Na sua obsessão em cancelar/alterar/suspender a “obra” deixada pelo seu antigo sucessor e agora seu antecessor na liderança da Câmara Municipal de Gaia, como são disso exemplos o cancelamento da ciclovia da avenida da República (que reabriu espaço à prática de estacionamento selvagem naquela que é uma das artérias mais movimentadas do centro da cidade…), a alteração do passe social municipal para cidadãos seniores (que determinou o fim de benefícios a reformados/pensionistas com pensões a partir 750 euros…) ou a deslocalização do parque de skate em fase final de construção na freguesia de Canidelo (que poderá determinar o pagamento daquela infraestrutura por duas vezes…), Luís Filipe Menezes decidiu agora cancelar a construção de um denominado complexo aquático, que comporta um tanque com oito pistas, seis de 25 metros e duas de 50 metros, dois ginásios, um parque de estacionamento e uma cafetaria, ocupando uma área total de 14.108 metros quadrados do Parque da Lavandeira, que já levou à devastação de várias centenas de árvores.
Se até aqui tenho contestado algumas decisões do edil gaiense, não posso deixar de saudar agora esta sua posição, defendendo a reflorestação integral do espaço e a devolução à sua função ecológica original, em consonância com os princípios de sustentabilidade ambiental que o município tem por missão defender. No entanto, alerto para o facto de o projeto ter sido aprovado por unanimidade (nove vereadores do PS e dois do PSD…) pelo executivo municipal anterior (2021), havendo preceitos legais a cumprir com a empresa concessionária daquela infraestrutura e responsável pela sua construção. Aliás, aquela já fez saber que há um contrato assinado, admitindo também desde já ir para tribunal ou pedir indemnizações caso o projeto seja cancelado. Pelo que, caso a obra não possa ser travada, impõe-se que a área florestal adulta seja compensada, através do reflorestamento de área equivalente, para além da exigência do cumprimento da medida prevista no contrato de criação de zonas verdes de enquadramento paisagístico em torno dos “ginásios e piscinas”.
Entretanto, fico na expectativa de que estas supostas preocupações ambientais de Luís Filipe Menezes se estendam também ao Ecoparque do Atlântico, nascido nos terrenos do antigo Parque de Campismo da Madalena, e dê o seu apoio (merecido!) a Luís Alves (fundador do Cantinho das Aromáticas, empresa produtora de ervas aromáticas fundada há 21 anos na Quinta do Paço, em Canidelo), engenheiro agrónomo responsável pelo desenho do conceito e do plano de desenvolvimento do projeto, que tem por base os princípios da sustentabilidade, acessibilidade inclusiva e manutenção da qualidade ambiental, visando o equilíbrio entre atividades culturais, recreativas, desportivas e de conservação da natureza, tanto dentro da área de intervenção, como nos espaços contíguos, incluindo a criação de um Centro de Juventude, ocupando uma área total de 17 hectares, com a perspetiva de crescer mais 10 hectares, com a previsível (?) aquisição da zona da Ribeira de Atiães, dando deste modo continuidade à requalificação deste importante e muito bem-vindo corredor ecológico.
Com a aquisição da área de terreno a sul, com frente para a rua do Cerro e para a rua Clube Atlântico da Madalena, esta importante mancha verde poderá assumir-se como um parque ecológico de referência do espaço europeu, com a particularidade de se conectar com a frente marítima, o que permitirá a promoção de atividades desportivas, como o surf, por exemplo, em simultâneo com o desenvolvimento de iniciativas focadas nas questões ambientais e na sustentabilidade através da realização de workshops, espaço museológico, escavações arqueológicas, feiras biológicas, entre outros eventos. Ao mesmo tempo que serão também valorizados todos os vestígios arqueológicos existentes, sendo que qualquer intervenção nas imediações das áreas identificadas com a existência de vestígios arqueológicos será precedida de uma avaliação que garanta a preservação desse património.
Recorde-se que estes espaços verdes (Parque da Lavandeira e Ecoparque do Atlântico) desempenham um papel crucial na promoção da sustentabilidade na cidade. Já que não só embelezam e enriquecem a paisagem urbana, como contribuem para melhorar a qualidade do ar, reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, baixar a temperatura ambiente e promover a biodiversidade, ao mesmo tempo que ajudam a aumentar a resiliência da cidade aos efeitos das alterações climáticas, como as vagas de calor, as secas e as inundações, uma vez que as árvores e as plantas são excelentes filtros naturais, capazes de absorver gases poluentes e libertar oxigênio. E, melhorando a qualidade do ar, melhoram igualmente a qualidade de vida dos cidadãos, ao proporcionarem vários espaços de cultura e lazer, de desporto e convívio social. Além disso, as áreas verdes incentivam a prática de atividades físicas, já que caminhar, correr ou praticar outro tipo de exercícios ao ar livre em ambientes arborizados é muito mais motivador do que em espaços fechados. E isso, por sua vez, contribui para a prevenção de doenças crónicas, como obesidade, hipertensão e diabetes.
Só espero que, na sua obsessão em eliminar toda a “obra” do seu antecessor, Luís Filipe Menezes não decida retomar um projeto antigo para estes terremos da Madalena, que estiveram quase condenados a ser transformados numa autêntica selva de pedra, dando lugar a um grande polo tecnológico composto por edificações para sede de empresas, apoiadas por serviços, habitações de luxo e um hotel de cinco estrelas… Os gaienses não lhe perdoariam!


