Desde 1922 que a Caixa de Crédito Agrícola faz parte da vida dos micaelenses. Inicialmente denominada por Caixa de Crédito Agrícola dos Sócios do Sindicato Agrícola dos Cultivadores de Ananás da Ilha de São Miguel, atualmente denomina-se Caixa de Crédito Agrícola Mútuo dos Açores, CRL, resultado da fusão das diversas Caixas dos Açores. O AUDIÊNCIA Ribeira Grande entrevistou António Gomes de Sousa, presidente do Conselho de Administração, para saber mais sobre a história e o futuro desta instituição bancária.

 

 

 

O Crédito Agrícola tem demonstrado a sua preocupação em ser parte da solução no combate ao novo coronavírus, prova disso foi o equipamento oferecido à Região para rastreio da COVID-19. Na altura, disse que este não era apenas um desafio das entidades públicas, mas de toda a sociedade. Ainda acredita nisto? De que forma todos podem colaborar?

Diz-nos a sociologia e diz-nos toda a história da atividade humana que as sociedades só evoluem com sustentabilidade quando todos estão envolvidos num projeto. Quando falo em todos, falo dos governos, do tecido empresarial, das estruturas de saúde, dos formadores, dos trabalhadores, das ONG, das Instituições de solidariedade social, dos artistas, etc., numa corrente de interação onde cada um, de forma clara, sabe qual é o papel que desempenha na sociedade, sem que se deixe ninguém para trás.

Foi esta perspetiva que nos moveu. Foi esta obrigação que se impôs à Caixa Agrícola dos Açores, enquanto agente económico transversal a toda a sociedade açoriana, e que levou à tomada de decisão de oferecer à Região dos Açores um equipamento de última geração tecnológica e que se constituísse como um auxiliar marcante no combate ao COVID19.

Pretendia-se que o equipamento, em adição com todos os equipamentos da rede regional de saúde, beneficiasse toda a população da Região. Agora, com o esforço mundial da comunidade científica, finalmente temos a chegada das vacinas que irão, estou seguro, possibilitar o controlo da pandemia, que tantas baixas já infligiu e tantos custos já impos à humanidade.

Mas todos sabemos que o esforço individual e coletivo não se extingue com a chegada das vacinas. Vão continuar a ser exigidos às populações, pelas autoridades de saúde, comportamentos cívicos com vista a evitar o alastramento da COVID-19, que todos tem a obrigação sanitária, social e moral de cumprir.

 

Que futuro terão os clientes de uma instituição bancária, em especial aqueles que têm ou pretendem contrair empréstimo, tendo em conta as incertezas vividas hoje em dia?

Vou fazer uma retrospetiva ao papel que a Caixa Agrícola dos Açores teve junto dos seus clientes aquando das últimas crises económicas e financeiras, nomeadamente a que ocorreu na década de 90 do século passado e a que ocorreu mais recentemente na primeira década deste milénio.

Nessas alturas críticas, a nossa estratégia foi no sentido de apoiar em larga escala os clientes que evidenciassem dificuldades financeiras, reestruturando, sempre que fosse necessário, os planos de pagamento dos empréstimos, adaptando as taxas de esforço às disponibilidades financeiras e aos ‘cash flows’ libertos palas atividades económicas dos clientes.

É esta moldura e este modelo de trabalho que vamos instituir para apoiar agora as situações que carecerem da nossa intervenção e ajuda, sobretudo quando terminarem as moratórias incutidas nos empréstimos e quando se iniciar o pagamento dos créditos concedidos para apoio da economia.

Por outro lado, não posso deixar de destacar o notório abrandamento registado no número das propostas e solicitações de crédito, que decresceram substancialmente a partir do segundo trimestre do corrente ano, excetuando-se as operações COVID-19.

Mas quero realçar que a Caixa Agrícola dos Açores está na primeira linha das Instituições de Crédito que financiam a economia regional e aproveito a oportunidade para convidar todos os empresários e investidores de qualquer sector de atividade, em qualquer ilha onde temos rede comercial, a virem até nós, para apresentar os seus projetos de investimento, pois teremos todo o prazer em recebê-los, atendê-los e estudar a melhor parceria financeira para as suas propostas comerciais.

Com a administração da vacina em larga escala e com o estabelecimento da imunidade social, penso que, aos poucos, os agentes económicos, os investidores e as pessoas irão retomar a confiança e a normalidade regressará que, contudo, no caso da região dos Açores, prevejo no mínimo serem necessários dois anos para haver um restabelecimento da normalidade e uma recuperação das dificuldades.

