Após o arranque do novo ano escolar, o AUDIÊNCIA esteve à conversa com José Cardoso, presidente da Federação das Associações de Pais do concelho de Vila Nova de Gaia (FEDAPAGAIA). Apesar das novas regras, o presidente garante que tudo está a correr tranquilamente, apesar de já terem aparecido alguns casos em algumas escolas, mas admite que só o passar do tempo determinará como irá correr o ano letivo. Apesar de considerar que todas as medidas em vigor são necessárias e responsáveis, José Cardoso acredita que os alunos estão a ser prejudicados a nível de conteúdos escolares e está mesmo a preparar documentação para entregar junto do Ministério da Educação para uma possível revisão dos conteúdos letivos face a este momento que todos vivemos.

 

 

 

Como correu o início do ano letivo em Gaia?

O arranque deste ano letivo constituiu-se, ele mesmo, como uma novidade para todos, para os professores, para os diretores, para os pais, etc. Mas, do ponto de vista do trabalho prévio, daquilo que significou fazer reuniões preparatórias com as pessoas que percebem do assunto, nomeadamente do departamento da saúde, com os delegados regionais da DGS, com os subdiretores, com as escolas e a Câmara, preparamos tudo o que estava ao nosso alcance e saber para que o arranque do ano letivo fosse com a maior das tranquilidades. E, de uma forma geral, pode-se dizer que o arranque do ano letivo aconteceu com naturalidade. Devo pontuar que no primeiro e segundo dia, algo que não é da época COVID, mas que já vinha do passado, são sempre dias especiais para os alunos que pela primeira vez vão para uma escola e para os pais que os levam pela primeira vez. Se já nos outros anos é um período conturbado, porque há uma tentativa de levar o filho dentro da escola, este ano isso mostrou-se mais acerbado porque devido às regras COVID e à higienização que foi necessário fazer à medida que cada um dos alunos entrava na escola, gerou-se nas escolas, em Gaia e em todo o país, um aglomerado desnecessário e evitável por parte dos pais e das crianças. Isso terá sido o que menos bem correu no arranque do ano letivo. Do ponto de vista da informação, da preparação, da adequação dos espaços às regras COVID, tudo isso foi garantidamente feito e tivemos o cuidado de poder acompanhar e perceber. Mas mais importante que o arranque, que é por si uma expetativa não dominada por nós, é como é que ele se vai desenvolver durante este primeiro período que para nós é absolutamente crucial para perceber como é que depois o segundo período possa decorrer. E aí a nossa expetativa está no alto, a ansiedade dos pais está alta também, mas acho que é uma ansiedade controlada porque estão a olhar para a escola e para as medidas que a escola está a implementar e isso está-lhes a trazer alguma tranquilidade. Percebo contudo que há sempre aqueles que perguntam ‘e se surgir um caso?’, ou ‘ali já surgiu um caso’, confundindo às vezes os casos com suspeitas de casos, mas agora esta linguagem mais da área da saúde que os pais têm de se inteirar, é que está a constituir-se como algo novo. Então, nós Federação e nós pais, o que procuramos passar é exatamente os procedimentos que a saúde nos indica serem os corretos, confirmação de um caso, verificação que é positivo, quais as crianças que contactaram com ele para poder por de prevenção, depois verificar se foram positivas ou não, portanto, toda esta tramitação que vai, inevitavelmente suceder-se dia após dia nas escolas.

 

 

Qual a maior preocupação?

