Escrevo no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, e nesta crónica falo de algumas que merecem ser lembradas.
Fantasporto 2026
Já conhecemos os vencedores da edição 46º de Fantasporto, que premiu o filme argentino “The Dollmaker”, realização de José Maria Cicala, também com a distinção para o melhor ator, Rodrigo Noya. Considerado “um exemplo do melhor horror argentino”, sobre o desaparecimento de várias mulheres numa pequena cidade e que lança a suspeita sobre um empregado de um clube de vídeo”. O prémio para a melhor atriz foi para Maribel Verdú, do filme espanhol “Bajo tus pies”. O australiano “The skeleton girls”, prémio especial do júri, melhor realização para o mexicano Emílio Portes. Gustavo Hernández Ibañez foi premiado com o melhor argumento, no filme “El Susurro”, produção conjunta Uruguai/Argentina, A produção nacional, “Cativos”, de Luís Alves, venceu o Grande Prémio de cinema português. O “thriller de horror psicológico, protagonizado por Ana Varela e Filipe Amorim, impôs-se pela sua narrativa claustrofóbica e tensão constante, confirmando o talento de uma nova geração de cineastas portugueses”, sustentou o festival em nota de imprensa, a propósito da primeira longa-metragem de Luís Alves. (informação oficial do Festival).
Tive a oportunidade de assistir à projeção de Dollmaker, excelente na interpretação e o tema que culmina, nem mais nem menos, com a elevação do serial-killers à presidência da Argentina. Ironia que nos lembra uma das mais cruentas ditaduras de américa do Sul, no mesmo caminho, o realizador chileno Pablo Larrain, imaginou a Pinochet como o Conde Drácula, o ditador, é distorcido no filme como um general com 200 anos que consome corações triturados.
Acrescento que os vencedores desta edição, são como sempre, a organização e com destaque a Beatriz Pacheco Pereira, Mário Dorminski e recentemente João Dorminski na área do grafismo e do audiovisual, eles são os heróis desta aventura que dentro pouco alcançará os 50 anos!
Muitas vezes me questiono; que hipóteses teríamos de conhecer outras cinematografias se não existira esta amostra internacional (?). Destaco a cinematografia filipina nesta edição com dois filmes; SISA, filme de carácter épico feminino que retrata o país, depois da colonização espanhola, nas mãos americanas. Também o filme filipino LOPSIDE/TIGKIWI, com um argumento marcadamente feminino, num registo mais melodramático, que o aproxima a uma espécie de realismo mágico asiático.
Teatro – Uma visita guiada à cabeça de Alexandre O’Neill no Teatro Carlos Alberto, o espetáculo “Um Poeta em Forma de Assim”, é uma viagem pelo universo do poeta surrealista que brincava com as palavras. Assisti a uma representação para as escolas, bela iniciativa para dar a conhecer os poetas portugueses. Num cenário todo ele de cor malva, uma actriz Malu Vilas Boas, brinca, como o autor em referência brincou com as palavras. Bela interpretação no meio dum cenário, figurinos e adereços construídos todos eles em espuma de borracha. Emotivo momento na morte do poeta, um coração quebrado ainda palpita, mas mãos da actriz enquanto é lembrado o poema Um Adeus Português;
“Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor…”
…
“Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.”
RTP-PLAY– Aconselho os leitores visitar a RTP-play que, em permanência, nos oferece programas de excelente qualidade, destaco;
A série; OLYMPE, dos cineastas franceses Julie Gayet e Mathieu Busson que narra a vida e as lutas de Olympe de Gouges (1748-1793), dramaturga e ativista, considerada uma das pioneiras do feminismo, figura central da Revolução Francesa.
O filme de Olivier Dahan, sobre Simone Veil. A exibição aconteceu um ano antes de se comemorar o centenário desta grande figura que nasceu em 1927 e faleceu em 2017.
Sobrevivente do Holocausto, Simone Veil , foi, entre muitas outras coisas, Ministra de Saúde e Justiça francesa, uma verdadeira lutadora da causa europeia!
E ainda uma belíssima série sobre a vida da escritora George Sand uma coprodução franco-belga inspirada na vida da escritora, titulada: “A Rebelde – As Aventuras da Jovem George Sand” (2025).
São 4 episódios, simultaneamente históricos e biográficos, passados no século XIX.
“Um retrato dos primeiros anos da famosa romancista francesa George Sand, pseudônimo de Aurore Dupin. Em 1830, Aurore decide fugir do seu marido abusivo e libertar-se da sua educação burguesa. Assim, viaja de Nohant para Paris, em plena era romântica. Neste início do século XIX, a vida parisiense era agitada. Face a isto, Aurore leva uma vida libertina com vários amantes, tanto homens como mulheres. Entre eles, irão destacar-se Alfred de Musset e a atriz Marie Dorval. Entretanto, publica o seu primeiro romance com o seu pseudónimo George Sand: “Indiana” (1832). (informação RTP). De assinalar a excelente representação, ambientação histórica e a notável interpretação da actriz protagonista, Nine d´Urso, que graças a sua beleza natural nos brinda um retrato perfeccionista e andrógino da personagem.
Neste dia, 8 de Março, tradicionalmente envio às minhas amigas, colegas e ex-alunas uma mensagem, nesta oportunidade, escolhi oportunisticamente, um fragmento do poema À Aurore, de George Sand, talvez pelo facto de ela ter sido Aurore, antes de ser George Sand! Peço desculpa, cito em francês:
À Aurore (*)
…
“Regarde le ciel, il te voit,
Embrasse la terre, elle t’aime.
La vérité c’est ce qu’on croit
En la nature c’est toi-même.”
…
Escritores portugueses: morre António Lobo Antunes, um autor desconfortável, mas necessário nos nossos tempos. Gonçalo M. Tavares vence prémio Formentor das Letras 2026. É o primeiro português a receber o prémio da fundação espanhola.


