Quem esteve presente na tomada de posse de Luís Filipe Menezes como presidente da Câmara de Municipal de Gaia e ouviu-o dizer que vai criar 25 quilómetros de ciclovias, terá eventualmente pensado que ele havia desistido da ideia de acabar com a ciclovia da Avenida da República, inaugurada em agosto do ano passado. Mas não, ele cumpriu mesmo a promessa-ameaça que fez na campanha eleitoral, para desencanto dos que chegaram a acreditar que algum dos assessores o tivesse convencido das virtudes das ciclovias no centro das cidades. É que as ciclovias funcionam como novas artérias para as cidades que desejam respirar melhor, diminuindo drasticamente a emissão de gases poluentes, requalificando a paisagem urbana, humanizando o espaço público e criando cidades mais vibrantes e seguras!
É isto que eu defendo, para melhorar as condições de vida nos eixos centrais da nossa cidade, aumentar a sua atratividade e diminuir os impactos negativos provocados no meio ambiente resultantes da crescente poluição sonora e atmosférica. Tudo isto porque, ao contrário do que alguns pensam e do que outros querem por força convencer-nos, a sobrevivência do comércio, a vitalidade das indústrias e a qualidade de vida dos cidadãos não depende do automóvel. O futuro está exatamente no lado oposto, na eficiência global do transporte público, numa maior criação de artérias destinadas exclusivamente a peões, no incremento de novas ciclovias e no crescente condicionamento da circulação de veículos particulares nos grandes centros urbanos. Em suma: na diminuição da contaminação do ar!
Mas, infelizmente, ainda há quem ofereça grande resistência às ciclovias, sendo por isso muito difícil levar por diante qualquer medida que perturbe a mobilidade automóvel, porque impopular. E parece ser essa a razão que levou Luís Filipe Menezes a determinar o fim daquela via ciclável entre o Jardim do Morro e a Estação do Metro D. João II, dando mais espaço ao trânsito rodoviário, cuja circulação tinha ficado reduzida a uma única faixa em cada sentido. E fê-lo mesmo sabendo (porque tem o dever de conhecer a lei) que aquele ato é nulo (porque ilegal), uma vez que aquela decisão foi tomada sem ouvir a Assembleia Municipal e em desrespeito de uma Portaria Municipal de Trânsito aprovada pela Câmara Municipal em 1 de julho de 2024 e ratificada em Assembleia Municipal de 18 desse mês.
E, sim, não basta dizer que considera “completamente impossível, patético, bizarro, errado, pensar que é possível ter no centro urbano de cidades, como esta, ciclovias” (in Jornal de Notícias, de 12 de novembro de 2025), para levar por diante esta decisão sem que tenha havido qualquer decisão prévia da Assembleia Municipal que altere a Portaria Municipal de Trânsito acima referida. E recorde-se que aquela ciclovia foi candidata a fundos do Programa Norte 2030, no montante de 98 mil euros, sendo muito provável que tenha sido considerada ilegível, pelo que a sua remoção poderá originar o “desperdício da concessão desses fundos, uma vez que isso pode configurar uma utilização indevida de recursos públicos europeus”.
Mas o mais estranho nesta decisão do edil de Gaia de retirar os pilaretes e acabar com a ciclovia na Avenida da República, é que ele prometeu na tomada de posse a criação de 25 quilómetros de ciclovias na cidade. E onde será que isso acontece? Ficámos apenas a saber que “elas ligam pontos úteis”, seja lá o que isso quer dizer, mas quanto à sua localização, nicles. Espero que, pelo menos, sejam pontos fundamentais para deslocações de rotina, de recreio, estudo ou trabalho, que nos liguem a estações do metro, escolas, lojas de comércio, fábricas, espaços públicos de recreio e convívio, centros de saúde, e não sejam apenas pontos de apoio para lazer de turistas, como acontece na marginal. Mas para isso é preciso ser um decisor político com coragem para a mudança, mesmo que lhe custe alguma popularidade.
E, já agora, ele que oiça a população, que consulte especialistas em mobilidade, peça pareceres, faça análises técnicas, ausculte associações e movimentos cívicos ligados à mobilidade urbana em bicicleta e… debata o tema com a oposição, na vereação e na assembleia, não decida sozinho só porque acha que sim, que as promessas políticas são para cumprir, mesmo que estejam erradas, sejam menos esclarecidas e pouco sensatas. Governar é também saber ouvir, dialogar! E replicar entre nós o melhor do que se faz noutros países, nas grandes cidades europeias, como, por exemplo, Paris ou Londres, que foram aprendendo a fazer com a obra feita. Will Norman, comissário para a Mobilidade Ciclável e Pedonal da Câmara de Londres, disse em 2021: “O que nós aprendemos em Londres é que onde fazemos ciclovias as pessoas usam-nas. Vão trabalhar, vão à escola, vão visitar amigos, de bicicleta”.
A terminar, convém recordar que Portugal é, curiosamente, o quarto país europeu em número de ciclovias desde que a pandemia da Covid’ 19 se instalou nas nossas vidas, e que, apesar do ceticismo inicial, a esmagadora maioria das cidades não se arrepende da aposta na mobilidade ciclável para fazer face aos novos desafios da vida urbana. E numa altura em que os governos de todo o mundo estão a tentar reduzir as emissões de carbono, há cada vez mais cidades a incentivar as pessoas a deixar os carros em casa, facilitando a circulação de bicicleta. Que eu saiba, apenas Lisboa, e agora Gaia, suprimiram até hoje uma via ciclável, em contraciclo com as melhores práticas de mobilidade a nível europeu, talvez porque os seus líderes desconhecem como é libertador percorrer uma ciclovia, absorvendo o charme de uma cidade sem as desvantagens do transporte público lotado ou dos engarrafamentos!…


