Hoje, no lugar do Areinho, na freguesia de Oliveira do Douro, em Vila Nova de Gaia, restam apenas as ruinas de uma quinta setecentista na margem esquerda do rio Douro, a Quinta da Alegria. Se, atualmente, a vegetação herbácea e arbustiva a povoam e, ao mesmo tempo, tentam camuflar o edificado e a propriedade, impedindo, assim, aos curiosos imaginarem a sua verdadeira dimensão, bem como a importância socioeconómica que teve no passado; o painel de azulejo com a famosa designação “Vacaria da Quinta da Alegria” consegue despertar e (re)avivar a atenção de todos aqueles a quem a história não é uma ciência social indiferente.

Com uma área aproximada de 3,71 hectares, a Quinta da Alegria era constituída, nos séculos XIX e XX, por armazéns onde se desenvolviam atividades agrícolas, industriais e pecuárias, bem como um espigueiro num ponto mais elevado e aplanado para o albergar, silos e, ainda, uma casa senhorial imponente, fronteiriça à vacaria, de dois pisos e planta retangular, que assentava numa plataforma ladeada por um muro de suporte granítico. Mas é precisamente a localização e implantação deste edificado que a tornam fascinante, uma vez que é voltada para a praia fluvial do Areinho de Oliveira do Douro, ocupando uma frente de rio de cerca de 240 metros e, no século XVIII, o acesso principal era feito pelo rio. Mas qual é afinal a sua história? E como chegou a este estado de abandono?

Contou-nos Fernanda Pinheiro, bisneta dos primeiros proprietários da Quinta da Alegria, que o seu bisavô materno era transportador de cebola e Vinho do Porto da Régua para o Porto e depois exportava estes produtos. O seu trabalho e a inerente capacidade financeira que fora acumulando ao longo dos tempos, permitiram-lhe, nos finais do século XIX, adquirir a Quinta da Alegria. A Fernanda, sorrindo, refere que até “há quem diga” que o seu bisavô era tão rico que, em épocas de cheias do rio Douro, secava as notas no estendal da roupa. Após a aquisição da propriedade, o bisavô da Fernanda, fez da Quinta da Alegria um autêntico local de trabalho adaptado às necessidades do mercado e, embora o terreno fosse muito arenoso o que, por si só, não permitia que ali se produzisse “muita coisa”, o forte era a produção de leite, através da vacaria, milho e alguns produtos hortícolas, como a couve e a alface, por exemplo, os quais eram vendidos não só em Vila Nova de Gaia, mas também na cidade do Porto. O trabalho era tal que a quinta tinha trabalhadores efetivos e à jorna, embora Fernanda não tenha ideia do seu número exato, sabendo apenas que eram “muitos” e grande parte deles residentes na freguesia. No entanto, este passado glorioso que também primou por ações de beneficência pelos bisavós de Fernanda com os habitantes locais – quer em géneros, quer em numerário -, teve o seu fim às mãos do “Comandante Santos Júnior” que, ainda hoje, provoca repulsa nas gentes locais. O bisavô da Fernanda era analfabeto (só sabia assinar o seu nome) e, devido a essa condição, tinha um representante, ou “tratante” como referem os mais antigos, que o ajudava com a documentação inerente aos seus negócios, o tal “Comandante Santos Júnior”. Este último, já d’olho na Quinta da Alegria, persuadiu o bisavô da Fernanda a assinar um documento, onde este, sem o saber, doava voluntariamente todos os seus bens patrimoniais ao Comandante, como nos relatou Fernanda. Perderam tudo de um dia para o outro, ficando, como tristemente refere a bisneta, “na miséria”, o que fez com alguns dos seus familiares, no século XX, emigrassem para o Brasil e até há pouco tempo sentissem “vergonha” de cá voltar. Mas quem era este Comandante? E por que causou tamanha repulsa, também, aos habitantes locais? O mais insólito desta estória reside no facto de Santos Júnior ter ligações ao regime ditatorial de António de Oliveira Salazar, nomeadamente à PIDE, e, após a aquisição da quinta, consagrou-a num local de trabalhos forçados, isto é, para lá levava os seus prisioneiros, obrigando-os a trabalhar “noite e dia”, além de alguns terem sido “acorrentados, interrogados e torturados”, segundo as informações de alguns habitantes locais que preferem manter o anonimato. Após a queda do regime, no dia 25 de abril de 1974, o Comandante Santos Júnior, temendo possíveis represálias, emigrou para o Brasil e a Quinta da Alegria, essa, ficou ao abandono até hoje e à espera de um projeto de reabilitação que lhe confira a dignidade que outrora teve.

Temos de encarar estas estórias, ainda presentes na memória popular, com algum distanciamento, no entanto são sempre úteis para a compreensão da história local.

* Fábio Soares é natural da freguesia de Mafamude, em Vila Nova de Gaia, e residente na freguesia de Oliveira do Douro, também no mesmo concelho. É licenciado em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pós-graduado na mesma área pela Universidade do Minho. Participou em diversos projetos de investigação em Arqueologia e foi o responsável pela organização e inauguração da Sala Museu Silva Leal, no Instituto Profissional do Terço, no Porto. Hoje, além de trabalhar na área do ensino, onde leciona a disciplina de História, é Sócio-Gerente da empresa Fábio Soares – Serviços de Arqueologia que, entre outros serviços, se dedica à divulgação do património cultural.

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