O Troféu AUDIÊNCIA Empreendedorismo 2016 foi entregue à Fromageries Bel Portugal, empresa que, recentemente, lançou um projeto inovador de leite de pastagem intitulado “Leite de Vacas Felizes”. O AUDIÊNCIA esteve à conversa com Eduardo Vasconcelos, diretor de aprovisionamento do leite da BEL que garantiu que acredita realmente que este “é o melhor leite do mundo” e que o consumidor já está a reconhecer isso.

“Cada vez há uma maior procura dos produtos naturais, mais saudáveis, que respeitem os animais, e construímos um programa baseado nisso e para isso”, explicou o diretor que confidenciou, ainda, que a principal dificuldade continua a ser a insularidade e os custos associados à exportação.

 

 

O AUDIÊNCIA atribuiu o prémio Empreendedorismo 2016 à Fromageries Bel pela sua atividade no concelho da Ribeira Grande, nomeadamente, através do programa “Vacas Felizes”. O que representa para o grupo Bel a sua presença na Ribeira Grande?
O grupo Bel, há uns quatro ou cinco anos, resolveu mudar um pouco e ter uma política ligada à responsabilidade social, tanto nas explorações, como nos mercados onde se insere. E nesse âmbito nasceu o programa “Leite Vacas Felizes”, com a ideia de trazer uma mais-valia ao leite açoriano pois temos aqui muito potencial de produção e uma característica muito especial que é termos erva verde 365 dias por ano, o que se traduz num leite mais nutritivo e mais saudável. Esta nunca foi uma vertente muito utilizada, sempre houve algum conhecimento, especialmente no mercado português da mais-valia do produto açoriano, mas, queremos trazer ao consumidor um produto que se diferencie e que ele veja como uma mais-valia para a sua alimentação. E, por isso, nasceu esse programa que também prevê um caderno de encargos bastante alargado. Ao todo, são 229 questões que o produtor tem de respeitar e cumprir, entre as quais as boas práticas, que têm a ver com os pilares em que o programa assenta que é a pastagem, o bem-estar animal, a segurança e qualidade alimentar, ou a sustentabilidade e eficiência. Portanto, o programa procura cumprir e utilizar as boas práticas internacionais. E depois existe um ponto que achamos muito importante para os Açores que é haver um elevar do nível na produção do leite, nomeadamente, na questão das infraestruturas que os produtores têm, e no seu modo de trabalho, de maneira a lhes dar maior eficiência e maior segurança alimentar. No fundo, foi um programa que demorou dois anos a ser idealizado, foi apresentado em janeiro de 2015 aos produtores, ao Governo e às autoridades, e em maio de 2016 nasceu o primeiro produto com base nesse leite.

 

O leite de pastagem, ou “o melhor leite do mundo” como foi apresentado. É mesmo?
Achamos que sim e acreditamos que sim. Ou seja, realmente é um leite diferenciado e há vários estudos internacionais sobre o leite de pastagem que afirmam que é uma mais-valia. Mas não só a pastagem, é todo o método de trabalho, as condições que o produtor tem vão no sentido de garantir esses cinco pilares, não só num produto mais nutritivo, mais saudável, mas também toda uma garantia de produção que passa pelo bem-estar animal, que é uma situação cada vez mais recorrente e obrigatória, não só pela necessidade de salvaguardar recursos mas, principalmente, por garantir que os animais são tratados devidamente, produzindo assim melhor leite.

 

Portanto o grupo Bel foi, de certa maneira, ao encontro da vontade das pessoas?
Sim. Cada vez há uma maior procura dos produtos naturais, mais saudáveis, que respeitem os animais, e construímos um programa baseado nisso e para isso. Também para consciencializar as pessoas que existe essa preocupação e que é possível fornecer um produto que vai de encontro às suas expetativas.

