Isabel Ricardo é uma referência da literatura infantojuvenil, tendo uma vasta obra publicada, em Portugal e no estrangeiro. Recentemente, a editora americana Underline Publishing decidiu apostar nas obras da escritora pelo seu reconhecido valor para a literatura portuguesa, assim como pela qualidade dos seus textos. OS AVENTUREIROS é uma das suas séries de sucesso em Portugal e agora conhece também os caminhos estrangeiros com a tradução de “The Adventurers and the Treasure Cave” (Os Aventureiros na Gruta do Tesouro).

O Jornal AUDIÊNCIA entrevistou a escritora para perceber o que a motiva na escrita infantojuvenil, como se sente ao ser reconhecida internacionalmente, bem como os sonhos e ambições para o seu futuro na literatura.

 

 

Em que momento da sua vida decidiu começar a escrever para os mais jovens, e porquê?

Acho que nasceu comigo o gosto por criar histórias. Já o fazia mesmo antes de saber ler e escrever. Quando era criança costumava pegar nos livros escolares da minha irmã, ia para a janela e fingia que lia. Inventava uma história, com princípio, meio e fim, de tal maneira que as pessoas que passavam na rua ficavam muito surpreendidas e impressionadas por acharem que uma criança com três anos já sabia ler.

Em casa dos meus pais não entravam livros, a não ser os escolares da minha irmã, sete anos mais velha do que eu. Cresci sem que me lessem uma história.

Foi só na festa de aniversário de uma amiga que vi um livro de aventuras e fiquei de tal maneira empolgada, que o devorei enquanto as minhas amigas brincavam e se divertiam.

Aos nove anos inscrevi-me na biblioteca, às escondidas dos meus pais, e trazia livros com as características que me agradavam mais (aventura e mistério). Cheguei a um ponto em que não havia nenhum livro que eu não tivesse ainda lido, até mais do que uma vez. Por isso decidi que, para ter algo novo, teria de ser eu própria a escrevê-lo. E foi o que aconteceu. Nas férias do Verão, quando tinha 11 anos, escrevi o primeiro livro de aventuras. Foi aí que descobri aquilo que eu instintivamente já sabia. O que eu queria mesmo fazer era escrever.

Os meus pais quando se aperceberam que eu, além de gostar de ler, ainda gostava de escrever, sofreram um grande desgosto, pois achavam que eu não era normal.

A partir desse livro, nunca mais parei. Desde livros de aventuras, a romances, passando a livros para os mais pequenitos… Comecei a enviar as minhas histórias para as editoras, escritas à mão, a partir dos 13 anos. Sempre acreditei nas minhas capacidades e nunca desisti, por mais obstáculos que encontrasse, por mais negativas que recebesse, de concretizar o meu sonho mais querido: a publicação de um dos meus livros. A minha persistência finalmente foi recompensada, passados 16 anos, com a publicação de “A Floresta Encantada”, que recebeu um prémio de Cultura e tem uma mensagem ecológica. Brevemente será publicado também em inglês pela Underline Publishing. Atualmente, tenho 30 livros publicados para crianças e jovens e seis para adultos.

A partir de uma determinada altura resolvi escrever para todas as idades, tentando acompanhar os leitores desde pequeninos até adultos e tenho imensos casos de miúdos que cresceram, andam agora na universidade e mesmo assim continuam a adquirir todos os meus livros, mesmo os infantis e juvenis. Outros continuam a adquiri-los também para novos elementos da família. É um orgulho para mim saber que os meus livros passam de geração para geração e continuam a agradar.

 

A série “Os Aventureiros” é um sucesso entre os leitores mais jovens. Em que se inspirou para as aventuras relatadas nos livros?

Idealizei a coleção dos Aventureiros a pedido dos leitores que tinham lido o meu primeiro livro publicado, “A Floresta Encantada”, que entretanto tinham crescido e me pediam para escrever uma coleção de aventuras que fosse diferente daquelas que já existiam no mercado. Lembrei-me daqueles primeiros livros que eu escrevi, que tanto prazer me tinham dado, e decidi fazer-lhes a vontade. E “Os Aventureiros” surgiram. Resolvi manter esse nome, em homenagem ao primeiro livro que escrevi. Encontrei um livro muito antigo que contava a história da Nazaré e o enredo foi surgindo. Em vez de criar personagens novas, inspirei-me nos meus sobrinhos. Também não quis colocar um cão, habitual nestes livros infantojuvenis, e inspirei-me num corvo que pertence a um amigo. Os vilões são também inspirados em pessoas reais e que, de certa maneira, fizeram algo que eu não gostei, ou foram antipáticas para mim.

