PROMESSAS ELEITORAIS E A DESERTIFICAÇÃO DO CENTRO HISTÓRICO

Após alguns tímidos desmentidos, Luís Filipe Menezes assumiu-se finalmente como candidato do PSD/CDS/IL à presidência da Câmara Municipal de Gaia, função que aquele ocupou entre 1997 e 2013, ano em que decidiu partir à conquista da Câmara do Porto, não sem antes fazer saber que defendia a fusão daqueles dois municípios, criando assim “a maior cidade de Portugal” (sic). Por essa altura havia também sido um dos principiais defensores da famigerada Lei Relvas, afirmando concordar não só com a fusão da maioria das freguesias do concelho previstas naquele diploma, como fez saber que “iria um pouco mais longe” no número de autarquias a agregar se fosse ele a decidir. Passados 12 anos, ei-lo que ambiciona de novo o lugar que deixou, numa altura em que o concelho volta a ter as 24 freguesias de então, mantendo-se independente da cidade do Porto e… preservando a sua identidade única.

            Na sua imensa diversidade territorial e cultural, rica em costumes e tradições, onde o bairrismo e o cosmopolitismo convivem em harmonia, com a sua gente em perfeita comunhão com quem nos visita, não procurando aculturar ninguém e interagindo sem complexos com todos, Vila Nova de Gaia vai novamente a votos no próximo mês de outubro, com os olhos postos num futuro que ambiciona e permanece adiado, pese embora todas as promessas feitas ao longo dos anos da nossa “jovem” Democracia, não ignorando, porém, as muitas transformações realizadas e os inúmeros avanços alcançados nos vários domínios da gestão autárquica, nomeadamente em medidas no âmbito da mobilidade, da higiene e saúde pública, da educação e nas ofertas sociais e culturais, que representaram profundas alterações na vida da população. Luís Filipe Menezes, um desses obreiros, escolheu um hotel de luxo da Beira-Rio de Gaia para recordar a sua obra e elencar um conjunto de promessas.

            Numa sala apinhada de gente, prometeu as melhores relações com o município do Porto (talvez meio envergonhado com as suas guerras de alecrim e manjerona do passado com o edil da cidade vizinha), visando “novos atravessamentos que desbloqueiem as pontes da Arrábida e do Freixo, a animação conjunta do rio Douro com a realização de mais eventos bi-citadinos, para além do S. João, e a recuperação física funcional da Ponte D. Maria”. Sem surpresa, propõe-se ainda “repor as duas faixas de circulação em ambos os sentidos na Avenida da República” e fazer “um corte com a empresa metropolitana Unir”, trazendo como novidade a “criação de dois campus universitários residenciais no miolo central da cidade em terrenos municipais, a atribuição de 600 bolsas a estudantes do ensino superior e 200 estágios remunerados nas empresas municipais”, assim como… “a construção de 4.000 casas por mandato com rendas acessíveis e controladas, 40% delas no interior e sul de Gaia”.

Será que algumas destas casas serão construídas no miolo do Centro Histórico, que foi sendo desertificado por influência direta de Luís Filipe Menezes nos anteriores mandatos, gerando a sua descaracterização, em resultado também da enorme especulação imobiliária e pressão sobre alguns moradores para abandono das suas habitações, visando a criação de unidades de alojamento e de novos hotéis? Situação que tem vindo a transformar o local num espaço atrativo apenas para a fruição de turistas de curta permanência ou para gozo de fins de semana de gente de outras paragens, com prejuízo para a preservação da sua identidade. Para reverter tão negro quadro, é necessário que este coração da cidade seja revitalizado pelo pulsar de um povo que ali viva todos os dias, porque um lugar histórico sem habitantes fixos, basicamente servido por populações flutuantes, é um local com história, mas moribundo!

Só com uma população autóctone é possível criar condições para o desenvolvimento e a preservação de um equilíbrio ambiental, paisagístico e arquitetónico fundado nas raízes da sua memória mais remota, de maneira a permitir que este nosso património histórico sobreviva à voracidade dos que apenas querem ali fazer negócio ou viver da especulação imobiliária! É indispensável, por isso, que se invista fundamentalmente na reabilitação das velhas casas, mantendo a população que ainda por ali vive e promovendo o regresso prometido de habitantes que foram realojados em bairros sociais noutras zonas em que se sentem desenraizados, atraindo, simultaneamente, famílias de classe média e jovens casais em início de vida em comum, proporcionando custos de habitação acessíveis, de acordo com o perfil social e os rendimentos de cada agregado. Isto porque a nossa memória cultural não é apenas constituída por monumentos, outros edifícios históricos ou paisagens singulares. As pessoas, as comunidades, são bens patrimoniais que acrescentam real valor aos lugares!

O investimento no futuro tem de ter como suporte uma “moeda” forte com duas faces distintas, e às vezes aparentemente antagónicas, mas que se completam e se potenciam mutuamente: o passado e o presente! Não podemos apagar do amanhã o que o passado nos legou. Só é possível projetarmo-nos no futuro se o fizermos de forma articulada e positiva, inserindo-nos na alma e na história do Lugar sem violar o seu carácter. Urge, pois, que se combata a desertificação do Centro Histórico, que se animem os seus edifícios e espaços públicos, e que se promova a história que habita nas suas casas, ruas e vielas, preservando o inestimável valor simbólico da nossa memória coletiva e o significado histórico do Lugar.