 

Sendo ligeiramente mais caro que o leite dito normal, isso não tem afastado as pessoas?
Já se sabe que é um produto mais direcionado para um determinado nicho de mercado e quando foi idealizado já foi nesse sentido. O que tem acontecido é que temos conseguido captar e passar a mensagem, porque o importante é a mensagem chegar ao destinatário. Hoje em dia há muitos canais de publicidade e de comunicação e, por vezes, torna-se difícil chegar ao consumidor, especialmente porque explicar em concreto demora um bocado e ocupa espaço, o que muitas vezes é incompatível com os meios de comunicação que existem. Mas temos conseguido fazer um bom trabalho e temos conseguido chegar ao consumidor e a verdade é que as vendas têm sido crescentes, o que indica que quem experimenta o produto não o abandona, o que é um bom sinal. Já estamos quase a fazer um ano que lançamos o produto e temos vindo a ter essa evolução positiva e tudo indica que, realmente, conseguimos e provamos ao consumidor que o produto é real e que tem mais-valia.

 

Uns meses depois deste leite de pastagem aparecer, algumas empresas, nomeadamente de S. Miguel, apresentaram produtos que se aproximam até no formato da embalagem.
Sim, há uma evolução natural que é o tipo de embalagem, mais prática, e é natural que se vá evoluindo nesse sentido. Agora, a nossa proposta, por enquanto, ainda é única. Achamos que o leite dos Açores merece ser valorizado pelas potencialidades e características que tem mas, para isso, também precisamos mudar o paradigma, ou seja, o que o consumidor pretende em S. Miguel ou nos Açores. Mas há também um retrocesso, pois há uma tentativa de evoluir a produção de leite de acordo com as normas internacionais, no sentido de estabulação dos animais. O que é contrário ao querer fornecer um produto mais saudável e mais nutritivo. O nosso programa procura inverter isso e garantir ao consumidor que realmente é incluído leite de pastagem, é a erva verde que dá essas características, e achamos que os outros operadores também devem seguir esse caminho, porque a verdade é que todos nós em conjunto somos mais fortes do que individualmente.

 

Um dos pontos fortes que aponta para o consumidor utilizar o vosso leite é que é um leite puro e exclusivo dos produtores do programa “Vacas Felizes”.
Exato. O nosso programa é para todos os nossos produtores, mas depois existe os produtores que são certificados. Há uma entidade externa, uma empresa própria de auditorias, que faz a verificação e têm de cumprir, pelo menos, 90 por cento das boas práticas e 100 por cento dos requisitos. E quem cumpre esses critérios obtém o nosso selo do programa de leite “Vacas Felizes” que é direcionado para esses produtos. Os restantes produtores também estão no âmbito do programa que é evolutivo, até atingirem essa certificação, alimentam os outros produtos que temos com o objetivo de, um dia, virmos a ter 100 por cento de leite certificado de acordo com as condições.

 

Qualquer consumidor que adquira leite de pastagem da Terra Nostra pode ter absoluta certeza de que estas garantias são cumpridas então?
Exatamente. Não só a nível dos produtores é feita essa auditoria externa, como também já certificamos o produto. Portanto, o produto tem uma certificação internacional que certifica que os processos de produção garantem o que está definido.

 

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“A maior dificuldade é a insularidade”

Quais são as maiores dificuldades que a Fromageries Bel tem na Ribeira Grande para se manter na vanguarda dos produtos que produz?
A maior dificuldade é a insularidade. Temos de importar quase tudo e depois temos de exportar quase tudo. Temos 1500km só para o continente mais próximo o que é uma grande dificuldade, há um custo acrescido de transporte bastante elevado. Outra dificuldade é que temos uma característica especial nos Açores que, muitas vezes, não é aproveitada e nos mercados os preços estão em valores que não são condignos com a potencialidade e vantagens do produto. Por isso, também nos procuramos distanciar e criar um produto único que, realmente, permita ter essa vantagem e ter algo diferente dos outros. Claro que a insularidade obriga a ter custos acrescidos principalmente de transporte, que depois se refletem, nomeadamente, na rentabilidade e no produto a oferecer ao consumidor. Esta é a grande dificuldade de estarmos longe dos grandes mercados, estamos na periferia. Muitas vezes uma desvantagem passa a ser vantagem mas, neste momento, ainda não se conseguiu fazer esse aproveitamento, principalmente no mercado americano que podia ser uma hipótese, mas existe as quotas de importação dos EUA o que ainda dificulta mais a situação.

