Sem mais delongas, devido à sua extensão, passamos a revelar a prova inaugural do nosso torneio de iniciação, cuja proposta de solução deve ser enviada para o orientador na secção no prazo máximo de 15 dias, após a sua publicação, através do email salvadorpereirasantos@hotmail.com.

 

TORNEIO DE INICIAÇÃO A. RAPOSO

Prova nº. 1

“A Morte Dança o Bolero”, de A. Raposo

Meus caros amigos. Esta história não lembra ao diabo. Faz parte das minhas memórias e só me propus contá-la muito pressionado pela tertúlia dos policiaristas que frequentam, nas últimas quartas feiras de cada mês, o restaurante da avenida da Liberdade, em Lisboa.

Como sabem que estou reformado da Judiciária, andam sempre a espicaçar-me, forçando-me a contar casos complicados. São, aqui para nós uns sádicos… Como já não está em segredo de justiça, proponho-me contar esta triste história.

Estava eu em serviço, naquela tarde, já lá vão uns anos, ocupava na Judite o lugar de detetive. Durante a minha carreira, cheguei a ter alguns sucessos, poucos, e muitos amargos de boca… Para quem não saiba, o meu nome é Tempicos. Detetive Tempicos.

Nesse dia fui chamado a Telheiras, junto à Escola Alemã, a uma vivenda de vários pisos, e com um pequeno jardim envolvente. Nessa data ainda não existia na zona um enorme edifício tipo Coliseu Romano, também para a prática desportiva e decorado que foi com uma coleção riquíssima de estonteantes azulejos coloridos, que fazem as delícias dos amblíopes do Lumiar.

Fui chamado para investigar um caso de morte, na pessoa do capitão Magalhães, homem dos seus sessenta e tal anos, militar reformado.

Quando entrei, deparei com os dois sobrinhos do capitão que viviam com ele, juntamente com uma velha criada. Um jardineiro ia de vez em quando tratar do jardim.

A história do capitão Magalhães é de uma tristeza tal que faria chorar as pedrinhas da calçada. Vejam só. O homem servira o País no exército, tendo cumprido várias missões em África, até que, com o 25 de Abril, regressou e encontrou a mulher com uma doença daquelas que não perdoam. O seu único filho, já adulto, que tratara da mãe, resolveu abreviar-lhe o sofrimento e enfiou-lhe uma dose bem aviada de tranquilizantes, pelo que ela ficou definitivamente tranquilizada! O médico desconfiou… e, resumindo, o rapaz acabou apanhando dez anos de prisão. Provou-se e ele confessou que tinha morto a mãe, por piedade. O juiz que não encontrou nenhum decreto piedoso ferrou-lhe a dose.

O capitão Magalhães era um homem de formação militarista, conservador e católico ferrenho. Não perdoou ao filho aquele ato. Com o conhecimento de todos, fez testamento a favor do sobrinho mais velho, tendo alegado o artigo 2166 do código civil para retirar a parte “legítima” ao seu filho. Segundo a versão dos sobrinhos, o tio resolveu acabar com a vida. Para pôr em prática tal desiderato, subiu à sua sala, no 1º andar, um misto de biblioteca e auditório de música, e deu um tiro na boca, embalado no som rítmico do Bolero de Ravel, utilizando a sua arma de guerra, que trouxera de Angola, uma Walter, que não foi devolvida ao exército e que ficou como recordação.

O sobrinho mais novo contou depois que na altura navegava na “net” no andar por cima da biblioteca. Por volta das 3 da tarde começou a ouvir o Bolero de Ravel. No decorrer da execução musical não ouviu qualquer outro ruído. Só soube do caso quando foi alertado pelo irmão que foi ter com ele à sua sala, já o tio estaria morto e a polícia avisada.

O irmão mais velho contou também a sua versão do caso. Estava a carpinteirar na cave, preparando umas tábuas para produzir um pequeno móvel, usando a sua alisadora elétrica nas madeiras. Apercebeu-se perfeitamente do início da música que o capitão começou a tocar no gira-discos. Era o Bolero de Ravel que o seu tio tanto gostava e que punha muitas vezes no ar. Lá para o final da música, que anda demora um bom quarto de hora, ouviu um tiro e um ruído como de um corpo a cair no chão. Largou tudo e correu subindo à biblioteca, à sala do tio. Pela enorme ferida que observou na nuca e por o corpo se encontrar imóvel, percebeu que a morte fora instantânea. Saiu, fechou a porta à chave, meteu esta no bolso e correu ao telefone da casa, o único, que se encontrava junto à porta da rua. Depois foi avisar o irmão e a velha criada.

A criada, coitada, estava na cozinha a tratar das panelas. Ouviu a música e só depois o sobrinho do capitão lhe contou o sucedido. A cozinha ficava no rés-do-chão ao fundo da casa.

O jardineiro que esteve toda a tarde a tratar dos canteiros, deu uma boa contribuição ao caso. Contou que também ele era melómano. Chegou a estudar música na sua terra natal. Viu o capitão chegar à janela, fumando um cigarro e percebeu logo que ia haver concerto. O capitão deixou a janela meio aberta e iniciou o Bolero de Maurice Ravel. Sabia que a execução demorava um pouco mais de 16 minutos e sabia porque fora ele que oferecera o disco ao patrão quando este fizera anos. Havia gravações que demoravam um pouco menos, mas esta era tocada pela Orquestra Filarmónica Europeia tendo como maestro H. Greenburg. Na parte final, já com todos os instrumentos em pleno, no intervalo do bater dos pratos, ouviu um barulho que lhe pareceu um tiro. O seu ouvido garantia que aquela nota de ruído não tinha sido escrita pelo compositor… Por isso é que largou as flores e foi bater à porta da frente, saber do caso, e, afinal com toda a razão, porque teria havido o eventual suicídio do capitão.

O cenário da morte era um tanto violento, mesmo para quem tinha como eu tanta prática. No primeiro andar, numa ampla divisão tipo biblioteca/sala de música, um sofá estava estrategicamente colocado frente às colunas e ao conjunto sintonizador-amplificador-toca discos.

Uma única janela, meio fechada. Um grosso tapete persa ocupava toda a sala. Umas estantes com livros rodeavam a zona da aparelhagem musical. A parede por detrás do sofá tinha alguns pequenos quadros de motivos africanos.

O corpo do capitão jazia de bruços na espessa alcatifa. Um buraco enorme e muito feio na nuca, por onde a bala saiu, juntamente com muito sangue. A arma – uma Walter – de guerra, ficara por debaixo do corpo. A bala que saiu foi alojar-se na parede por detrás do sofá, a cerca de um metro e oitenta do rodapé. Os braços junto ao corpo. A morte teria sido instantânea. Uma cápsula foi encontrada debaixo do sofá. O CD de Ravel encontrava-se ao lado da respetiva caixa, sobre o “compact disc-player”. O aparelho estava ligado, bem como o amplificador.

Este caso, na época deu muita celeuma na polícia. O que me valeu foi que na altura as televisões ainda não andavam atrás dos casos de polícia, como de pão para a boca. Por causa dele tive uma série de aborrecimentos com a chefia e acabei pedindo a reforma antes do tempo (ou seriam eles que ma deram?), mas isso já não interessará aos nossos amigos confrades…

Peço-vos a solução do caso e, já agora, digam-nos quem irá herdar a vivenda do capitão Magalhães, sabendo que ele fez testamento e a sua família se resumia aos que entraram na história.

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