A massificação excessiva do turismo levou à descaracterização do centro histórico de Gaia e à consequente perda do que tem de mais identitário (a sua história e património!), levando muitos dos seus visitantes a considerar que está tudo muito estandardizado, muito globalizado e artificial. O grande desafio que se coloca atualmente é como salvaguardar o seu património, tanto o edificado como o tecido social e as atividades tradicionais, mas ao mesmo tempo dar às pessoas que lá residem as condições de conforto da vida moderna. A resposta poderá estar na criação de mecanismos de apoio que ajudem a salvaguardar as pessoas que há muito estão a ser afastadas do centro histórico, ao mesmo tempo que poderão introduzir rigor nas intervenções no edificado. A ideia é que o edificado existente mantenha a identidade e as novas construções reflitam a contemporaneidade sem agredir a envolvente. As experiências turísticas, estão muito ligadas aos residentes, à experiência cultural e aprendizagem geracional, pelo que tem de haver a preocupação de não perder esse ativo!
Impõe-se que haja uma maior e mais séria preocupação da Câmara Municipal de Gaia com a história do concelho, na sua divulgação e preservação, através de uma mudança de atitude face à defesa do património material e imaterial com que se constrói o nosso passado. E isso passa por evidenciar o património imaterial intrínseco, o verdadeiro valor identitário dos lugares, e por destacar a materialidade desaparecida ou escondida num território repleto de narrativas e lendas longínquas no tempo, complementando o imaginário mundialmente conhecido do vinho do Porto que escorre pelo território, nos seus cantos e recantos marcados pela história com que se alicerça a identidade do local, sem ter apenas como objetivo a promoção e aumento do turismo, mas também e sobretudo o desenvolvimento de uma política que privilegie a defesa dos interesses dos seus habitantes, preservando e melhorando a sua qualidade de vida, e prevenindo possíveis impactos negativos que possam ser gerados.
É indispensável, por isso, que se invista fundamentalmente na reabilitação das velhas casas, mantendo a população que ainda por ali vive e promovendo o regresso prometido dos muitos habitantes que foram realojados em bairros sociais noutras zonas em que se sentem desenraizados, proporcionando a todos eles custos de habitação acessíveis. Isto porque a nossa memória cultural não é apenas constituída por monumentos, outros edifícios históricos ou paisagens singulares. As pessoas, as comunidades, são bens patrimoniais que acrescentam real valor aos lugares! E é preciso consolidar o que existe, e melhorar e requalificar o que merece cuidados específicos de conservação e de enquadramento com o meio envolvente.
Temos de compreender o espírito dos lugares e transformar essa compreensão num modo de enriquecimento cultural a partir do diálogo produtivo entre o que herdamos e o que criamos. É preciso consolidar, melhorar, requalificar, o que merece cuidados específicos de conservação e de enquadramento com o meio envolvente. Não é destruindo o passado que se constrói um futuro com memória! Como primeiro sinal de uma grande mudança de atitude da Câmara Municipal face a esta questão, espera-se que haja uma rápida resposta sobre o futuro do Convento da Piedade, também conhecido como Igreja de Nossa Senhora da Piedade ou Capela dos Mareantes, um monumento histórico significativo construído no século XVIII, originalmente como Capela, que há muito aguarda a execução de um processo de recuperação e requalificação, visando a sua transformação num Centro Interpretativo de Arte Sacra onde se exponha o extenso e rico espólio da Paróquia de Santa Marinha, enquadrada numa política municipal de diversificação e valorização da oferta cultural.
Esta requalificação interromperá, assim, a degradação do imóvel, em resultado de estar devoluto há muito tempo e apresentar patologias de origem estrutural, assim como destacamentos nos painéis azulejares que poderão colocar em perigo a sua integridade, ao mesmo que fará nascer um novo equipamento cultural na cidade, sem que se perca o seu elevado interesse religioso, promovendo uma interação com outros equipamentos de interesse histórico e religioso existentes no local, como, por exemplo, o Convento de Corpus Christi – um antigo convento dominicano que remonta ao século XIV, com alterações e acréscimos no século XVIII e… no século XX (1940): a sua ala poente, de que o presidente do município, Luís Filipe Menezes, viria a destruir parte da sua “memória”, num dos primeiros mandatos, ao instalar por lá os serviços técnicos e administrativos da GAIURB.
Mas que importância tem a “memória”, não é, senhor presidente? O que é preciso é deixar obra, muita obra, nem que para isso se tenha que escavacar o nosso passado, mandá-lo às urtigas! Que importa a autoestima de um povo, o enriquecimento da sua capacidade critica, o aumento da sua sensibilidade criativa e a concretização da sua realização plena, tanto a nível social como cultural?… Para o senhor presidente de Gaia nada disto parece ter qualquer valor… Ou será que a obra que vale a pena é “apenas” aquela que dá lucro aos milhões ao grande capital e enche o “olho” aos defensores do betão e aos que vivem dele sem quaisquer preocupações históricas, ambientais, paisagísticas ou arqueológicas?! São boa parte desses senhores que passaram a entrar no Convento por uma portinha de serviço instalada rua Serpa Pinto. Vá lá, vá lá, que não têm o desplante de entrar pela porta principal!