A nossa preocupação principal está ao nível dos professores e dos assistentes operacionais. Porque, se é certo numa turma quatro ou cinco alunos podem ter de ficar de quarentena, e a escola continua e todos os outros alunos e turmas têm a sua vida normal, o mesmo já não se pode dizer quando forem os professores ou funcionários. E isso cria uma preocupação grande porque está pensada a solução, a nossa preocupação é perceber se essa solução é exequível. E num primeiro tempo será, mas não sei até quando, porque os funcionários nunca abundaram nas escolas e essa foi sempre uma preocupação muito presente no país e em Gaia, particularmente, a Federação tomou várias iniciativas relativamente a essa questão. Se esse já era um problema do passado, agora face a tudo isto, tem tendência a agravar-se. A Câmara Municipal tem dado um apoio fantástico nessa matéria porque junto dos JI, dotou as escolas com funcionários adicionais, para além daquilo que eram os rácios, para poder de alguma forma amenizar. Mas ao nível dos funcionários que o Estado coloca nas escolas, que o poder central tem a responsabilidade de colocar, embora tenhamos tido a notícia da contratação de alguns, bem sabemos que isso vai demorar muito tempo e tempo não é algo que propriamente tenhamos. Quando esses funcionários chegarem às escolas provavelmente já estaremos na primavera ou verão onde se espera e se deseja que isto já esteja numa fase de menor intensidade. Portanto, preocupa-nos muito por esse lado e tememos que com medo, que com problemas de saúde que cada um vai tendo, até por essa razão se protejam e coloquem baixa, e depois as situações confirmadas que possam acontecer, possam levar ao encerramento de algumas escolas de forma sucessiva e aí criar um problema para os pais porque eles já se perguntam o que fazer se isso acontecer.

 

Pois, existe bastante receio por parte dos pais que tenham os filhos novamente em casa?

O principal receio e assumido por parte dos pais é precisamente se os filhos tiverem de vir para casa. Porque os pais já perceberam, quer do ponto de vista dos próprios empregos, quer do ponto de vista do que fazer com eles em casa, é um problema para eles. Há empresas que já estão novamente em teletrabalho e as famílias estão a ver que vai voltar tudo ao mesmo. Portanto, os pais estão preocupados com a doença, mas estão muito preocupados com o facto de puderem ter de ficar em casa novamente. Por isso desejamos e temos reconhecido o esforço que as escolas têm feito, os professores e todos os profissionais, e os pais que também têm uma quota parte da responsabilidade porque pedimos muito aos pais e passamos a mensagem que temos também de ser uma parte da segurança da escola. Não podemos querer que os miúdos vão para a escola e tenham lá tudo o que tem a ver com as normas de higienização, segurança e distanciamento social, e depois em casa irmos com eles para aqui e para acolá pondo-os em risco. Temos todos de fazer a nossa parte.

 

 

E os alunos como estão a lidar com todo este novo contexto?

