Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas (Português-Inglês) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a atriz Filomena Gigante teve a sua primeira experiência em teatro em 1978, num trabalho de aprendizagem ao longo de dois anos com o professor e encenador João Mota, que culminou com a apresentação do espetáculo “Hoje Começa o Circo”.

Começava assim um longo percurso que a levaria aos palcos dos mais diversos teatros, sob a direção de encenadores como José Caldas, Lee Beagley, José Carretas ou Renzo Sicco, entre muitos outros. Na televisão, deixou expresso o seu talento nas séries “Triângulo J”, “Dentro” e “2 minutos para mudar de vida” e nas novelas “A Impostora” e “Valor da Vida”. No cinema, destaca-se a sua participação em filmes como “Surdina”, “Vidros Partidos”, “Encontradouro” ou “Até que o porno nos separe”.

Como cantora, pertenceu ao Coral de Letras da Universidade do Porto, foi fundadora do grupo vocal Canto Nono e participou em inúmeros espetáculos do compositor João Lóio e em gravações deste autor, de José Medeiros e Jorge Constante Pereira, nomeadamente no álbum “Sérgio Godinho canta com os Amigos do Gaspar”. Escreveu as peças “Doroteia, Serafim e outras histórias e assim” e “Bandoleiros Cabaré”. Vimo-la por diversas vezes na função de membro do Júri do extinto festival “CALE-Se”. É ela a nossa convidada para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia.

 

Na tua opinião, que papel deve ter o teatro profissional no processo de desenvolvimento e democratização da atividade cultural e artística no concelho de Gaia?

Embora Gaia esteja “colada” ao Porto e os seus habitantes possam usufruir da oferta cultural aí existente, penso que o Município de Gaia deveria dar mais apoio ao desenvolvimento de projetos de teatro profissional. O concelho de Gaia tem uma população bastante superior à população do Porto e como tal deveria apostar mais numa política de criação de públicos e numa oferta de teatro profissional dos mais diversos tipos. Deveria também haver uma preocupação com a existência de espaços dedicados à apresentação de diversos espetáculos de teatro, que pudessem ser usufruídos pelo público em geral, mas também pela vasta comunidade escolar existente no concelho. Na minha opinião, a criação e fidelização de público tem de passar, forçosamente, pelo cativar dos mais jovens através da oferta de espetáculos de teatro de qualidade. Neste momento parece-me que o Auditório Municipal não tem tido uma política de oferta cultural consentânea com a dimensão do concelho. Deveria existir a preocupação de programar, não apresentações pontuais de espetáculos, mas sim a promoção de espetáculos com carreira mais prolongada. Sendo Gaia um concelho onde existem tantos grupos de teatro amador e onde penso existir público que, certamente, aplaudiria a existência de mais e melhor teatro, penso que tem ficado para trás em relação a outros concelhos da área metropolitana do Porto. Com a quantidade e variedade de bons profissionais de teatro existentes na nossa área metropolitana, onde existem diversas escolas de teatro, seria muito bom ver Gaia, à semelhança do que acontece em alguns concelhos na área metropolitana de Lisboa, a promover o Teatro e a ter algum protagonismo nesta área cultural. Só com uma diversificada oferta teatral de qualidade e a referida política de cativação e fidelização de público poderá haver democratização cultural.

 

Ainda há quem olhe de lado para financiamento público às artes. Será por isso que o Auditório Municipal e o cineteatro Eduardo Brazão não têm uma programação regular?

De facto, o financiamento público às artes é olhado de lado por muitos. É um problema que começa no Governo, que persiste em reservar para a Cultura uma parte miserável do Orçamento de Estado, e que se manifesta também no poder local. As autarquias, no geral, não têm uma política cultural definida e o que se vê, muitas vezes, é um subaproveitamento dos espaços culturais existentes, cujas programações, maioritariamente, apresentam espetáculos com um caráter mais comercial. E quando parte das verbas para a cultura são dedicadas à apresentação de espetáculos de qualidade, essas verbas ficam, a maior parte das vezes, retidas durante imenso tempo, sendo pagas muito depois das apresentações. Penso que, no fundo, ainda não se tomou consciência que os artistas prestam um serviço inestimável e que não vivem de ar e vento, mas sim do seu trabalho. É fundamental, para qualquer comunidade, o acesso à cultura. Provavelmente, a autarquia de Gaia terá outras prioridades orçamentais e ainda não se apercebeu, como muitas outras, de que os equipamentos públicos deveriam procurar facilitar esse acesso a diferentes produtos culturais. E existirá talvez, também, o receio de poder ser acusada de gastar verbas acima do que é normal com este “parente pobre” que são as artes. Como diz o António Lobo Antunes: “A cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos”.

