Ainda em época natalícia, uma lembrança sobre os presentes.
Numa aula de literatura, eu ainda estava no liceu, falávamos com a nossa professora ,o tema era a literatura fantástica, a ficção científica. Falamos sobre os marcianos, e na possibilidade de existirem outras formas da vida na Galáxia. Às tantas a professora perguntou se nós sabíamos como se chamavam os habitantes da lua…um colega, aquele que existe sempre e nos faz rir, diz oportunamente; lunáticos!…a turma desatou a rir, passada a risota me atrevi a dizer que esses eram designados por selenitas. A professora perguntou, como sabia (?) – a minha resposta foi simples- nos livros. Toda esta introdução para relatar que a nossa geração era instruída pelos livros, pelo cinema, pela rádio, pelo teatro e por tudo aquilo que estava à nossa volta. Não havia mais. Hoje, as coisas são diferentes, e os jovens têm na mão colada no braço uma coisa que na nossa época era impensável. Imaginamos os marcianos como seres verdes (apesar de Marte ser conhecido como o planeta vermelho), de antenas e, em certa forma, parecidos connosco. As selenitas, as imaginei como seres brancos, quase transparentes e femininos. Curiosamente Meliès no seu filme A Viagem à Lua (1902) , mostra os exploradores a dormir rodeados de uma constelação de estrelas femininas , como nos cartazes de Toulouse Lautrec.
Reconheço que os livros foram e são, a minha maior fonte de informação, hoje também ajudada pela net diária, os jornais e artigos de interesse.
Este ano como presentes recebi dois livros da Companhia do Teatro das Beiras, excelentes documentos sobre o percurso, em 25 e 50 anos de atividade, peças encenadas e realizações. Oferta do encenador Fernando Sena.
Também livros editados de teatro da Companhia A Jangada/Lousada, que ilustra os anos de atividade assim como textos editados para a infância de Luís Oliveira , jovem que está a frente da companhia e que foi ,felizmente na minha recordação, o meu aluno no 1º curso de formação do Balleteatro/Porto. A oferta foi após uma visita à Companhia guiado pelo programador Cultural Luís Ângelo da CML. Também dois livros magníficos, sobre o Cómico da Maia, de autoria de José Leitão e Micaela Cardoso, com textos sobre os espetáculos aí realizados nos 30 anos de vida (1994-2025), e finalmente um belo livro do encenador José Caldas sobre as suas encenações e a ligação aos artistas plásticos que o ajudaram a concretizar-lhos- Foi lançado no Festival Cómico de 2025, e antes do fim do ano na UNICEPE, obra ímpar de Rui Vaz Pinto, me pediu apresentar o livro. Destaquei o percurso poético de J. Caldas, obra que no teatro é uma presença plasticamente assumida ajudada por artistas de renome nacional e internacional, ou assumida pelo próprio autor/encenador. Na apresentação do livro falei da minha relação com Brasil, por essa nação irmã ao norte do Chile, que admirávamos como, o melhor país do mundo… e que de repente com a ditadura militar se transformou violentamente no pior país do mundo…lembranças de João Goulart, recebido no Chile (1963) por mais de meio milhão de pessoas um quarto da população de Santiago. Lembrando ainda a minha formação numa escola pública da minha cidade, a Escola nº 2/República do Brasil, e os muitos brasileiros que passaram pelo Chile deixando memórias e cultura. Regressando aos livros, eles nos ajudam, nos acompanham, nos retiram a solidão, nos seguem, servem para guardar flores entre as páginas, romanticamente depositadas por jovens apaixonados. Revi este fim de ano o filme O Leitor (*), que fala de livros e de analfabetismo; um jovem lê livros para uma mulher mais adulta, a sua relação além de carnal e de desejo está cimentada na leitura, ela pede para ouvir e o jovem lê para ela. Mais tarde, ela será acusada de ser vigilante num campo de concentração, julgada no final da guerra e condenada por ordenar castigos e regras discriminatórias, regras que mais tarde sabemos, nunca poderiam ser ditadas por ela, pois não sabe escrever nem ler, e que no momento do julgamento não assume a sua condição de iletrada. Antes de ser liberada, após 20 anos de presídio, na véspera, se suicida, alcançando uma mortal ajuda, (subindo sobre um monte de livros) apoiada nos livros que aprendeu a ler no cárcere, se enforca. Sim, relembrei nesta cena final, que os livros também podem ser mortais. No final do filme, ainda é citado esse autor humanamente indescritível Tchekhov, no seu breve relato A Dama do Cachorrinho, texto que nos atravessa a alma, a mim e, a todos aqueles que alguma vez o leram:
“Comentava-se que na avenida à beira-mar tinha surgido uma cara nova: uma dama
com um cachorrinho. Dmítri Dmítritch Gúrov, que estava em Ialta havia duas semanas
…Sentado no pavilhão do Vernais, viu passar pela calçada da praia uma jovem senhora, loura, baixa, de boina; atrás dela corria um lulu da Pomerânia branco.”
Dia 18 de Dezembro Portugal teve um presente na primeira volta, pena o PM estar no meio da ponte, equidistante entre democracia e radicalismo de extrema direita!