Os Aventureiros são cinco: os irmãos Tó Jú e Daniel, que vivem na Nazaré, e os primos Bia e Cris, que vivem em Lisboa. O quinto Aventureiro é o corvo João, que pertence à Bia, e consegue imitar tudo e todos com a maior perfeição, originando as situações mais hilariantes.

“Os Aventureiros na Gruta do Tesouro” é o primeiro livro, passado na Nazaré, onde está afundado um submarino alemão da segunda guerra mundial. Os Aventureiros vão envolver-se com dois perigosos homens que procuram um misterioso CD e tudo fazem para lhe deitar as mãos. Estão garantidos muito mistério, ação, suspense e divertimento.

A série OS AVENTUREIROS tem uma função pedagógica na medida em que, além de cativar os mais jovens para a leitura, faz uma divulgação histórica e cultural dos diversos locais onde as ações se desenrolam. Atualmente, a coleção conta já com 14 volumes e estes jovens destemidos já andaram pela Nazaré, pelos castelos e mosteiros da região centro (mosteiros de Alcobaça e Batalha, castelos de Torres Novas, Tomar, Ourém, Leiria, Pombal, Porto de Mós, Óbidos), Serra da Estrela, Bragança, Sesimbra, Setúbal, Campo Maior, Elvas e Évora, e este último o enredo decorre em Vila do Bispo e Sagres. Já tive nas mãos a espada de D. Afonso Henriques, entrei num submarino, explorei grutas inacessíveis ao público, conduzida por um grupo de espeleólogos, tive o privilégio de consultar livros raros na Torre do Tombo e na Biblioteca Nacional

Nos meus livros procuro transmitir conhecimentos que estimulem a imaginação e a capacidade de raciocínio, com a aquisição de variados conhecimentos e incutir aos leitores valores humanos que considero importantes, tais como a tolerância, o direito à diferença, a cooperação, a inclusão, a amizade, o respeito pelos outros, a solidariedade. Enfim, os valores essenciais para uma harmoniosa vida em sociedade.

Vou sempre visitar os locais onde vai decorrer a história para melhor captar o ambiente e o transmitir a quem vai ler o livro. O meu objetivo principal é cativar os mais novos para a leitura e proporcionar-lhes o encanto e o entusiasmo que eu sentia quando tinha a idade deles.

 

Recentemente a editora americana Underline Publishing apostou em si e nas suas obras ao publicar “The Ghost of theTurn Underpants“ (O Fantasma das Cuecas Rotas)  e “The Adventurers and the Treasure Cave” (Os Aventureiros na Gruta do Tesouro). Como se sente com o facto dos seus livros chegarem a outros cantos do mundo? Há já perspetivas de traduzir mais livros?

Como deve imaginar, estou extremamente feliz porque é a concretização de um sonho antigo, ter os meus livros publicados em outras línguas. Saber que irão para as mãos de tantas crianças e jovens por todos esses países que falam inglês, promovendo Portugal, a sua língua, a sua História e a sua cultura.

Acrescido a isso é o facto de me sentir muito honrada por dois dos meus livros, entre 225 propostas de 44 países, terem sido escolhidos para serem apoiados à tradução pela DGLAB – Direção Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas e o Instituto Camões, no âmbito do LATE – Linha de Apoio à Tradução e Edição 2020. É sobretudo prestigiante o reconhecimento do meu trabalho.

Em Maio foi publicado, em capa mole e capa dura, “The Quest for the Lost Map” (Em Busca do Mapa Perdido), também apoiado à tradução pelo Late“. Ainda este ano sairão mais livros, não só em inglês, mas também em espanhol e francês.

 

É presença assídua em escolas e bibliotecas. Como é a receção das crianças/jovens a si e, mais especificamente, à leitura?

Da melhor forma possível; com muita alegria e emoção, afeto, curiosidade e admiração. É extremamente gratificante estar com eles, porque a relação de proximidade é muito grande. Costumo dizer que devo ter os melhores leitores do mundo! Sou sempre recebida com muito entusiasmo, calor e simpatia. Eu adoro o contacto com os leitores e acho que eles sentem isso.