 

Uma das questões que cada vez mais se coloca é a rapidez com que os produtos podem chegar fora de ilhas. Fala-se na necessidade da criação de aviões de cargueiros que transportem mercadoria rapidamente para qualquer parte do continente ou do mundo. Se isso se tornar uma realidade a curto prazo, será uma vantagem para o grupo Bel?
É sempre uma vantagem, mas não é uma vantagem imediata ou que esteja nas nossas prioridades, porque os produtos que fabricamos têm um prazo de validade alargado. Neste momento, temos uma ligação uma vez por semana. É verdade que obriga a fazer algum stock, se fosse diária podíamos ter um stock mais baixo, mas não temos a obrigatoriedade de o produto ser produzido e ter de chegar logo aos mercados. O grande problema aqui não é propriamente o tempo de chegar aos mercados mas a distância e o custo que isso implica. Por isso, para nós, esse ponto não é fundamental, não deixa de ser importante porque pode-se reduzir o nível de stocks e ser mais flexível e mais adaptado às necessidades do mercado, em caso de falha por exemplo.

 

O leite de pastagem Terra Nostra é a menina dos olhos do grupo, aqui nos Açores pelo menos. Além deste tipo de produto genuinamente açoriano, quais os outros produtos que recomendaria?
Temos o leite de pastagem e, neste momento, produzimos também a manteiga de pastagem. Depois, todos os nossos produtores que já estão validados pelo programa, apesar de não terem ainda a certificação, alimentam todo o nosso queijo. Portanto, temos toda essa panóplia de leite de pastagem, de manteiga, de queijo, e estamos a caminhar no sentido de o queijo ser totalmente também de pastagem.

 

Uma das coisas que quem vem de fora aprecia é a liberdade que as vacas têm nos prados. Ligar o leite a esta coisa bonita aos olhos, acha que é uma aposta que tem tudo para ser um grande sucesso?
Sim. Acho que é importante para a pessoa que visita os Açores ver o sistema como vivemos aqui com a naturalidade, os recursos naturais, o ambiente que temos, tudo isso é demonstrativo depois dos produtos que se podem gerar. Há sempre alguma ligação quando se vê as coisas bem feitas, o consumidor revê-se nisso. E acho que esse é um ponto fundamental e o leite de pastagem é possível só aqui nos Açores, e como estipulamos com regras em que os produtores têm um caderno de encargos que permita cumprir. Há, de facto, essa ligação entre o turismo, a nossa natureza e os nossos produtos.

 

E o crescente aumento de turismo poderá, ou deverá, aumentar a procura dos produtos de qualidade.
Acredito que sim.

 

 

“É preciso dar notoriedade às regiões para que as pessoas, inconscientemente, pensem onde se produz o melhor leite”

Em termos de organização política da região, das instituições, acha que o apoio que tem sido concedido, nomeadamente a nível do Governo Regional, é o suficiente para uma empresa líder como esta, ou era preciso mais?
Essa é sempre a mesma discussão sobre os subsídios porque a atividade económica tem de ser potenciada e tem de ser estimulada mas os subsídios, muitas vezes, vêm distorcer o modo como funciona e vêm criar alguma habituação que depois não se traduz realmente num aumento de riqueza. Claro que concorremos a apoios para a nossa linha de transformação, para a linha de equipamento, foi-nos dado o apoio, e já se sabe que é uma mais-valia para uma empresa que faz um investimento e que tem uma estratégia de mercado. Claro que para nós o mais importante, a nível Açores, será uma definição de estratégia de futuro para os lacticínios dos Açores, que é preciso não só os políticos mas também toda a sociedade civil e os stakeholders, ou seja, todos os que estão neste setor de atividade, definirem como caminho a seguir porque tudo passa por termos produtos credíveis e que correspondam às necessidades, mas também temos de ter notoriedade. Ou seja, quando pensamos em champagne pensamos em França, os relógios pensamos na Suíça, por isso, é preciso dar notoriedade às regiões para que as pessoas inconscientemente pensem onde se produz o melhor leite. E é esse trabalho que acho que está muito no início e que ainda há muito para fazer.

