OS REIS…

“Noite de Reis” é uma das comédias mais populares de Shakespeare, escrita em1599/1601, também está editada como A Noite de Epifania. Na tradição da península ibérica e daquela que herdamos em América latina, os presépios e os Rei Magos, foram uma constante desde a colonização, tradição que se foi perdendo com a chegada do Pai Natal/ Santa Claus, vestido com as cores da Coca-Cola, e o resto da história é conhecida.

Jorge Palinhos, dramaturgo e professor de teatro, atualmente diretor do Curso Superior da Escola Superior Artística do Porto, me enviou um belo relato, no qual lembra os presépios da sua infância; Das várias figuras que compunham esse presépio, as minhas favoritas eram os Reis Magos. Por serem grandes e por estarem montadas em camelos, o que lhes dava um exotismo que as outras figuras não conseguiam igualar. Talvez por causa dessas figuras sempre tive pena que em Portugal se ligasse tão pouco ao dia de ReisPartindo da ideia de que este era um presente para mim, respondi lembrando o conto de O´Henry e o relato de “Os Magos que não chegaram” de Luísa Dacosta (1989). Se eram magos, sábios, astrólogos, não importa, o transcendental foi a intervenção na mais bela historia jamais contada, a historia de Jesus.

O ano que partiu foi um bom ano para a produção teatral, no país e principalmente para Porto e região Norte. Destaco dois Shakespeare no Teatro Nacional, um Hamlet e um Titus Andronicus, a mais difícil e sanguinária peça do Bardo para levar à cena. No teatro independente o Ensemble- nos proporcionou, Vermelho, já analisado, e o espetáculo “Salvação!”  texto inédito de Jacinto Lucas Pires, encenação e cenografia de Jorge Pinto, música e som de Ricardo Pinto. Na ACE – Academia Contemporânea do Espetáculo, idealizada como escola e lugar de representação pelo actor António Capelo, a última produção do dramaturgo Pedro Fiuza, Rio Mau. Um texto difícil de seguir, mas que se apresenta como um ponto de partida para um futuro incerto; É uma espécie de Adão e Eva de tempo nenhum, sem futuro e sem descendência. Duas pessoas que colocam a esperança toda num objeto inatingível, que procuram desesperadamente a salvação, mas que ao mesmo tempo se analisam enquanto fenómenos de linguagem num mundo mais claustrofóbico do que o mundo concreto, uma casa, um palco de teatro.(informação da produção) Dois actores no palco e, para mim, a possibilidade de reencontrar uma actriz que conheço desde miúda, Teresa Vieira, é talvez, sobre ela que recai grande parte do texto e responsabilidade cénica, e ela resolve com destreza, habilidade, voz e talento ao desafio colocado pelo autor/encenador.

Em dezembro, o Teatro Carlos Alberto recebeu a estreia de Carne, coprodução da Noitarder/TNSJ, com texto e encenação de Raquel S. A peça explora os limites da linguagem numa noite de Natal marcada pela ausência e pelo desentendimento familiar; Para muitos, Natal é sinónimo de família. Tempo de união, harmonia e amor. Em Carne, é também sinónimo de amargura, ressentimento e frustração (informação da produção). Peça inédita, um bom momento para o reencontro no palco de António Júlio, Maria do Céu Ribeiro – afastada dos palcos, inexplicavelmente! – e Paula Só.

Hoje no Público de 14/01/26, na crónica de Miguel Esteves Cardoso titulada, Como se veste o imperador nos lembra que: “Estamos todos atolados num subjectivismo virado para dentro, que protege o que pensamos da pior maneira: desinteressando-se pelo que pensam os outros”. Citando como pano de fundo o conto de H.C. Andersen, O Fato Novo do Imperador, conto que calça muito bem na época de campanha presidencial que estamos vivendo. O momento tem servido para lavar a roupa súcia dos candidatos e, se calhar todos vão nus no desfile. Também no Público de 30/10/25, num artigo de João Rodrigo Neto, destacava o programa televisivo, O Preço Certo, que nos acompanha desde 2002, em euros. Com destaque para o papel do animador, Fernando Mendes que com talento tem conseguido manter audiência e os primeiros rating da RTP1- da leitura me fica a sensação que durante uma hora, entre às 19 e às 20, Portugal e os portugueses são felizes…