 

Os agricultores são os vossos principais clientes ou há outro grande nicho?

O Crédito Agrícola é uma instituição histórica que já labora nos Açores desde 1922. Até há cerca de 40 anos, os agricultores eram efetivamente os nossos principais e únicos clientes, a quem a Caixa Agrícola dos Açores deve a sua denominação.

Fundada inicialmente com o nome de Caixa de Crédito Agrícola dos Sócios do Sindicato Agrícola dos Cultivadores de Ananás da Ilha de S. Miguel, hoje é o resultado da fusão das diversas Caixas Agrícolas que existiam nos Açores, por incorporação na Caixa de Ponta Delgada, assumindo então a denominação que atualmente ostenta, Caixa Agrícola dos Açores, um nome que é abrangente à totalidade da Região onde opera.

Como atrás referi, face aos excedentes de liquidez, como forma de mitigar o risco do crédito e para dar resposta aos múltiplos empresários de diferentes áreas económicas que nos procuravam nas sendas de encontrar soluções para as suas necessidades de financiamento, o Regime Jurídico que regulamentava o sector foi redefinido e aberta a autorização para realizar todas as operações bancárias permitidas por direito.

A partir daí, sem deixar que o nosso principal foco fosse o sector primário, passamos a intervir em todo o arco da economia.

Dissecando a nossa carteira de crédito, cerca de 50% está agregada ao setor primário com 30% na agricultura e cerca de 20% na agro-indústria. Os restantes 50% estão disseminados pelo sector secundário, terciário e particulares, de onde se destaca o crédito habitação, onde temos as melhores taxas do mercado.

 

Recentemente foi eleito presidente do Conselho Fiscal da Federação Nacional das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo. Quais os desafios deste cargo?

Efetivamente fui recentemente eleito presidente do Conselho Fiscal da FENACM – Federação Nacional das Caixas de Crédito Agrícola Mútuo, no desempenho da função corporativa de representante da Caixa Agrícola dos Açores, que, por ser no contexto nacional das Caixas Agrícolas, uma Instituição de referência e de elevada dimensão, foi convidada a integrar a lista dos órgãos sociais daquela Federação, na circunstância para presidir o Órgão de Fiscalização.

Como seria de esperar, o convite foi honrosamente aceite e, assim, estou a representar a Caixa Agrícola dos Açores junto daquela prestigiada organização de cariz nacional. Também como é do conhecimento geral, a função abrange a fiscalização de toda a atividade da Federação, no exercício das competências que lhe estão estatutariamente atribuídas.

 

E quais os desafios de ser presidente desta instituição bancária?

O primeiro banco no mundo surgiu há mais de 600 anos, na Itália. Já em Portugal o primeiro banco surge há mais de 200 anos. Portanto, a banca tem uma longa história e ao longo dessa história afirmou-se como uma estrutura financeira e económica indispensável a qualquer modelo de organização e gestão das sociedades humanas.

É factual que a banca tem estado sempre em permanente evolução e mutação. Contudo, penso que nos últimos 30 anos, a evolução foi de tal ordem que modificou por completo o “modus operandi” da atividade, com impacto direto nas redes comerciais e nas equipas dos recursos humanos. Falo do poder da digitalização, dos novos canais bancários, do ‘homebanking’, do ‘Mobile’, do surgimento das ‘fintech’, das plataformas de ‘crowdfunding’, da intermediação bancária, entre tantas outras novidades.

Uma instituição bancária é uma estrutura viva, hoje altamente regulamentada e com muitas dinâmicas em permanente evolução. Sucintamente, do lado do passivo temos os depositantes e toda a estrutura acionista que querem segurança absoluta, boas remunerações e disponibilidade imediata para os seus capitias. Do lado do ativo temos toda a rede de operações financeiras com clientes, em permanente competitividade por melhores taxas e melhores prazos. Ao nível dos recursos humanos temos uma carteira de 115 profissionais a trabalhar em seis ilhas do arquipélago, em processos de permanente formação, com objetivos e anseios pessoais, que têm de ser escutados, compreendidos e atendidos.

A nossa atividade comporta ainda a comercialização de todos os tipos de seguros de vida e não vida, em representação das duas seguradoras do Grupo Crédito Agrícola.

