Respirou-se cultura. A reabertura da Casa Barbot, no passado dia 24, foi um sopro simbólico que marca a génese de um novo recomeço cultural que vai influenciar Gaia, Porto e o país.
Encerrado durante nove anos, um dos mais emblemáticos edifícios patrimoniais de Gaia renasceu agora como novo centro cultural da cidade. Abriu as portas com a exposição “Espelho, Reflexão”, de Manuel Casimiro, um dos mais inquietos, sofisticados e internacionalizados nomes da arte portuguesa contemporânea.
Mais do que inaugurar uma exposição, Gaia inaugurou uma visão. A escolha de Manuel Casimiro para marcar esta reabertura não foi casual e correspondeu, para já, a um desafio ganho pelo executivo liderado por Luís Filipe Menezes. O artista, que ao longo de décadas construiu uma obra entre a pintura, a escultura, a fotografia, o cinema e a reflexão filosófica, surge aqui como símbolo de uma cultura sem fronteiras, livre, crítica e profundamente contemporânea.
Em “Espelho, Reflexão”, Manuel Casimiro propõe ao visitante uma experiência de contemplação e descoberta, convocando memória, património e identidade para um diálogo entre a cidade, o espaço e o olhar.
A exposição, que está patente até 20 de setembro, revela também um Manuel Casimiro surpreendentemente renovado. As novas técnicas mistas nascidas no iPad, transportadas para a tela e reinventadas manualmente pelo artista, mostram uma frescura criativa rara num percurso com mais de meio século. Ao mesmo tempo, séries como “Animais Ferozes” ou a poderosa “No fio da navalha – Espiral” reafirmam a energia provocadora de um autor que não aceita acomodar-se.
Mas esta inauguração representa igualmente um sinal político e cultural claro do novo mandato de Luís Filipe Menezes. O regresso de Menezes à liderança do município está a imprimir um novo dinamismo cultural ao concelho, apostando na recuperação do património e na criação de equipamentos capazes de afirmar Gaia como território de criação artística e pensamento contemporâneo. A Casa Barbot renasce assim não apenas como galeria de exposições, mas como futura casa aberta às artes performativas, à música, ao teatro, à dança, à poesia e às novas linguagens culturais.
Mais do que um equipamento recuperado, a Casa Barbot pretende afirmar-se como um novo símbolo cultural de Gaia e do Norte do país: um espaço vivo, aberto à criação, ao encontro entre artistas e público e à construção de uma identidade cultural contemporânea.
Num tempo em que as cidades competem também pela inteligência cultural que conseguem gerar, Gaia parece querer afirmar-se não pela repetição, mas pela ambição. E começou da melhor maneira, com arte viva, pensamento livre e um artista que continua a desafiar o tempo.