Dos alunos, as informações que temos, é que estão a cumprir. Eu nunca tive muito receio da questão de os alunos cumprirem, mas também podemos dividir em dois segmentos. Os alunos do ensino básico até ao primário, ou seja, até ao 4º ano, e depois, e aqui é que há uma dificuldade acrescida, os alunos que vão do 5º até ao 8º ano. Nestas faixas etárias é realmente mais difícil faze-los cumprir, mas, o efeito contágio destas coisas, ou seja, o efeito de verificarem que eles e os outros estão a adotar as mesmas regras tem dado tranquilidade. Para já não há registo nenhum de dificuldade dos professores em fazer com que os alunos cumpram as normas em contexto de sala de aula e de recinto escolar. Admito que, à medida que o tempo passa, as crianças comecem a ficar mais saturadas disto e que se possa começar a registar algo, mas não há sequer ainda receio que se possa constituir como uma causa de indisciplina este desrespeito pelas normas. Porque os professores também estão muito atentos a isto, por receio próprio e para impor as regras, os funcionários da mesma maneira e em casa os próprios alunos também já veem com as regras. Há uma coisa que me preocupa muito, por ser do movimento associativo e por já termos passado por alguns anos destas coisas, que é o excesso de tempo letivo que o COVID veio impor. Ao nível do 1º ciclo, não há grande diferença, há um desfasamento de horários para não entrarem todos ao mesmo tempo nas escolas e não almoçarem ao mesmo tempo, mas as horas mantêm-se as mesmas. Mas do 5º ano para diante, de forma a permitir que as escolas tenham menos concentração de alunos ao mesmo tempo, as direções escolares, e quanto a mim bem, tentaram fazer blocos, ou seja, colocar os alunos a terem aulas todos da parte da manhã ou todos da parte de tarde, evitando o que acontecia no passado que os alunos tinham aulas de manhã e de tarde. Isso é uma medida que o COVID veio trazer só que ao fazer isto e como não houve diminuição dos conteúdos pedagógicos, eles têm a mesma carga letiva que vai estar compactada porque diminuíram o tempo dos intervalos. O que está a acontecer, e isso preocupa-me muito, e isto vai mais para o âmbito da psicologia, é que os alunos entram às 8h, têm blocos de 90 minutos de aulas, com intervalos de cinco minutos em que não podem sair das salas, e depois a meio da manhã um intervalo de 10 minutos em que podem sair da sala mas estão confinados a um espaço de recreio, e concordo com isso, mas de facto, esta carga horária, a pressão que do ponto de vista da perda da matéria do ano letivo anterior que vai ser transposta para este ano, o uso das máscaras durante todo este tempo, e isso sim considero que é muito pesado e não sei como é que os alunos vão reagir, não sei como é que as aprendizagens se vão ressentir, e também não sei como é que a indisciplina por esta razão se venha a manifestar na sala de aulas. Como é que os alunos, desta faixa etária, se conseguem concentrar este tempo todo? E isto vai acabar por dar uma grande saturação, para todos. Não tenho qualificação profissional mas é a minha opinião do que conheço da realidade e do que os pais, neste curto espaço de tempo, já foram dizendo, que é o regresso imediato do conjunto de trabalhos de casa que depois chegando a casa ainda têm de fazer. E estou a falar pela primeira vez sobre esta matéria porque ainda estou a documentar e também não me quero precipitar porque acho que o início é sempre difícil para todos. E por isso, penso que não devo ser já porta voz desta preocupação publicamente mas tenho receio que a reboque desta urgência de dar os conteúdos com receio do que se possa dar daqui para a frente, em termos de tempo escolar, tudo isto, para os alunos que vêm desde março até agora sem nenhum ritmo de estudo, seja complicado.

 

 

Havia alguma solução para isso, a seu ver?

Só havia uma possibilidade mas o Governo não aproveitou, que era no momento COVID, em que se fez vários ajustes, fazer também um ajuste dos currículos para este ano, ou para os próximos dois ou três anos. Eu até acho que vamos ter uma geração COVID, os alunos que estão a passar por este momento ficarão rotulados por isto, porque estão a vivenciar uma experiência totalmente diferente, que estão a ser eles a vivê-la, e que estamos a olhar para todos os aspetos relacionados com a parte da saúde, do que diz respeito ao contágio e à higienização, mas não se está a olhar para a parte pedagógica. Ainda não vi professores a falarem sobre isto, ainda não vi pais a falarem sobre isto, e eu quero por este assunto na ordem do dia mas quero primeiro aprofundar.

 

 

Qual o feedback que tem do ano passado a nível letivo? Os alunos conseguiram assimilar os conhecimentos?

Há que dividir no que foi o olhar dos pais, do movimento associativo e o trabalho feito pelas escolas. Do ponto de vista dos pais, que estejam menos preparados para ver como é o funcionamento da escola por dentro, foi para eles uma grande carga de trabalhos, porque, de repente, tiveram que estar a lidar com o seu emprego em casa, com as aprendizagens que os filhos estavam a ter que fazer em casa, partilhando ferramentas de trabalho como computadores ou tablets, e partilhando acima de tudo a necessidade de os acompanhar e ajudar com os trabalhos de casa ou a descarregar documentos e enviar. Isso constituiu-se como um verdadeiro sacrifício, e os professores, numa primeira fase, a solução que encontraram foi descarregar trabalhos de casa, em vez de adaptarem os conteúdos à nova realidade. Claro que não estavam preparados, portanto, não é uma crítica pejorativa, mas foi o que aconteceu e tornou-se um verdadeiro inferno para famílias com dois ou três miúdos em casa que não tinham tempo para nada. Do ponto de vista do olhar do movimento associativo sobre o que foi feito, já tenho uma opinião mais positiva porque conheço o sistema e não é fácil qualquer professor que tem durante anos uma estrutura de ensino, passar de repente para a adaptação destas tecnologias. E apesar de tudo, verifiquei que os professores, e até os que eu esperava que fossem menos capazes, que são os mais antigos, tiveram uma capacidade de adaptação fantástica, e fizeram um esforço para por ao serviço dos alunos por novos meios o seu conhecimento, e isso tenho de reconhecer. Porque, de facto, nalguns professores, notou-se um esforço muito grande para dizer que o aluno não pode ficar sem o contacto e sem aprendizagem e reinventaram-se em metodologias fantásticas, algumas até arcaicas, mas em que a mensagem chegava. E isso foi o que contou. A opinião dos pais sobre a aprendizagem, ou a consolidação do que foi dado durante aquele tempo, acho que todos somos unanimes a dizer que foi um tempo que serviu para manter os alunos ocupados mas não serviu para transmitir conhecimento.

