No passado dia 7, os brasileiros foram às urnas para escolher um novo Presidente, membros do Parlamento, Câmara dos Deputados e Senado, além de governadores e legisladores regionais em todo o país.

No entanto, a decisão sobre o sucessor de Michel Temer como 38º Presidente da República Federativa do Brasil ficou adiada para 28 de outubro, na medida em que e apesar de existir um candidato com maioria de votos conseguidos, 46,7%, ele não atingiu a percentagem necessária por lei para ser eleito, obrigando a uma segunda volta a ser disputada com o segundo candidato melhor situado.

Como é do conhecimento generalizado, o Brasil atravessa uma situação preocupante, não somente política mas essencialmente social, em que a corrupção surge como um factor predominante a minar a própria credibilidade do País a nível internacional.

Desde sempre, o nosso País irmão se viu a braços com ferozes ditaduras militares e civis provocando inúmeras mortes e prisões arbitrárias com tortura, causadoras de profundas clivagens na sociedade brasileira composta por duas camadas de população: os muito ricos e os muito pobres.

Com a ascensão ao poder de Lula da Silva e apesar de erros cometidos na condução das políticas social e económica, existiu vontade política para nivelar economicamente a sociedade brasileira, aumentando salários e direitos sociais, ao mesmo tempo que foi desenvolvida uma acção mais eficaz contra a criminalidade, especialmente a organizada que de momento atinge proporções alarmantes.

A direita brasileira, sempre habituada à protecção e favorecimento, não perdoou esta reviravolta e começou desde logo a minar a execução das medidas postas em prática, contando nesta atitude com os seus elementos mais radicais e reconhecimento exterior por parte dos países que na América Latina e fora dela nutrem uma especial aptência pelas ditaduras, ontem militares e hoje mais de carácter civil.

A forma como Dilma Rousseff e Lula da Silva foram tratados judicialmente para a sua eliminação da vida política, atinge as raias da loucura e da corrupção, conforme fomos acompanhando o processo por alguma comunicação social brasileira, mas muito mais pelos «media» internacionais.

Aqui chegados, as actuais eleições presidenciais brasileiras surgem num momento crítico do País, com a sociedade em bipolarização avançada, mas com um avanço notório das forças políticas de extrema direita de cariz fascista.
Por outro lado, não pode ser esquecida a influência crescente da Igreja Universal do Reino de Deus a quinta instituição de maior prestígio no Brasil, à frente do Poder Judiciário e da Presidência da República, tornando-se no maior e mais representativo grupo neopentecostal brasileiro com ramificações na política e mesmo candidatos que também agora se apresentam às urnas, reforçando as listas da direita mais radical.

Por outro lado a campanha eleitoral de 2018 fala bastante sobre capitalismo, pois são conhecidos candidatos que abraçaram a ideia do livre mercado e também reclamam que o Brasil precisa de um choque de capitalismo, termo que apareceu no discurso do PSDB-Partido da Social Democracia do Brasil, acompanhando assim a ideia do deputado federal e candidato a Presidente Jair Bolsonaro, assessorado por um economista de linha liberal, atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles e pelo banqueiro João Amoêdo, ou seja, estamos perante versão brasileira da portuguesa trilogia Deus, Pátria e Família, tão acarinhada pelo fascismo salazarento.

Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita pelo partido PSL-Partido Social Liberal, capitão reformado do Exército, aproveita alguma onda anti PT da população ressentida com os casos de corrupção nos Governos de Lula da Silva e Dilma Rouseff entre os anos de 2002 e 2016, mas também aproveita o seu alegado esfaqueamento durante uma ação de campanha na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, quando liderava as sondagens de intenção de voto e procurava uma vitória logo na primeira volta eleitoral. No seu perfil ressaltam essencialmente a sua defesa da tortura e da ditadura militar e as suas posições misóginas, machistas, homofóbicas e racistas, enfim um currículo que não engana.

Fernando Haddad, ex-presidente da Câmara de São Paulo e nomeado por Lula, subiu rapidamente nas sondagens ao ser anunciado candidato pelo PT, mas permaneceu estagnado em segundo lugar desde a última semana, com 25% dos votos, conseguindo contudo um lugar na segunda volta em representação da esquerda e protagoniza uma esperança para evitar que o Brasil entre numa perigosa deriva fascista que se encontra no horizonte a exemplo do que se passa pela Europa, do Atlântico aos Urais.

Fernando Haddad não terá tarefa fácil, mas seguramente procurará persuadir os indecisos, pois um em cada cinco brasileiros não votou na primeira volta das eleições, apesar do voto ser obrigatório no País, ou seja, na totalidade são 29,9 milhões de brasileiros que não comparecerem às urnas para eleger um novo Presidente, o que resultou numa taxa de abstenção de 20,3%, a mais elevada desde as eleições de 2002.

O resultado das eleições presidenciais brasileiras realizadas no passado dia 7 foi destaque nos principais órgãos de comunicação do mundo, caso do jornal alemão Süddeutsche, de Munique, onde se leu que a ascensão de Jair Bolsonaro, que irá disputar o segundo turno contra Fernando Haddad, é um «sinal de alerta para o mundo inteiro».
O jornal argentino Página/12, ao pronunciar-se focou principalmente a personalidade do candidato referindo as suas preferências pelas «frases homofóbicas, racistas, misóginas e sua defesa exaltada da tortura, do autoritarismo desenfreado e da violência como único caminho para resolver a criminalidade».

Também o espanhol El País descreve Bolsonaro como «um político autoritário, racista, machista, homofóbico, um adorador da ditadura e defensor dos valores mais retrógrados» e que o Brasil «encara agora três semanas decisivas» de polarização.

Cá pelo nosso rincão natal, o jornal Público diz que se anuncia o colapso do sistema partidário brasileiro. O periódico também destaca a grande quantidade de deputados federais da lista de Bolsonaro que foram eleitos e menciona os episódios «de eleitores que apertaram botões das urnas eletrónicas com revólveres», numa alusão à liberalização do porte de armas de fogo prometido por Jair Bolsonaro e violando a lei que não permite sequer levar telefone celular para a cabine de voto.

Já para o britânico The Guardian, Haddad «tem uma montanha quase tão alta quanto o Pico da Neblina para subir, se quiser afundar a impressionante ascensão do populista de direita». Analistas ouvidos pelo jornal dizem que é «essencial» que se forme uma «frente antifascista» caso se queira parar Bolsonaro.

Segundo o francês Le Figaro, a ascensão do deputado do PSL «deve-se muito à sua aproximação com os evangélicos, muito influentes no Brasil e no Parlamento». «Defensor ardente da ditadura militar, ele acredita que o erro da ditadura foi torturar em vez de matar».

O New York Times considera que uma vitória de Bolsonaro seria uma «mudança conservadora sísmica» no Brasil, e atribui seu crescimento às «divisões políticas que fracturaram o país nos últimos anos».

A seguna volta será, pois, um confronto entre democracia e fascismo e a candidatura de Fernando Haddad e Manuel d’Àvila fica com a enorme responsabilidade de conseguir agregar as forças progressistas e democráticas do Brasil para evitar a eleição de Jair Bolsonaro o que constituiria um grave retrocesso social e económico.

A possibilidade de barrar o caminho ao fascismo é real, apesar da brutal campanha de manipulação da opinião pública nas redes sociais e da instalação do medo com perseguições, espancamentos e até assassinatos.

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