Nos dias que correm, estando as pessoas preocupadas com aqueles que hão-de vir, quando cada qual vai contando as migalhas de pão que come, para além de ir controlando todos os desperdícios. Os olhos estão postos nas famílias, vigiando todos os movimentos de cada membro, e a seguir elas, estão os amigos, os vizinhos, e todos aqueles que em tempo normal se cruzam connosco. No momento em que ando a rabiscar esta crónica a situação em Portugal está péssima, e sei que em São Miguel está muita gente de quarentena. Aqui, em Massachusetts, não está melhor. Só trabalha quem realmente tem de trabalhar, arriscando não só a sua saúde mas também a sua vida, bem como a saúde e a vida dos seus familiares. Ninguém está com cabeça para fazer donativos a torto e a direito, a não ser prestar auxílios, conforme pode, na comunidade onde reside. A igreja das Ilhas pode esperar. Nossa Senhora não está na rua. está na casa do Filho. Aliás, a casa não é do Filho, mas sim do Espírito Santo. Mas como este  não ocupa espaço, cedeu ao Filho o melhor lugar da casa; e Jesus adora a companhia da Mãe. Afinal, se a igreja da Misericórdia, ou dos Passos, ou do Espírito Santo tiver de servir de sede de paróquia por uns tempos não será a primeira vez na história, nem há-de ser a última. Por favor, esperem com os pedidos de socorro e ajuda. Tenham calma. Isto até fica feio, estar a fazer peditórios, como se fosse uma obrigação, precisamente numa situação como esta que atravessamos. Para além da igreja, agora também a praça do emigrante. Outra coisa que pode esperar. As pedras à venda já foram anunciadas mil e uma vezes. Quem comprou comprou e quem não comprou comprasse. Talvez haja quem não terá pedra na sua sepultura para poder ter uma na praça.

Voltando à igreja: Sim, é a nossa Matriz! Temos a certeza que depois desta tempestade tudo retomará ao normal. Quando este tempo vier os eventos cancelados hão-de ser de novo agendados, mais malassadas se hão-de vender, mais ofertas e esmolas se hão-de conseguir. É preciso não esquecer que, nós, emigrantes, vivemos nos lugares de acolhimento, onde também temos as nossas igrejas, as nossas escolas, os nossos trabalhos, as nossas consumissões, enfim, as nossas vidas. E já vimos muitas igrejas católicas fechar as portas, sem ter fundos capazes de suportar suas despezas. Podemos usar como exemplo a majestosa igreja de Santa Ana, de Fall River, que está encerrada há cerca de um ano e tal, porque necessita de obras e não há dinheiro. Se formos a olhar para arte, espaço, arquitectura, etc, e tal, nem vinte “matrizes” como a nossa equiparia tamanho valor. É claro que não trocamos a nossa Matriz por nada deste mundo. Porque é nossa. Minha e tua, nossa e vossa. Mas segundo o pensar de muita gente, em tempo normal, não é mais nossa porque nos separámos dela quando saímos da ilha. A igreja só é nossa em horas de peditórios, para os quais não nos cansamos de contribuir. Tenham dó!…

Toda a gente sabe que tudo foi adiado. Portanto, meus amigos, mantenham a calma, porque se todos nós escaparmos desta será um milagre. Daí iremos em frente. No momento actual em São Miguel, nos Açores, em Portugal Continental, e em todo o mundo, como bem sabeis, aqui, sem excepção, há gente a passar necessidades. Até fome! Por favor, vamos deixar estes peditórios para depois. Como ninguém está a praticar o culto religioso nas igrejas podemos afirmar sem problema nenhum que aqui, na Nova Inglaterra, apenas uns 15% dos fiéis está contribuindo monetariamente com a sua paróquia. O pensamento geral é: “Não há missa, não há colecta”. Podemos imaginar o tamanho dos buracos em que estas paróquias se vão meter, ou já se estão metendo. Quem vai pagar por isso? Quem as vai desenterrar?

Agora, hoje, amanhã, esta semana e na próxima, para ficarmos bem vistos aos olhos de Deus, há que tratar do próximo. Respeitem-se as leis e as regras mas não deixemos de olhar pelo vizinho, pelo amigo, pelo inimigo e por todos aqueles que necessitam de algo. Às vezes só precisam de uma palavra ou de um pequeno gesto. Sabiam que debaixo de uma máscara respiratória um simples sorriso pode ser manifestado? Mesmo ouvindo ou lendo verdades que incomodam, é necessário manter o sorriso. A expressão dos olhos e o movimento dos gestos tornarão as máscaras sorridentes. Haja saúde!

 

Ao pobre se dá esmola,

Mas a Deus se dá oferta.

Quem ao próximo consola

No Céu terá porta aberta.

 

Passei na Rua das Pedras,

Escorreguei na calçada.

Disse ao piso: – Tu não medras,

Mas fazes gente esfolada!…

 

Fall River, Massachusetts, 30 de Abril de 2020

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