 

Não é a mesma coisa aprenderem em casa ou na escola?

De maneira nenhuma, longe disso. Acho que se tivéssemos de fazer isto por mais tempo, ao fim de algum tempo podia ser adquirida essa capacidade. Acho que foi importante e necessário, mas acho também que do ponto de vista dos conteúdos pedagógicos não ficaram aprendidos. Daí eu considerar que se poderiam fazer alguns ajustes, mesmo que não se mexam nos manuais, porque estão feitos e produzidos, mas que possam ser dadas orientações às escolas para que os professores, dos conteúdos que os manuais trazem, pensem em selecionar quais os que são importantes ou o que é que é possível de se dar. Porque senão vamos ter mais um ano a fazer de conta.

 

Considera então que esta geração COVID pode vir a ter aqui algum tipo de lacuna relativamente aos anteriores?

Inevitavelmente sim. Se lhes for exigido nos exames nacionais, porque os alunos do 1º ciclo vão recuperar isto tudo. Os alunos do 5º e 6º ano vão recuperar também, mas a partir do 8º e 9º ano, em que começam com exames, e em que as matérias começam a ser mais difíceis, acho que esses alunos vão sofrer de um défice de conhecimento relativamente aos outros que tiveram as condições ideais, e espero que possam ainda durante a sua vida de estudantes ainda vir a recuperar. Mas os do 10º e 11º não sei, ainda vão levar com isto no próximo ano certamente. Daí eu considerar que o Ministério da Educação deveria adaptar os conteúdos, para poder adaptar as exigências e os critérios avaliativos para que estes alunos possam consolidar os seus conhecimentos nas suas vidas profissionais. Porque nós sabemos que um aluno que acaba o 12º ano e siga para uma faculdade, se já não houver COVID na altura em que for para a faculdade, vai ter condições objetivas para consolidar os seus conhecimentos na área de saber para onde se direcionar. Se continuarmos a exigir dos que estão a passar por isto o mesmo padrão de conhecimentos, ou vamos enganar-nos, ou vamos fazer com que fiquem prejudicados. Porque mesmo aqueles que normalmente são beneficiados por estarem no ensino privado, terão alguma dificuldade, os do público então nem se fala. O desfasamento de concorrência para com os do privado que já existia vai aumentar e é um risco desnecessário porque os professores, as escolas e as direções escolares, têm condições, tendo autorização do Ministério, puderem fazer alguns ajustes. Há conteúdos pedagógicos que são dados que os próprios professores dizem que têm de dar mas que acham que não é tão importante quanto outros. É tempo de aplicar isso.

 

Mas isso são medidas que têm de vir de cima, do Ministério, e não de cada escola…

Tem de vir de cima claro. A FEDAPAGAIA fará esse pedido, como lhe disse estamos a documentar isso com o objetivo de tentar poder fazer chegar junto do Ministério, o que somos capazes de fazer, que é este pedido de especial olhar para estas condições porque não sei se os professores se sentirão muito motivados a fazê-lo porque pode parecer que se estão a desresponsabilizar, as direções escolares também não têm este problema porque esta pressão não existe para eles, já para os pais e para os alunos é sem dúvida um dos problemas que é muito mais sério do que propriamente o COVID e para o qual as medidas estão a ser implementadas.

