“EU NÃO QUERO SABER DA INSTITUIÇÃO, EU QUERO SABER DOS IDOSOS QUE AQUI ESTÃO”

Com 92 anos e mais de duas décadas à frente da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos, José Brandão é o rosto de uma casa quase centenária que nasceu do esforço coletivo dos pescadores e que, hoje, acolhe dezenas de idosos. Em entrevista ao AUDIÊNCIA, o antigo mestre costeiro revisitou a história da instituição, falou sobre as dificuldades financeiras e sociais e reafirmou que a sua única prioridade passa por garantir dignidade, cuidado e respeito a quem dedicou a vida ao mar. 

 

  

Qual é a história da Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos? 

A história desta instituição, hoje, está dividida em duas, mas começou em 1929. Na altura, os mestres, principalmente, começaram a reunir-se com as companhas, para angariar fundos para comprar este terreno para fazer a dita Casa dos Pescadores. Então, as companhas, tripulantes e armadores juntaram-se todos e tiravam à quinzena para se juntar dinheiro para comprar o terreno, que estava vazio. Na ocasião, compraram 4 mil metros quadrados a 20 escurdos o metros e pagaram 80 contos por este terreno. Desde 1929 a 1938 arranjaram o dinheiro e construíram esta casa tal e qual como está agora, por fora. Inicialmente construíram duas salas grandes para o primeiro ciclo. Aliás, em 1939 eu entrei para esta casa e comecei a fazer a minha primeira classe. Mais tarde, além das salas de aulas, conseguiram arranjar um enfermeiro, o senhor Cardoso e, depois, médicos de renome. Depois, os pescadores que trabalhavam em Matosinhos e Leça da Palmeira associaram-se. Eu posso dizer-lhe que fiz a Escola de Pesca nesta instituição com 12 ou 13 anos e, por último, também tirei, aqui, em 1957, o curso de Mestre Costeiro. Em 1956 Salazar já tinha tomado conta de todas as Casas dos Pescadores de Norte a Sul do país. Infiltraram-se aqui, passaram isto tudo, que hoje ainda está, para o nome do Estado e os pescadores ficaram de fora, mas continuavam na mesma com os médicos e enfermeiros e formaram a Ação Social.. Posteriormente, aquando do 25 de Abril, os sindicatos assaltaram isto aqui.  Depois, isto  foi à ruína. Tiraram daqui a escola, onde e muitos filhos de pescadores andavam.  Quando fizeram o bairro dos pescadores, que foi inaugurado em 1948, um ano depois do naufrágio, construíram uma escola básica também no bairro dos pescadores e fecharam a escola na Casa dos Pescadores e colocaram mais enfermeiras, médicos e madres. Na altura, o sindicato queria tirar daqui os médicos, mas não conseguiu e foi eleito um mestre nosso para ficar à frente da instituição e ainda esteve aqui até 1994. Em 1992 a primeira Comissão da Casa dos Pescadores era composta por cinco elementos, onde eu me incluo, que se juntaram para constituir a primeira Direção da associação. Na época, o primeiro-ministro era Aníbal Cavaco Silva e enviamos-lhe uma carta a pedir-lhe se nos cedia novamente as instalações, porque queríamos fazer um centro de dia e de convívio, pois estava tudo a ir abaixo. Então, foi-nos cedida esta casa. Eu já estou aqui desde 1992 e, depois, fomos à Segurança Social com uma comissão da Câmara Municipal de Matosinhos para assinar um protocolo de cedência do espaço. O Lions Clube de Matosinhos tinha angariado 15 mil contos e depois já era Narciso Miranda o presidente da Câmara Matosinhos e deu-nos outros 15 mil contos e, na altura, o ministro do Emprego e da Segurança Social era José Silva Peneda, que era de São Mamede Infesta que nos deu mais 15 mil contos. Então, arranjamos 45 mil contos, com a ideia de aproveitar a sala e criar um centro de convívio. Mais tarde, concorremos a um concurso público e conseguimos mais 35 mil contos, ou seja, no total tínhamos 80 mil contos. Neste seguimento, o presidente do Lions de Matosinhos, que era arquiteto, fez o projeto para as obras, eliminamos os degraus, aumentamos as infraestruturas para construir o lar e o centro de dia. Basicamente fizemos tudo novo, só ficou a fachada e a capela. O centro de convívio já estava feito e só mais tarde apareceu o apoio domiciliário, que são as quatro valências que nos temos. O primeiro empreiteiro que esteve aqui, quando chegou aos 65 mil contos, o orçamento estava para 80 mil, abandonou a obra. Depois, com o apoio da Câmara, liderada por Narcisco Miranda, e da Segurança Social, que deram 60 e 40 mil contos, concluímos esta obra, pois fizemos o rés-do-chão e o primeiro andar no resto do terreno e reabilitamos a capela, que está muito bonita.  Mais tarde, também abrimos uma farmácia, que era mais barata. Inicialmente, o protocolo com a Segurança Social era de 15 anos, passou para 20, mas agora já estamos há 33 anos.  