 

Notei na sua resposta que a produção de produtos Terra Nostra está aquém da sua capacidade máxima, ou seja, está à espera de uma abertura para explodir. Qual é a capacidade, neste momento, de produção do grupo aqui nos Açores?
A nível de queijo temos uma capacidade instalada, por dia, entre as 10 e 13 mil toneladas, e de leite de pastagem podemos chegar aos 40 milhões. Neste momento, está aquém porque quando se está a desenvolver produtos temos de ter margem para poder crescer.

 

Atualmente, grupo Bel já leva os seus produtos dos Açores até que países?
Já exportamos para vários países, embora a exportação ainda tenha pouca expressão no conjunto mas exportamos, nomeadamente, para os EUA, e para vários países da Europa, como a Suíça, França, Luxemburgo, e África como Moçambique, Angola ou Cabo Verde.

 

E nos locais onde está localizada a grande imigração daqui da Ribeira Grande, por exemplo, Canadá, EUA, não há uma procura desse produto?
Há duas vertentes. Os EUA e o Canadá, que é onde temos maior expressão de imigração, existem muitas quotas à importação. Neste momento, as nossas quotas estão completamente ocupadas, ou seja, não conseguimos exportar mais. Se bem que há agora um novo acordo com o Canadá que pode abrir portas a um maior volume. Agora, a nível de leite, por exemplo, cada região habitua-se a determinado tipo de leite, há países que consomem predominantemente leite do dia, que não é exportável por causa da sua duração, como é o caso do Canadá e dos EUA, que são mercados em que o leite de pastagem torna-se difícil pelos hábitos de consumo desses países. Mas a nível do queijo temos alguma expressão, muito pequena, mas como disse também tem a ver com a questão das quotas. Claro que há aqui um ponto fundamental e importante para nós que é, realmente, desenvolver a exportação.

 

Quantos trabalhadores trabalham nesta unidade?
Cerca de 250.

 

Para este ano de 2017, sendo que ainda estamos no primeiro trimestre, quais são os objetivos do grupo Bel?
O grande objetivo é, claro, continuar a desenvolver o leite de pastagem e continuar esse caminho sempre a crescer e conseguir chegar ao consumidor com a nossa mensagem e comprovar que, realmente, é um produto de mais-valia. Estamos a passar tudo isto para o queijo também, apresentando um produto mais em consonância com as necessidades do consumidor. Temos mais algumas novidades que vão aparecer durante o ano que, neste momento, ainda é prematuro falar, mas vamos continuar nesta senda de valorização do leite dos Açores, nomeadamente S. Miguel e aqui a Ribeira Grande, onde nos inserimos e temos a maior recolha. É uma maneira de valorizar e de poder retribuir às populações locais uma parte dessa mais-valia de maneira a partilharmos todo esse sucesso que estamos a ter e que esperamos vir a ter com os novos projetos. Além disso, a Bel no seu âmbito de projetos de responsabilidade social tem participado e apoiado, e irá continuar a faze-lo, algumas instituições de caridade porque está no âmbito de ajudarmos as comunidades locais, principalmente os mais desfavorecidos. Temos feito por nós mas também fazemos algumas parcerias com instituições de solidariedade social locais, não só na Ribeira Grande mas a nível de ilha. Ou seja, anualmente, temos sempre alguma contribuição para apoio direto a essas instituições.

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