 

Há quem defenda que a produção, investigação e desenvolvimento artísticos são sustentáveis, mesmo sem a ajuda dos organismos públicos. Qual é a tua opinião?

A produção, investigação e desenvolvimento artísticos poderiam ser sustentáveis sem apoios públicos se existissem em Portugal condições, nomeadamente logísticas, para tal. Em primeiro lugar, há uma enorme falta de salas disponíveis para ensaios e apresentações de espetáculos e o arrendamento, mesmo de uma sala de pequenas dimensões, é extremamente caro. Além disso não existe uma verdadeira política de mecenato que incentive os privados a investirem em ofertas culturais. Se estas duas premissas estivessem garantidas, talvez fosse exequível ter todos os custos suportados pela venda de espetáculos, bilheteira e até eventuais outras formas, como oficinas de teatro.. De qualquer forma, penso que o Estado tem a obrigação de apoiar a área da cultura, tal como faz com outras áreas, e que é urgente compreender que a falta desse apoio só torna o país mais “pobre”.

 

No caso do teatro, sendo Gaia um concelho rico em grupos amadores, há quem ache que a Autarquia não se deve preocupar com a oferta profissional. O que te parece?

Por aquilo que conheço do teatro amador no concelho de Gaia, penso que nem a esse setor a Autarquia tem prestado o apoio necessário. Posso dar como exemplo o cancelamento do CALE-Se – Festival Internacional de Teatro Amador, do qual fui membro do júri em diversas edições, e que penso que deveria merecer mais atenção e apoio por parte do município, quanto mais não seja pela projeção nacional e internacional dada ao concelho de Gaia. Mas qualquer apoio dado ao teatro amador do concelho não invalida o investimento na área do teatro profissional. São ofertas diferentes e ambas deveriam ser apoiadas, não só pelo concelho de Gaia, como por qualquer outro concelho do nosso país. A oferta cultural rica e diversificada deveria ser um ponto de honra, não só para o Governo, mas também para o Poder Local. O investimento nas artes não pode ser encarado como despesismo, mas sim como um investimento no futuro cultural, educacional e até turístico de cada concelho. Enquanto a Cultura, em todas as suas vertentes, não for encarada como tal, é, na minha opinião, sinal de que o bem-estar da comunidade é visto de uma forma muito redutora e economicista. E termino com uma frase de Albert Camus: “Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro.”

 

É preciso atuar de forma integrada nas diversas dimensões em que a cultura opera, como a criação artística, o turismo, a regeneração urbana, a recuperação do património, a formação e a investigação. É isso?

Sim, é exatamente isso. Se uma autarquia só se preocupar com a recuperação do património edificado ou com o embelezamento das suas artérias, um pouco para “turista ver”, esse investimento, a longo prazo, não vai produzir os frutos esperados. É preciso que exista uma visão mais alargada do que é uma cidade: é preciso pensar nas pessoas que aí vivem, nas suas tradições e na sua cultura. Quem não pensar nestes termos está apenas a construir um “cenário” e não uma cidade que pulsa e respira como e com os seus habitantes. Uma autarquia tem de investir tanto no património material como imaterial, e este é, precisamente, a cultura, um bem essencial para todos. Durante este período de pandemia acho que talvez se perceba como é importante a literatura, o cinema, o teatro, a música e todas as outras artes e como elas nos podem “salvar”. Precisamos que haja, por parte do Poder Local, uma aposta mais forte em todas essas vertentes: criação artística, formação e investigação, recuperação do património, regeneração urbana. Se assim for, é garantido que tudo isto constitui uma grande aposta no turismo, foco de muitos autarcas, que não precisa só da existência de unidades hoteleiras e de restauração, mas sim de um investimento mais profundo que permita captar a essência duma cidade e de todos os que a formam.

 

A terminar, que recordações guardas do público de Gaia, que teve oportunidade de te ver no espetáculo “Sexo em Paz” na Associação Recreativa de Canidelo?

É muito gratificante, para qualquer ator, ter uma sala cheia de público e sentir que as pessoas se estão a divertir tanto como nós em palco. Como membro do júri do CALE-Se, pude ver igualmente as salas quase sempre esgotadas e perceber que em Gaia há muita gente a gostar de teatro e que merece usufruir de bons espetáculos.

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