

Ultrapassar a pandemia, a Santa Casa não pode fazer nada mais do que os órgãos de comunicação têm feito, com base nas recomendações do Governo e da autoridade de saúde. As pessoas é que tem de cuidar de si próprias, começa por aí. Se cada um tomar conta de si próprio, a pandemia será menos grave. Se as pessoas não conviverem muito, se mantiverem o distanciamento, se lavarem as mãos e usarem máscara, se tudo isso for aplicado conseguimos controlar isto. O que a Santa Casa está aqui para fazer é a necessidade de alguma situação mais urgente, como já aconteceu, estamos aqui com alguma ajuda técnica se necessário para a pessoa ficar repousada em casa, a alimentação também se a pessoa perder algum rendimento, estamos aqui de peito aberto para ajudar. E no orçamento deste ano a instituição voltou-se mais para as necessidades de carência das pessoas que estão em casa com 30 mil euros para pequenas reparações em casa das pessoas, nomeadamente, conheço porque fui visitar, dos cerca de 300 utentes que temos diariamente, conheci situações degradantes de casas de banho sem condições, o quarto com humidade e o chão levantado, essas pequenas reparações já começaram a ser feitas em janeiro para dar outro conforto às pessoas e para que haja também mais limpeza para que os nossos próprios funcionários também se sintam mais seguros quando lá vão. De forma geral, a Santa Casa está sempre de portas abertas, nunca negamos ajuda a ninguém, até em funerais colaboramos em situações aflitivas, também temos orçamento para isso. Sabemos bem que a pior é a pobreza envergonhada mas a Santa Casa está de braços abertos e não deixa ninguém passar fome, é a nossa missão.