Troco mensagens de telemóvel, e-mails e telefonemas com eles, porque é uma forma de receber o feedback. E tenho sempre surpresas muito agradáveis!

O amor pelos livros pode ser contagiante, sobretudo quando causa grande entusiasmo, ao ponto de ser transmitido de pessoa para pessoa… Para mim é muito importante partilhar o que escrevo com os leitores e ter a noção de que o livro lhes vai interessar, ao ponto de se tornarem meus leitores fiéis.

Na minha trajetória enquanto escritora, já fui ao encontro de novos leitores que não tinham qualquer apetência para a leitura e que encontraram nos meus livros o prazer de ler e a capacidade de os ajudar a descobrir novos horizontes e isso é extremamente gratificante para um escritor. Saber que de alguma maneira contribuímos para o enriquecimento pessoal de uma criança/jovem/adulto.

Muitos professores recomendam os meus livros aos alunos com aversão à leitura, tendo por experiência que “Os Aventureiros” os conseguem cativar. Tenho tantos casos que encheriam várias páginas com essas narrativas. Muitas escolas trabalham os meus livros e depois sou convidada a estar com os alunos e é sempre uma imensa alegria para eles e para mim também.

O sentido de humor é uma das características que me define e que aponto como estruturante dos meus livros. Esse, aliado ao mistério, aventura e suspense, são os principais ingredientes que gosto de polvilhar ao longo dos enredos, seja para crianças ou para adultos.

 

Que conselhos daria aos pais que querem criar hábitos de leitura nos filhos desde cedo? A partir de que idade e de que forma isso pode e deve ser feito?

É muito importante que os pais consigam tirar uns minutos, mesmo que tenham uma atividade muito atarefada, para lerem livros aos filhos, pelo menos, ao deitar, sempre um bocadinho. Isso é meio caminho andado para as crianças crescerem com os livros, a gostarem deles e a tornarem-se bons alunos. Não é à toa que os melhores alunos são excelentes leitores. Todavia, e não menos importante, é também a escolha do primeiro livro que a criança vai ler, porque se não estiver interessante e atrativo a criança pode criar aversão aos livros. Os pais devem escolher muito bem esse livro. Deve ser divertido, emocionante, cativante e transmitir algo importante, pois o livro é uma ferramenta essencial na formação e educação da criança, pois pode transmitir-lhe bons valores.

A maioria dos pais atualmente têm muito pouco tempo para estar com os filhos e estes estão demasiado tempo na escola. No entanto, estes pais transmitem e proporcionam aos filhos algo que as anteriores gerações não tinham possibilidade. Por exemplo, eu em criança tinha de ler e escrever às escondidas dos meus pais, porque eles não viam isso com muito agrado, pois não compreendiam aquela minha necessidade de escrever e devorar todos os livros que apanhava pela frente… Nos tempos atuais, já há mais pais a incentivarem os filhos a ler e a expressar os seus dons, os seus gostos, o que é excelente.

Nas escolas encontro sempre muitíssimos leitores que adoram ler, vibram com os livros. As Educadoras fazem um excelente trabalho desde muito cedo com as crianças, lendo-lhes histórias, dinamizando-as, despertando-lhes o interesse em as ler. Os professores também fazem um trabalho muito louvável no mesmo sentido. Em casa esse trabalho também deve ser feito, pois é lá que deve ser o início de tudo.

Na minha opinião, as crianças devem ter contacto com os livros o mais cedo possível, até de tenra idade. Ouvir contar histórias é muito importante.

 

Com uma carreira tão consolidada, que sonhos ainda tem para alcançar no mundo da literatura?

Continuar a publicar muitos mais livros e que fiquem acessíveis a todas as crianças, jovens e adultos.

Um dos meus sonhos é ter os meus livros publicados no maior número possível de países e em todas as línguas.

Para mim os livros sempre foram mágicos, proporcionando-me sensações maravilhosas, de descoberta, de viagens, de sentimentos… Sinto a mesma magia desde sempre. Não se alterou ao longo dos anos. Quero sempre transmitir essa emoção aos meus leitores desde pequenos e continuar a encantá-los, a entusiasmá-los e a cativá-los para a leitura.

Uma parte de mim continua a ser uma criança que adora aventuras, mistério, suspense e rir a bandeiras despregadas.

 

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