 

Há pouco também falou da reunião pública de pais que decorreu no passado mês. Como correu e o que tentaram transmitir?

Todos os anos a Federação faz uma reunião de arranque do ano letivo, e costuma sempre convidar a Câmara, porque é parceira e os diretores e este ano também gostaríamos de ter tido presente os presidentes de Junta que são parceiros locais mas face às regras do espaço não o pudemos fazer. Mas a reunião correu muito bem, tinha como expetativa que pudesse ser um reflexo de alguma intranquilidade dos pais mas na verdade como à reunião vêm os representantes dos pais, nós com estes representantes já fomos partilhando informação, portanto, são pessoas que já estão um bocadinho mais dotadas de conhecimento. Mas esses, que para mim era importante que entendessem e levassem a mensagem, acho que estão capazes de a poder difundir e também não reportaram ainda muitas preocupações, o que é positivo. Mas é uma tranquilidade sempre com algum grau de expetativa, e a observar e atentos, porque sabemos que se numa escola tivermos uma Associação de Pais ou um conjunto de pais que possam extrapolar e fazer ali um burburinho por causa de algum caso, e chamem a comunicação social que naturalmente anda muito ávida disto, pode-se criar mais preocupações noutros locais. Mas já se sabe que é normal que vão surgir casos e que algumas escolas possam fechar. Se as coisas não correrem bem e se o SNS, que é quem manda nisto tudo, os delegados de saúde estão a seguir as orientações que a Direção Geral de Saúde lhes recomenda, e objetivamente isto passará por esta observação: se os hospitais, o SNS, conseguir ir dando resposta aos casos de infeção, as coisas vão andando. Se porventura começarmos a ter entupimento dos hospitais e mortes para além daquilo que é expectável pois então as recomendações para os delegados regionais de saúde já não vão ser fechem a turma, mas sim, fechem a escola. E podemos chegar ao cenário em que o país vai fechando, não acredito que feche na sua globalidade, mas Gaia pode fechar quatro ou cinco escolas, pode ser só uma zona do país ou da cidade, mas isso vai acontecer e é preciso saber o que vamos fazer a partir daí. Acho que os pais já estão preparados para que isso possa acontecer porque também já lhes foi dito que se fechar, fechará pelo tempo da quarentena e depois volta a abrir. O nosso receio é que quando isto aconteça, de fechar e reabrir, se depois os pais ficarem com expetativa de que se surgir mais um caso volte a fechar, podemos ter esta intranquilidade, porque naturalmente que se fechar uma escola não é por um caso, é por vários. E passados 14 dias o momento epidemiológico do país já pode obedecer a outras regras, mas as emoções dos pais podem não acompanhar isso.

 

Além do que já me disse que estão a documentar, o que é que a FEDAPAGAIA está neste momento a preparar?

Na primeira fase do COVID o que tentamos fazer foi perceber o que é que isto significava do ponto de vista do ensino e do futuro próximo. Nessa altura, a Federação acompanhou as direções escolares e a Câmara no que diz respeito aos meios que eram necessários colocar ao dispor dos alunos. Ou seja, fizemos esse trabalho de acompanhamento das situações mais necessitadas porque quem tem possibilidades resolve rapidamente. E temos de olhar é para todos e essa foi a nossa primeira ação. Depois, durante as férias, o nosso trabalho foi perceber o arranque do ano letivo, e reunimos com toda a gente, diretores, com a Câmara, com os delegados regionais de saúde, com o diretor geral das direções escolares, portanto, tentamos perceber quais as diretivas e de que maneira é que o ano letivo ia começar. E difundimos isso para os nossos associados para puderem ir replicando o assunto. E agora, paralelamente a isto, estamos a documentar para perceber que tipo de opinião, acompanhada de um pedido, poderemos fazer chegar junto da tutela naqueles aspetos que consideramos puderem, sem alterações significativas na vida das pessoas, puderem ajudar a complementar este momento. E aí que nos vamos vocacionar muito que é efetivamente procurar que se possa fazer ajustes nos currículos, procurar que se possam criar condições efetivas de aprendizagem para que os alunos, que estão a viver esta geração COVID, não sejam colocados numa situação de desproteção perante os outros. Depois, mais localmente com as associações de pais o que temos feito é um trabalho de tentar adaptar as suas formas de trabalhar às novas realidades. No passado, as associações de pais sempre tiveram códigos e chaves das escolas e sempre utilizamos as escolas que o município autorizou sem reserva para o exercício da atividade associativa. Agora, em face do momento em que vivemos, temos estado a pedir a que as associações adaptem também a sua postura, porque se durante o dia os pais não entram na escola, nem nos JI, para pelo menos moralmente não ficarmos com a ideia de que se contaminou o espaço para as crianças, o que estamos a pedir junto das associações de pais, porque vem agora o momento das eleições delas, é que também se adaptem e se ajustem a estas regras do COVID e que procurem fazer as reuniões fora da escola, se for na escola que seja a uma sexta feira para fazer a higienização e deixar ficar durante o fim de semana sem utilização. Fazemos a nossa cota parte no que diz respeito a contribuir para esta gestão de esforços.

