Realizou-se, no passado dia 13 de abril, no Teatro Ribeiragrandense, uma conferência promovida pelo PSD/São Miguel, sob o tema “A Democracia na Comunicação Social”. O debate teve moderação do jornalista Osvaldo Cabral e contou com os convidados oradores Victor Alves, sub-diretor da RTP/Açores e Joaquim Ferreira Leite, diretor do Jornal AUDIÊNCIA.

O evento contou ainda com as participações de Alexandre Gaudêncio, presidente da Câmara da Ribeira Grande e presidente do PSD/São Miguel, que explicou que esta iniciativa se enquadrava “num desafio lançado pelo líder do partido às estruturas locais, para promover debater abertos à comunidade em geral, e que possam ser importantes contributos para novas políticas que, efetivamente, melhorem o dia a dia dos açorianos”.

O objetivo principal do debate esteve ligado à preocupação do PSD nos Açores de se inteirar das reais dificuldades dos vários setores da sociedade. “Em São Miguel pretendemos iniciar esse ciclo de debates com a comunicação social. A ideia é nos inteirarmos das preocupações da profissão, o que está mal e qual a visão sobre o futuro”, afirmou Alexandre Gaudêncio.

O encerramento desta iniciativa esteve a cargo do líder do PSD Açores, Duarte Freitas, que agradeceu à Comissão Política regional de São Miguel ter aceite este desafio de criar “diálogos” não só com os experts de várias áreas mas também com a população em geral, e confessou mesmo que, se calhar, ele próprio era “verdadeiramente, produto da comunicação social”.

“Não por ser político, mas porque o meu pai foi o primeiro locutor profissional da Rádio Clube de Angra, e a minha mãe foi estudar para a ilha Terceira e, na altura, nos princípios dos anos 60, os locutores da rádio, eram quase uns atores de cinema e a minha mãe sem conhecer o meu pai pessoalmente apaixonou-se pela voz. E por isso, inscreveu-se num curso que havia para conhecer o homem por trás da voz. E daí, estou eu aqui. Portanto tenho muito a ver com a comunicação social”, referiu o líder do PSD Açores.

Além da parte familiar, Duarte Freitas lembrou que ele próprio ficou com o “bichinho” da comunicação social, tanto que, mais tarde, fundou a Rádio Cais e o Jornal do Pico, tendo ainda participado com Rui Goulart, Manuel Tomás e Sima Santos no programa “Jantares de Segunda”, precisamente na Rádio Pico.

“Assim, estas são algumas das minhas relações pessoais com a comunicação social, que é uma área que me interessa bastante, pessoalmente, mas também em função daquilo que é a minha evolução, quer seja vocacional quer seja naquilo que é a minha ação hoje na área da política. É por isso que tenho grande atenção àquilo que são as tendências, até internacionais, que se vão verificando”, afirmou.

Sobre a comunicação social, Duarte Freitas deixou ainda duas sugestões a todos os presentes para que vissem o filme “The Post”, sobre “uma época da comunicação social e sobre os grandes princípios que presidiam às grandes decisões da comunicação social”, e que lessem o livro “Fogo e Fúria”, de Michael Wolff, que conta a historia dos primeiros tempos do Donald Trump na Casa Branca e que “põe em causa, de alguma forma, a maneira como vemos a comunicação social”.

“É um filme e um livro que nos despertam a reflexão para o que se passa no mundo da comunicação social. Se foram os yuppies e a comunicação social das duas costas dos EUA que elegeram Clinton, se foi a internet e o Facebook que elegeu Obama, como é que explicamos que Trump tenha sido eleito?”, questionou o líder social democrata.
Para Duarte Freitas, a própria comunicação social tem de se questionar “o que é que se está a passar, não é só autorregular-se, isso é importante, mas também autoquestionar-se” e, apresentando o caso americano, demonstrou que os Açores são também um caso de estudo.

“Há uma coisa que como político me pergunto e sempre perguntei que é, o que é que faz comunicação nos Açores? O que passa da informação nos Açores?”.

Respondendo à sua própria questão, Duarte Freitas acredita que há “teorias para tudo” e destaca a importância da RTP Açores e da Antena 1 Açores. “Devemos muito da nossa identidade à RTP Açores e à Antena 1 Açores e precisamos deles até pela fragilidade dos órgãos de comunicação social privados. Tem de haver aqui uma tendência para o equilíbrio porque a comunicação social é, de facto, o quarto poder”.

Mas, em termos políticos, o líder social democrata acredita que há mais variáveis a considerar, dado que cada ilha tem a sua própria forma de receber as mensagens. “Dentro do partido, confesso que nos perguntamos como fazer para passar a informação. Porque, por exemplo, em São Jorge, temos de mandar folhetos em papel para casa das pessoas mas noutras ilhas os nossos políticos dizem-nos que não vale a pena porque as pessoas os deitam ao lixo. Porquê? Por que é que, muitas vezes, parece que os nossos imigrantes veem mais o telejornal do que os açorianos? Eu às vezes fico com essa sensação”, afirmou.

“O que é que faz a informação nos Açores? É a grande pergunta. É a Antena 1? É a RTP? São as rádios locais? São os jornais em papel ou digitais? Os Açores nesse aspeto são muito difíceis de caracterizar. Já estudei muito a matéria, já pedi ajuda a muitas pessoas para estudarem, mas é muito difícil de chegar a uma conclusão”, referiu Duarte Freitas.

Dando outro exemplo, o presidente do PSD Açores lembrou que, enquanto só havia um canal de televisão, o PSD esteve 20 anos no poder, enquanto agora, que existem inúmeros canais, o PS está há 20 anos no poder. “Então não era pela televisão estar a fazer nada de especial em favor do partido que estava no poder. E nem é por causa disso que o atual partido está no poder. Não estou a tirar conclusões, estou a fazer reflexões. Porque acho que, verdadeiramente, nos Açores como, se calhar, em todos os sítios do mundo, a comunicação social é essencial, mas há qualquer coisa de impercetível nas movimentações das reflexões das pessoas que não conseguimos, de todo, detetar por aquilo que vemos na comunicação social escrita, falada, televisionada e agora a digital. Há qualquer coisa que ultrapassa. E no caso dos Açores, o que é?”.

Para Duarte Freitas há outra coisa que pode ser considerada, que tem a ver com o peso não só do poder político mas também do poder financeiro. “Há quem estime que 60 a 70 por cento do dinheiro que circula nos Açores, de alguma forma, passa pelo Governo Regional, tanto no passado como agora. Será que é a comunicação social que está em causa, ou o poder político e financeiro? E isso leva-nos a outra coisa, que é esse poder. O GaCS e os assessores de comunicação do Governo Regional tem um peso de cerca de 1 milhão de euros. E sabem que no GaCS, nesta máquina publicitária, existem tantos jornalistas como as redações de todos os jornais diários dos Açores? Ora, assim, é muito difícil passar a mensagem de quem é oposição”, afirmou.

Para finalizar, Duarte Freitas garantiu que, pelo menos, uma coisa tem a certeza. “Quer seja na política, quer seja na comunicação social ou em outra atividade em que nos empenhos, devemos fazê-lo sempre, a 100 por cento, em função das nossas convicções e em função da dignidade que devemos honrar a nos próprios e aos outros. Assim, seremos cidadãos, assim a comunicação e a democracia serão certamente muito mais valorizadas”, concluiu.

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