“O QUE MAIS ME SURPREENDEU FOI PERCEBER QUÃO PROFÉTICO ELE FOI”

Há 50 anos que morreu Pier Paolo Pasolini/PPP, escritor, poeta, dramaturgo, cineasta, argumentista, uma das mais interessantes figuras intelectuais da Itália do séc. XX. Amado e odiado pelos seus contemporâneos, PPP construiu uma obra ímpar toda ela marcada por uma singularidade estética de profunda inspiração que parte do clássico (gregos e latinos) até os autores modernos, entre os quais ele próprio se situa, numa autorreferência, com a sua obra única e genuína.

Passam também 50 anos da estreia do seu último filme, filme maldito, amaldiçoado, filme testamento e documento de denúncia dos últimos dias do fascismo italiano.

“Assistir a Salò ou os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini, hoje envolve uma experiência tão extrema e às vezes insuportável quanto há 50 anos, quando ocorreu sua estréia agitada. Suas cenas de sexo forçado, sadismo corporal, coprofagia, humilhação e mutilação, filmadas em cenários magníficos e a partir de um aparato formal de rara beleza, geram o mesmo horror, a mesma repugnância moral. Mas, acima de tudo, o campo em que o filme estende sua validade com mais autoridade é o político, que é o que mais interessou ao seu autor. O que Salò enuncia, que tem a ver com a violência subjacente ao exercício do poder nas sociedades capitalistas”. (Ianko López- El Pais –21/08/25)

Saló, no Norte de Itália, foi o último refúgio de Mussolini e o derradeiro do fascismo italiano. 1943, 25 de julho, o Grande Conselho Fascista votou pela destituição de Benito Mussolini, que foi preso por ordem do rei Vítor Manuel III e afastado do poder. Hitler, decidido a manter a Itália sob controle, lançou a Operação Eiche para resgatar Mussolini. O Duce foi libertado por um comando de paraquedistas e transferido imediatamente para a Alemanha. Pouco depois, sob pressão do próprio Führer, Mussolini retornou ao solo italiano, concretamente à região norte, onde foi instaurado um novo regime, sob estrita supervisão alemã. Esta nova etapa do fascismo foi, paradoxalmente, mais radical do que a anterior. O regime impôs medidas violentas contra seus opositores, organizou tribunais especiais para punir os antigos traidores do partido e colaborou ativamente com os nazistas na deportação de judeus italianos. Para a primavera de 1945, o colapso era inevitável. Mussolini foi preso por uma brigada partisana (resistência italiana), junto com sua amante Clara Petacci. Ambos foram sumariamente executados em 28 de abril de 1945, e seus corpos foram pendurados na Piazza Loreto, como símbolo da queda do fascismo e do fim de uma era.

PPP, clássico, cristão e comunista, tanto filmou o Evangelho Segundo São Mateo como Teorema, filme onde uma estranha personagem entra numa família burguesa, como um anjo exterminador, seduzindo pelo amor e ternura, preenchendo os lugares vazios do quotidiano, nele brilham todos os atores, entre os quais destaco Terence Stamp (belíssimo) recentemente falecido.

Seria um pecado não mencionar a sua bela trilogia, da literatura universal, As Mil e Uma Noites, Decameron e Os contos de Canterbury…todos eles vistos no cinema Olimpya do Porto (Passos Manuel…quem se lembra deste cinema?), assim como as suas belas adaptações para o cinema do Édipo Rei de Sófocles e a Medeia de Eurípides com interpretação de Maria Callas.

Também lembrar que como dramaturgo, foi representado em Portugal, as suas peças como as adaptações do grande clássico espanhol, Calderon de la Barca.

E finalmente lembrar que a sua morte/assassinato, consequência de um encontro sexual com um prostituto foi denunciado, na altura, como uma morte anunciada ou preparada pela direita italiana, segundo a jornalista Oriana Fallaci (*)e a actriz Laura Betti (**) a sua amiga intima.

Um belo filme sobre ele, protagonizado por um grande actor Willem Dafoe, com realização de Abel Ferrara.

Assinalar os 50 anos de carreira teatral de Emília Silvestre (1960). Conheci Emília quando era uma jovem de 15 anos, integrou com outros cinquenta jovens um dos três cursos de iniciação teatral quando dirigia o TEP/Teatro Experimental do Porto, nos anos 1975/78. Integrou o elenco de A Excepção e a Regra de B. Brecht, e de As Artimanhas de Scapino de Molière- cenários e figurinos do escultor José Rodrigues – em ambas encenações contracenou com o seu pai, também actor, Diamantino Silvestre e com aquele que viria a ser o seu companheiro, Jorge Pinto. Voltamos a trabalhar juntos, nos anos 80, numa encenação para o TEP de Amor de D. Perlimplim com Belisa no seu Jardim de F. Garcia Lorca, numa belíssima versão portuguesa do poeta Eugénio de Andrade e música de José Luís Borges Coelho. Tenho seguido a sua carreira no teatro e sou testemunha do seu crescimento artístico imparável, a estes 50 anos, juntar também os mais de 50 do seu companheiro Jorge Pinto, ultimamente juntos naquela utopia teatral que é o Ensemble-Sociedade de Actores, fundada em 1996. A ambos como irmãos, na amizade e no teatro, os meus parabéns! 

Notas (**) Pasolini: cronaca giudiziaria, persecuzione, morte- Laura Betti (Editor), Poucos dias após a morte de Pier Paolo Pasolini, Laura Betti reuniu um grupo de amigos com o intuito de dar vida a um volume que testemunhasse a experiência dramática do escritor e do cineasta perseguido e em constante luta contra o poder, até o assassinato, cujos mandantes estão sendo procurados.

(*) La lettera di Oriana Fallaci a Pier Paolo Pasolini Salvatore Galeone15 Settembre 2023 Conheçamos Pier Paolo Pasolini através da carta que Oriana Fallaci escreveu ao escritor após sua morte em 16 de novembro de 1975.Oriana Fallaci, la bellissima lettera a Pier Paolo Pasolini

Os Artista Unidos , Companhia Profissional de Teatro, fundada por Jorge de Silva Melo publicou nos seus cadernos as obras de Pasolini: Orgia/ Pocilga (nº 16),Besta de Estilo (nº 17),Calderón (nº 21),Pílades (nº 23)