 

E como vê o movimento associativo dos pais em Gaia?

O movimento associativo dos pais em Gaia sempre foi forte, tem uma grande tradição mas não posso dizer que não seja cíclico, portanto, o movimento é sempre mais forte e mais vivo quando há reclamações, quando há reivindicações para se fazer. Foi assim quando foi a reivindicação para a escola a tempo inteiro, quando não havia resposta da escola e onde o movimento associativo foi fundamental nisso, uniu-se e trabalhou. Foi assim quando as associações de pais tiveram de pugnar por obras nas escolas, pela lotação das cantinas, havia aí muita reivindicação a fazer e o movimento estava forte nessa altura. E agora, no que diz respeito aos assistentes operacionais, das regras que se deve manter… portanto, é sempre mais difícil manter o movimento quando as coisas estão bem. O que é contrassenso mas é a realidade. E neste momento acho que o movimento está a dar provas de que está vivo, assim o demonstrou a última reunião, porque na reunião pública tivemos 40 associações presentes porque era o número que podíamos ter, e tivemos mais de 100 intervenções das associações que não podendo estar presentes foram colocar questões. De facto, tivemos uma grande adesão por perguntas que foram colocadas que não consegui ler todas, mas isso demonstrou que em momentos quentes as associações estão presentes. Queremos que mantenham a sua atividade, não lhes sejam criadas dificuldades para isso, porque, por exemplo, o foco ou principal atividade da associação de pais está condicionado neste momento, mas a dedicação e preocupação dos pais continua lá. Mas Gaia tem realmente uma tradição grande no movimento associativo de pais, que eu me orgulho de poder presidir, e espero que no futuro, quando vier outro presidente, o possa manter porque é positivo e reconhecido.

 

E como vê a educação em Gaia?