Como vemos, neste quadro de múltiplos estímulos, ser presidente de uma Instituição Bancária é, sem dúvida, um desafio ao conhecimento, à criatividade, à imaginação e sempre inserido num permanente processo de formação. Mas temos as nossas linhas de orientação e os nossos objetivos traçados com vista à manutenção do nosso posicionamento na linha da frente do modelo bancário. Vejamos: Em primeiro lugar, estamos a trabalhar em todas as frentes para produzir um serviço bancário de excelência, reforçando a proximidade digital e a centralidade do cliente; em segundo lugar queremos consolidar o estatuto de sermos o Banco do Sector Primário, ou seja, a Instituição de Crédito onde os empresários agrícolas e os agricultores se sentem em casa, onde encontram proximidade, simplicidade, disponibilidade, compreensão e conhecimento; em terceiro lugar, queremos encontrar novos mercados e novos clientes, empresas e particulares, quer nas comunidades rurais quer nas comunidades urbanas; e, por fim, queremos operar com um modelo de sustentabilidade que seja uma referência nos Açores, em todas as áreas onde estamos presentes.

 

O Crédito Agrícola dos Açores e a Federação Agrícola dos Açores assinaram um protocolo para disponibilizar uma linha de crédito aos produtores agrícolas. Pode explicar como funciona?

Trata-se de uma Linha de Crédito, de curto prazo, no montante máximo de 10 Milhões de Euros, cujas condições essenciais de acesso são: o montante máximo do crédito a financiar por produtor não poderá exceder 10% do seu volume de receitas; ter um rating interno igual ou inferior a seis; não ter responsabilidades em atraso na Caixa de Crédito Agrícola Mútuo dos Açores; não ter créditos em fase de cobrança judicial nem crédito vencido na CRC do Banco de Portugal, nos 12 meses que antecedem o pedido de crédito; não possuir dívidas junto da Autoridade Tributária e da Segurança Social; a taxa de juro nominal é de 1,85%, fixa.

Para contratar uma operação destas, basta dirigir-se a qualquer balcão da Caixa Agrícola dos Açores e fazer fé das condições suprarreferidas.

 

Que outros benefícios podem usufruir os clientes ou futuros clientes?

O Crédito Agrícola é das poucas Instituições de Crédito a operar com o poder de decisão centrado em Portugal e no caso concreto da Caixa Agrícola dos Açores, o poder de decisão está mesmo sediado na Região dos Açores. Isto confere um modelo de interpretação das necessidades do cliente e uma capacidade de decisão inigualáveis. Cumulativamente, o preçário que compreende as taxas ativas, as taxas passivas e as comissões cobradas pela prestação de serviços bancários é dos melhores do mercado.

Ainda na área do crédito, temos sempre presente, em todas as operações financeiras, a preocupação de adequar a taxa de esforço resultante da operação à capacidade financeira do cliente, por forma a que este fique com meios financeiros libertos suficientes para poder viver com dignidade.

É ainda relevante o facto do cliente ou o associado da Caixa de Crédito Agrícola Mútuo dos Açores, quando subscreve ou contrata produtos financeiros, contribui para o orçamento da Região Autónoma dos Açores, uma vez que a Caixa é uma Instituição com sede na Região, local onde paga os seus impostos.

 

Com que pode contar um cliente do Crédito Agrícola?

Toda a nossa estratégia de mercado, processos de formação e modelos de trabalho são traçados tendo em vista uma relação de parceria com o cliente e onde ficam defendidos e assegurados os seus interesses.

Qualquer que seja a sua natureza jurídica, o cliente encontra no Crédito Agrícola um serviço completo de banca que compreende todas as operações financeiras com os melhores preços do mercado.

As nossas linhas de crédito estão adequadas aos ciclos financeiros do cliente tanto na periodicidade de pagamento como na maturidade.

E para finalizar, o cliente é atendido por equipes de comerciais experientes, competentes e conhecedores da realidade, contando ainda com um poder de decisão local rápido e eficaz.

Quero agradecer ao Jornal “Audiência” a disponibilidade redatorial que me concedeu para este espaço de entrevista, com a certeza de que prestou um serviço público de formação, informação e esclarecimento junto de todos os leitores e público em geral.

Neste início de 2021, aproveito para desejar a todos um novo ano com muita saúde e onde haja lugar para a realização todos os projetos pessoais, profissionais e familiares.

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