Foi no dia 9 de março de 2020, em que o Teatro Nacional São João (TNSJ) festejou o Centenário da sua casa-mãe, que o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, agraciou a instituição com o título de Membro Honorário da Ordem do Mérito, pelo “trabalho invulgar” de “democratização da cultura” desempenhado por este “teatro-referência verdadeiramente nacional e de vocação universal”. Foi também nessa data que se lançou um dos primeiros livros, de um conjunto de seis, a que se deu o título de Cadernos do Centenário. Para o primeiro desses livros, se pediu a 100 pessoas/espectadores escrever um texto sobre um espetáculo – de teatro, de dança, de música – que considerássemos importante ou memorável. “O nosso espetáculo preferido, se quiserem.” Sentindo-me muito honrado e como espectador assíduo do TNSJ, respondi com o texto  Gil Vicente nosso contemporâneo.

 Tu me sondas, Senhor, e me conheces./ […] Nada de mim te é estranho.

Salmo 139, mudado para português por Herberto Helder

 

É preciso vir a Portugal para conhecer Gil Vicente, é preciso saber português para o ler. Espanta-me a ignorância que existe no meu continente sobre o génio português, julgo que apenas uma vez o vimos no Chile, e no festival internacional Santiago a Mil, onde a atriz Maria do Céu Guerra (A Barraca) levou o Pranto de Maria Parda.

Sim, encontramos em Gabriel García Márquez uma epígrafe logo no princípio da sua Crónica de uma Morte Anunciada, “La caza de amor es de altanería”, frase retirada da Comédia de Rubena, que parece ligar o destino desta à protagonista Ángela Vicario.

Entre os vários espetáculos que Nuno Carinhas encenou para o TNSJ, fazendo de Gil Vicente nosso contemporâneo, escolho Breve Sumário da História de Deus, do qual guardo belas recordações… Em geral, é fácil esquecer, é mais difícil recordar, e neste processo de evocar imagens deverei citar outras que me acodem agora, neste instante, enquanto escrevo.  A encenação colocou o texto num espaço de muitas referências históricas/teatrais e naquela que é, talvez, a mais marcante para o povo judeu, o Holocausto, Auschwitz ou num outro lugar concentracionário, sala de espera, “huis clos”, a espera de uma possibilidade de escape e libertação.  As personagens deste Sumário (espetáculo que não foge ao significado desta palavra, congregadora alternadamente de hierarquização e resumo) esperam, como nas danças macabras, pelo ato e pelo momento da palavra, “o lugar do verbo fundador”, diria Nuno Carinhas. “A tradição é a língua, a eternidade através da palavra.”(1)  Gil Vicente adicionou a este género algo que faltava aos jogos da dança macabra da Idade Média, o “agôn”, fazendo assim do género antidramático um verdadeiro momento de exposição e combate. A ele devemos, ainda, a introdução do momento cómico, do elemento sarcástico ou irreverente que ajudou a humanizar a galeria das personagens expostas; “de auto em auto, lá desfilam todos e a tratar de tudo. Figuras celestes, as mais sublimes, e retratos terrestres, os mais comezinhos, dignos ou risíveis; […] Deus faz-se história porque encarna, sabia-o Gil Vicente; […] Tudo fica breve, porque mais seria excesso. Tudo fica dito, porque basta para entrever”. (2)  Espetáculo de uma belíssima luz solar e crepuscular que, como num rito (“missa en abyme”, como lhe chamou oportuna e lucidamente Pedro Sobrado), convoca as múltiplas características do autor, unindo, através da têmpera cálida da luminosidade, o profano e o carnal com o religioso.

Comungo desta representação, que me devolve a estatuária e a imaginária religiosas da minha infância, nos altares altos que olhamos de baixo, os movimentos rígidos, parados no tempo, mas as lágrimas transparentes deslizam, brilhantes, e os olhares que nos seguem, palpitantes, devolvem-nos a ilusão da vida. Tanto em Bruges, perante a cápsula que guarda o Sangue de Cristo, como na casa de Anne Frank, eu, intruso visitante dos sítios recônditos nos quais os seus moradores secretos se escondiam, senti uma emoção imensa, difícil de explicar. Talvez ainda esteja na rua a árvore que havia de ser a primeira testemunha desse drama… Emoção similar me ocorreu neste Breve Sumário e, sobretudo, nas cenas finais, no momento da Via Crucis: o jovem Cristo (Daniel Pinto) girando com a cruz sobre os ombros, contrariamente à linha ascendente que me habituei a ver nas representações dos mistérios da minha infância. Este Cristo jovem parte rodopiando para o seu destino inexorável e libertador, porque o Mundo é redondo, girando, girando sempre, um “ilinx” embriagador, quase numa alegria escondida ao encontro do Padre Eterno, para salvação da humanidade. Termino como comecei citando o Salmo 139: “Tu que sabes do meu sono e da minha marcha incerta, / dá-me o caminho secreto para a tua eternidade.” Notas: (1) Armando López Castro, “Gil Vicente y los refranes”, in Voz y letra: Revista de Literatura, Vol. 6, n.º 1, 1995.  (2) D. Manuel Clemente, “O arco em que tudo acontece”, in Manual de Leitura de Breve Sumário da História de Deus, TNSJ, 2009.

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