A Federação, por força da sua participação no movimento de associações a nível nacional, estamos englobados na CONFAP e vamos a reuniões pelo país todo, e podemos observar e conhecer realidades diferentes. E é evidente que aprendemos sempre com toda a gente, a todo o lado que vou há sempre algo que vejo que acho bem, mas em termos globais Gaia, a nível de educação, está muito bem. Mas também devo dizer, que não está só bem agora, tem vindo a ser tratada bem. Já no mandato de Luís Filipe Menezes a educação era tratada com algum carinho, a educação/obras porque nessa altura era o maior foco. Naturalmente que com a entrada do Eduardo Vítor Rodrigues isso não foi prejudicado, diria que foi beneficiado, desde logo porque ele, assumindo o pelouro da educação, é um interlocutor fantástico e é muito sensível a esta matéria. E depois porque, efetivamente, ele tem criado condições para que as coisas funcionem bem, esta questão dos funcionários dos JI, é uma iniciativa do município que a está a implementar, o Governo determinou que as Câmaras pusessem lá mais pessoal e a Câmara está a ir além disso, é algo que demonstra investimento na educação. Depois, o projeto que a Câmara criou, o GaiaAprende+, que veio dar uma resposta fantástica à rede de Gaia no que diz respeito ao acolhimento e apoio das crianças, e que se revelou como uma solução extraordinária. É caríssimo, mas é reconhecidíssima a importância do seu benefício. E no que diz respeito ao apoio que a Câmara tem dado não só às escolas sob a sua tutela, que são as básicas e ensino primário, mas também às outras, e ao apoio e conforto que tem dado aos diretores, tem-nos ajudado a que realmente algumas das coisas que outrora se reivindicavam, e se calhar vamos ter de voltar a reivindicar, mas penso que está no bom caminho e que é um caminho irreversível. Acho que qualquer outro executivo que venha de futuro o irá seguir, porque na verdade o futuro de uma cidade ou de um país, está na educação e nas escolas. Acho que estamos acima da média e não me envergonho em lado nenhum a que vou de dizer que sou de Gaia, pelo contrário, até ouço de colegas, com orgulho, que em Gaia estamos muito bem e que tomara que em muitos sítios fosse como em Gaia. São opções, se calhar eles estão melhores noutras coisas, se calhar a rede viária é melhor, e também alguém valorizará isso. Mas aqui em Gaia, tirando uma questão que é absolutamente premente e para a qual o presidente já foi sensibilizado que é a questão dos cobertos, que é uma matéria muito reclamada em muitas das nossas reuniões, mas este ano estão-se a revelar particularmente necessários porque pelo facto de os pais ficarem ao portão, pelas regras do COVID, e não puderem conduzir os filhos, principalmente os do pré-escolar porque é aqui que a questão se coloca, não os puderem conduzir à porta do edifício faz com que os funcionários tenham de andar para trás e para a frente, é um desconforto terrível para os funcionários. E para os próprios miúdos também é uma perda deste conforto porque alguns, os próprios pais, para eles não se molharem levavam-nos ao colo e agora têm de ir pelo seu próprio pé porque os funcionários não os podem pegar ao colo. E todo aquele processo de higienizar para entrar na escola, com o clima que temos vamos ter essa dificuldade. E já fizemos chegar junto do presidente essa preocupação, bem sabendo que ele não vai conseguir estalar os dedos e de repente todas as escolas terem coberto. Mas o movimento associativo vai fazer o seu melhor que é reivindicar para as escolas as melhores condições que possam ter.

 

Quais são as reivindicações neste momento?

Neste momento a prioridade são os cobertos para as entradas das escolas e, se possível, cobertos para os percursos entre a entrada das escolas e os JI. Particularmente os JI porque os outros, embora necessário, não é tão necessário. E são necessidades antigas mas que não tinham a mesma veemência e necessidade que o momento agora exige. De resto, penso que as escolas estão dotadas de tudo para o ensino.

 

Que mensagem gostaria de deixar para este ano letivo aos gaienses?

O que nós pedimos aos alunos é que possam respeitar tudo aquilo que os professores indicam, o que a escola determina e o que os pais dizem. Os alunos estão numa fase das suas vidas em que também podem ser parceiros nesta matéria, têm de jogar o mesmo jogo que os adultos e assumir a sua quota de responsabilidade. Acho que é fundamental, eles são novos, mas esta matéria de assumir um bocadinho as suas responsabilidades deve ficar agora mais que nunca nas suas mentes e nas suas ações. Depois, para os professores é pedir-lhes o máximo de paciência e de dedicação que nós reconhecidamente lhes vemos mas que num momento como o que estamos é de particular importância que não desistam, que não baixem os braços às dificuldades que o momento lhes está a exigir. E às associações e ao movimento associativo, para o qual a minha última palavra tem de ir, é pedir-lhes, acima de tudo, que sejamos os garantes da tranquilidade e não os incendiários de qualquer reação. Temos de ser capazes de poder fazer as triagens que se impõem, e fazer o acompanhamento das situações com calma e com tranquilidade, confiando sempre às autoridades de saúde a decisão, que será sempre a melhor decisão. Não podemos ser nós pais a reboque da nossa opinião impor ou exigir que seja tomada determinada posição quando os técnicos e os responsáveis da saúde, que nem sequer são os diretores das escolas, vão fazer o seu trabalho e temos de confiar neles.

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