 

 

Quando é que o lar foi inaugurado? 

O lar foi inaugurado em 2001, mas em 2000 já estávamos em funcionamento. Nós abrimos com cinco quartos, dez pessoas e meia dúzia de funcionárias. Em 2004, fizemos o tal rés-do-chão o apoio da Câmara e da Segurança Social. Na altura, estava combinado pagar 300 mil euros ao empreiteiro. A Câmara e a Segurança Social deram 150 mil e tinham ficado de dar os outros 150 mil quando a obra terminasse. O Narciso foi embora e nós ficamos, aqui, com uma dívida de 150 mil euros. Entretanto, veio o Guilherme Pinto e juntamente com ele veio a Luísa Salgueiro e a cave já estava feita. Nós temos, na cave, dois salões muito grandes, um era para ginástica, onde tínhamos bicicletas, tapetes e no outro um palco.  

  

 

Quais são as valências e quantos utentes frequentam a Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos? 

Nós temos o lar com 55 utentes, 12 são financiados pela Segurança Social, relativamente aos restantes recebemos o subsídio para 38 e cinco somos nós que temos de suportar, o centro de convívio com 40 utentes e temos o centro de dia com 36 utentes e prestamos apoio domiciliário a 30 pessoas, mas a Segurança Social só subsidia 15 e não faz sentido. No total, temos 56 funcionárias, incluindo oito enfermeiras. Também temos duas técnicas, uma para o lar e outra para o centro de convívio. Posso dizer-lhe que, relativamente ao lar, a maior parte dos nossos utentes são de Vila Nova de Gaia, Alfândega, Ribeira, e poucos são de Matosinhos.  

 

 

Quando assumiu a direção desta instituição? 

Eu assumi a direção em 2002, com a saída do mestre Luciano, para dar continuidade à Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos. Eu tenho 92 anos, tenho a quarta classe e já estou na presidência da direção há 23 anos e, para o ano acabo. Deixarei as funções de presidente da Direção, mas posso ficar como tesoureiro, ou vice-presidente ou vogal. Vamos ver o que acontece em 2026. Todos os meses, movimenta-se nesta casa 125 mil euros e não há nenhuma fatura ou recibo que não tenha a minha rubrica. Eu controlo tudo, porque é muito dinheiro e é preciso cuidado.  Eu estou aqui gratuitamente e coloco dinheiro do meu bolso, não me importo. Eu reformei-me em 57 anos. Em 2011, faleceu a minha esposa. Estou na minha casa e foi jantar a cada dia a casa de cada uma das minhas quatro filhas. Estou bem e não me falta nada, porque tenho uma memória muito viva e sou muito mole do coração. Eu não quero saber da instituição, eu quero saber dos idosos que aqui estão, que passaram muito, apenas continuei, porque não tenho ninguém à altura para tomar conta disto. Os membros da Direção vêm com gosto, gratuitamente, com amor a isto. Muitos utentes não têm ninguém e nós temos de assegurar que são bem tratados.  

  

 

Quantos sócios tem a Associação dos Pescadores Aposentados de Matosinhos? 

Atualmente, temos 1000 sócios.  

 

Quais são os seus maiores sonhos e objetivos para o futuro desta casa? 

Só quero manter assim como está. Claro que precisávamos de realizar algumas obras, em prol dos nossos utentes. Eu vejo sempre quais são as necessidades prioritárias, mesmo de quem nos procura e o que eu puder fazer, eu faço e é isso o que eu quero continuar a fazer. Eu não tenho interesse nenhum, tenho a honra de ter sido neto e filho de pescadores e de ter sido 40 anos pescador. 
 

  

Que mensagem gostaria de transmitir aos nossos leitores? 

Esta casa prima por tratar bem todos os idosos. Nunca tive tantos utentes com demência e falta de mobilidade e é preciso ter vigilância e muita cautela. Não estou aqui pela instituição, mas sim pelos meus amigos, filhos, pais, mães e avós da minha geração, da minha classe, que sofreram tanto e foram abandonados. Eu não estou aqui com orgulho de ter uma casa aberta, mas com orgulho de tratar de todas as pessoas que necessitam desta instituição.