GAIA AFIRMA-SE NA CONSERVAÇÃO AMBIENTAL

A criação da área de Paisagem Protegida Local do Vale do rio Febros decidida anteontem pela Câmara de Gaia pretende salvaguardar um dos mais importantes corredores ecológicos da Área Metropolitana do Porto. A medida surge numa altura em que a riqueza ambiental e a biodiversidade daquele ecossistema enfrentam crescente pressão urbanística e imobiliária.

Com esta decisão, o município procura proteger os valores naturais do vale, preservar a fauna e a flora existentes e garantir um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável daquela zona do concelho.

O ‘Audiência’ ouviu a propósito desta medida o diretor municipal do Ambiente, Nuno Oliveira doutorado em Biologia, criador do Parque Biológico e que ao retomar o cargo de onde foi exonerado pela gestão do anterior executivo do PS, apresentou este projeto que mereceu o bom acolhimento da liderança de Luís Filipe Menezes à frente do município.

“A criação de zona de Paisagem Protegida tem, desde logo, importância em termos de ordenamento do território. O ‘titulo’ vai obrigar a olhar mais para a proteção territorial e sobretudo valorizar o que existe em termos de fauna e flora, de todo o ecossistema”, salientou o responsável autárquico.

Nuno Oliveira salientou em termos de curiosidade que Gaia é, “neste momento o único concelho do país com três zonas de Paisagem Protegida; a Reserva Natural Local do Estuário do Douro, a Serra de Canelas e, agora, o Vale do rio Febros”.

A medida é segundo este especialista ambiental uma medida importante em termos de conservação da riqueza ambiental, de preservação da fauna e flora. “O rio Febros é um corredor ecológico, com 15 km e é o único rio gaiense. É também uma zona de migração de aves e de insetos”.

Nuno Oliveira acrescentou que a zona de Paisagem Protegida não só vai preservar o rio, como aplicar medidas de luta contra inundações e, em última análise representa em termos locais uma ação contra as alterações climáticas”.

Com esta medida a gestão municipal vai ter instrumentos legais para alcançar o equilíbrio entre a conservação ambiental, o uso público e a valorização territorial. Esta medida, “não implica fechar o Vale do Febros às pessoas” salientou Nuno Oliveira. “Pelo contrário permite proteger a área enquanto espaço vivo, habitado e usufruído.

Em Portugal, uma Paisagem Protegida Local é uma área classificada por um município devido ao seu valor ecológico, paisagístico, património cultural, identidade rural ou natural e interesse recreativo e educativo.

A gestão costuma ser municipal ou intermunicipal, mas enquadrada pela legislação nacional da conservação da natureza. Uma das vantagens, talvez, das mais importantes desta medida, segundo diversos especialistas ambientais é “travar a pressão e fragmentação urbanística. O Vale do Febros dada a sua peculiar natureza, de zona natural nas proximidades de um espaço urbano sofre uma enorme pressão da expansão imobiliária, da abertura de vias rodoviárias, com a consequente impermeabilização dos solos e zonas de ocupação dispersa e eventualmente desregulamentada. Sem este corredor contínuo, o vale perde grande parte do seu valor biológico. Com esta classificação há mecanismos efetivos para conservar habitats, recuperar zonas degradadas, controlar espécies invasoras.

Pela riqueza da sua zona húmida das suas margens o Vale do Febros sofre da presença de espécies invasoras que ameaçam a flora autóctone e alteram os habitats naturais e, em última análise consoante explicou Nuno Oliveira aumentam riscos de incêndio.

No Vale do Febros ainda sobrevivem espécies nativas valiosas, como amieiros, salgueiros, carvalhos, fetos e fauna ribeirinha.

Com a criação de Paisagem Protegida o executivo municipal de Luís Filipe Menezes irá ter capacidade de valorizar o ecoturismo sustentável, com a organização de trilhos, pontos de observação de aves, desenvolver o turismo pedagógico com ligação a universidades, centros de investigação e visitas de estudo escolares, abrir pistas ecologicamente sustentáveis de cicloturismo e promover a pintura e fotografia de paisagem de natureza.

Ao longo das margens do rio é possível desenvolver atividades integradas de observação da natureza, travessias florestais, contato com moinhos antigos e paisagens rurais tradicionais.

 

Rio dos Castores

Há fortes indícios históricos e linguísticos de que o nome do rio Febros esteja ligado aos castores, embora não exista uma prova absolutamente definitiva.

O topónimo “Febros” é frequentemente associado a uma raiz antiga relacionada com “fibra” ou “fibro”, palavras usadas no latim medieval e em línguas pré-romanas da Península Ibérica para designar o castor. Em várias regiões europeias, rios associados à presença destes animais acabaram por adquirir nomes derivados dessa raiz. O próprio latim clássico utilizava fiber para “castor”.

Assim, muitos investigadores locais e estudiosos da toponímia consideram plausível que “Febros” signifique algo como “rio dos castores” ou “rio onde havia castores”.

 

Flora característica

A vegetação do vale mistura espécies autóctones atlânticas com vegetação ribeirinha típica do Norte de Portugal.

Entre as espécies mais importantes encontram-se; carvalhos-alvarinhos, salgueiros e amieiros junto às linhas de água, freixos, loureiro medronheiros, fetos e musgos associados à elevada humidade, pinhais e áreas de mato atlântico;

Um dos aspetos mais relevantes é a presença histórica do narciso selvagem ibérico Narcissus cyclamineus (“martelinhos”), considerado raro e vulnerável em Portugal.

Fauna do Vale do Febros

O vale alberga uma biodiversidade surpreendente para uma área tão próxima do meio urbano. Foram inventariadas mais de mil espécies de plantas e animais.

O corredor ribeirinho é especialmente importante para aves; guarda-rios, garças, milhafres, águias-calçadas, corujas, pica-paus, aves migratórias.

Mamíferos; raposas, ouriços-cacheiros, morcegos, coelhos-bravos, pequenos mustelídeos, lontras em alguns troços mais preservados.

Peixes e anfíbios

O rio mantém espécies dulçaquícolas relevantes; enguia-europeia, ruivaco, góbios, rãs, salamandras, tritões.