Nas páginas do JN do Porto, na folha derradeira apareciam as crónicas certíssimas e acutilantes de dois grandes comentadores Manuel António Pina e Manuel Poppe, ambas colunas desapareceram, a do Pina levada pela morte do seu autor a do Poppe, por iniciativa própria (?) ou jornalística.

De ambas tenho boas recordações e algumas as guardo no meu desordenado arquivo. Pina recordava numa delas, a indiferença à morte de um sem-abrigo que “vivia” na praça da República no Porto, sempre com uma garrafa ou pacote de vinho na mão fazendo justiça ao busto do Baco ou ao aéreo Ganimedes que adornavam o jardim. O teatro Pé de Vento que iniciou sua caminhada em 1978 é uma das companhias profissionais de teatro mais antigas e em atividade na cidade do Porto.

“Desde a sua fundação que o Pé de Vento alicerçou a sua direção artística num núcleo impulsionador, constituído pelo encenador João Luiz e pela dramaturgista Maria João Reynaud, a que se vieram juntar, temporariamente, o escritor Manuel António Pina – autor representado desde os primeiros espetáculos – e, um pouco mais tarde, Álvaro Magalhães e Teresa Rita Lopes. O Grupo depois de ter estado sedeado em vários espaços da cidade do Porto, em 1995 celebrou, com a Junta de Freguesia de Aldoar, um Protocolo de Cedência de Instalações, que lhe permitiu abrir ao público, em 1996, o Teatro da Vilarinha. Com a edificação da sala, graças ao financiamento do Ministério da Cultura, do Governo Civil e da Câmara Municipal do Porto e da CCDRNorte, a companhia não só conseguiu manter as correntes de público que tinha anteriormente atraído, como foi fidelizando novos públicos, tanto para os seus espetáculos de teatro, como para os espetáculos de dança, de música e de teatro apresentados por outros grupos, que recebe em regime de acolhimento.”

Em homenagem ao Manuel António pina, a Companhia Pé de Vento, estreou recentemente a peça O Sr. PINA., mas quem é este Sr. Pina o Grupo explica: “ Este senhor gostava muito de gatos, “em cada gato há outro gato”, e adorava deixar as palavras a falar sozinhas. Manuel António Pina foi muitas coisas, e algumas delas ao mesmo tempo, como criança, poeta, jornalista, advogado, cronista ou dramaturgo.

Foi também um dos membros fundadores do Pé de Vento, coletivo que completa em 2018 quarenta anos de atividade e lhe dedica O Senhor Pina, espetáculo-homenagem a um cúmplice de muitas aventuras teatrais. Encenado por João Luiz, diretor artístico da companhia aniversariante, O Senhor Pina parte do livro com o mesmo nome publicado em 2013, com texto de Álvaro Magalhães e desenhos do pintor Luiz Darocha.

Nele, contam-se “maneiras de ser” e episódios da vida de um autor que aqui nos é revelado na companhia do seu herói, o ursinho Puff de As Aventuras de Joanica Puff. “Como é que um poeta com muitos miolos admirava tanto um urso com poucos miolos?”, Pergunta Álvaro Magalhães. O Senhor Pina conta-nos “um bocadinho” desta grande história cheia de pequenos segredos, “sonhos de glória, esperanças, ânsias”. Mas contem também com uns pozinhos de “melancolia” e algumas “recordações de infância”.

Esta homenagem a Manuel António Pina salta para fora do palco no dia 12 de maio, com a realização de uma conversa sobre a sua obra dramática.” (informação do TNSJ) Em 2011 foi atribuído ao Manuel António Pina o Prémio Camões, a mais alta distinção atribuída às letras portuguesas; “Quando atribuem um prémio destes às pessoas é sinal de que vão morrer”, comentou logo na primeira hora com a família), Prémio Camões, um dos mais consensuais de sempre quer por parte do júri quer por parte da crítica e do público.

Mas o sucesso “pré-póstumo”, como diria Musil, do escritor não explica a sua enorme popularidade que chegava a surpreendê-lo, e que decorria evidentemente das suas crónicas e das características críticas e textuais delas, ímpares no nosso jornalismo.” (in Crónica, saudade da literatura/Sousa Dias, Jornal Publico 16/11/12)