REABERTURA DA CASA BARBOT

Na Avenida da República, em pleno coração de Vila Nova de Gaia, ergue-se um dos edifícios mais singulares e simbólicos da cidade: a Casa Barbot.

Construída em 1904 por iniciativa de Bernardo Pinto Abrunhosa para sua residência familiar, tornou-se, ao longo das décadas, um verdadeiro testemunho da história, da arquitetura e da identidade cultural de Gaia.

A Casa Barbot distingue-se por ser o mais relevante e praticamente único exemplo de arquitetura Arte Nova no concelho.

Na fachada, nas varandas e nos elementos decorativos convivem influências francesas, orientais e neoclássicas, criando uma linguagem estética rara e marcante.

Em 1945, o edifício passou para a família Barbot, nome pelo qual ficaria definitivamente conhecido, preservando grande parte da sua traça original, apesar das profundas transformações urbanas da envolvente.

O reconhecimento do seu valor histórico e arquitetónico levou à sua classificação como Imóvel de Interesse Público, em 1982.

Em 2006, o Município de Vila Nova de Gaia, sob o executivo liderado pelo Presidente Dr. Luís Filipe Menezes, adquiriu o emblemático edifício.

Em 2007, com o pelouro da Cultura sob a responsabilidade do vereador Mário Dorminsky, a Casa Barbot passou a acolher os serviços culturais do município.

Posteriormente, já sob a tutela do vereador Delfim Sousa, afirmou-se como Casa da Cultura e como um espaço de referência na programação artística e cultural da cidade.

Em 2017, após um período de atividade reduzida e de acesso praticamente restrito aos serviços municipais, a Casa Barbot encerrou para obras.

Seguiram-se nove anos de portas fechadas: três de intervenções no edifício e seis de crescente abandono e degradação.

Importa, contudo, esclarecer que esse abandono não pode ser confundido com falta de empenho dos técnicos responsáveis, que durante anos acompanharam a situação com preocupação e impotência.

O problema foi político: a cultura, a preservação do património e a reabertura da Casa Barbot ao público nunca foram prioridades.

A 4 de Novembro de 2025, dia da tomada de posse do Presidente Dr. Luís Filipe Menezes e do novo Executivo; a Casa Barbot encontrava-se fechada.

Poucos sabiam o que se passava no seu interior e qual era o seu estado de conservação.

A 1 de Dezembro de 2025, assumi a missão de acompanhar o Presidente e este Executivo na exigente tarefa de reconstrução da cidade e da cultura em Gaia.

Trazia comigo, entre muitos outros projetos, uma inquietação profunda: perceber o que se passava dentro da casa mais exuberante da cidade.

Depois de alguma investigação e persistência, conseguimos finalmente entrar no edifício.

O cenário encontrado foi desolador.

Apesar das profundas e avultadas obras de restauro realizadas entre 2017 e 2019, a casa permanecia encerrada há mais de seis anos.

Quando abrimos as portas, o cheiro a bolor era intenso.

Tudo estava coberto de pó.

Tinham ocorrido inundações que destruíram parcialmente tetos.

O edifício encontrava-se num estado acelerado de degradação.

Mandámos limpar, arejar e avaliar o verdadeiro estado do imóvel.

Foram identificados vários problemas graves: ausência de água e saneamento, tetos danificados, falhas elétricas, atos de vandalismo, jardins abandonados e cheios de lixo.

Duas salas apresentavam danos particularmente graves provocados pela humidade, exigindo uma intervenção especializada devido à destruição dos trabalhos de estuque nos tetos.

Avançámos de imediato com todos os procedimentos necessários para concretizar as reparações possíveis.

Quem conhece o funcionamento da Administração Pública sabe que muitos processos são inevitavelmente lentos, burocráticos e exigentes.

Perante esta realidade, tomámos uma decisão arriscada, mas que consideramos justa e necessária: a Casa Barbot não podia continuar encerrada indefinidamente.

Gaia precisa de reencontrar este espaço no seu imaginário coletivo.

Decidimos reabrir a Casa Barbot ao público.

Desafiámos a equipa a preparar, em apenas três meses, a sua inauguração.

O objetivo foi definido, abrir aos 200 dias de Mandato.

No Sábado, dia 23 de maio haverá uma cerimônia de abertura simbólica e institucional.

No Domingo, dia 24 de maio, a partir das 10h, a Casa Barbot abre finalmente as portas ao público, com a inauguração da exposição do artista Manuel Casimiro.

As intervenções de restauro no interior avançarão em setembro e serão realizadas com a casa aberta.

A obra de Manuel Casimiro dialoga profundamente com a memória, o património e a contemporaneidade.

O artista reinterpreta imagens, símbolos e referências da história da arte através da sua linguagem visual singular, marcada pelos seus ovoides cromáticos, que questionam o olhar, o tempo e a própria perceção.

Há algo de profundamente simbólico neste reencontro entre a Casa Barbot e a obra de Manuel Casimiro.

Também esta casa parece transportar dentro de si muitas vidas, histórias e realidades de outros tempos, que se cruzam e se fundem num único espaço e num único tempo, quase como uma verdadeira máquina do tempo.

Os trabalhos mais complexos continuarão a ser realizados por fases, mas com a casa já devolvida aos gaienses, para que todos possam usufruir e admirar um património que pertence à cidade.

Porque este espaço não é de alguns privilegiados. É um espaço de todos e para todos.

Hoje, a Casa Barbot dispõe já de água e saneamento plenamente funcionais. Foram resolvidos os problemas elétricos e recuperada a iluminação interior e exterior do edifício.

Os jardins foram igualmente limpos e requalificados, devolvendo-lhes condições mínimas de dignidade para que possam voltar a ser vistos, percorridos e vividos pelas pessoas.

Numa segunda fase, ainda durante este ano, avançarão os arranjos exteriores definitivos, incluindo a criação de uma cafetaria nos anexos existentes e uma esplanada no jardim. Um espaço pensado para garantir permanência, convivência e vida contínua, permitindo que a Casa Barbot seja não apenas um local de visita ocasional, mas um verdadeiro ponto de encontro da cidade.

Muito continuará a ser feito para devolver à casa todo o seu esplendor. Mas, para já, o mais importante é devolver-lhe a vida.

A visão para a Casa Barbot deve ser ambiciosa, contemporânea e profundamente humanista. Este espaço deve afirmar-se como um centro cultural polivalente, aberto à pintura, escultura, fotografia, instalação, música, performance, pensamento e debate. Um lugar onde a arte aconteça nas salas, nos corredores, na escadaria interior, nos jardins e em todos os espaços da casa.

Mais do que um edifício, a Casa Barbot deve tornar-se um organismo vivo da cidade. Um ponto de encontro entre artistas, cidadãos, escolas, associações e novas gerações criativas. Um espaço de criação, reflexão e liberdade.

Gaia possui património, talento e capacidade criativa para construir uma vida cultural cada vez mais forte e afirmativa. A Casa Barbot pode e deve ser um dos grandes símbolos desse caminho. Porque reabrir a Casa Barbot é mais do que recuperar um edifício.

É devolver à cidade um lugar de memória, de encontro e de futuro.

Esta equipa, este Executivo e este Presidente Dr. Luís Filipe Menezes, são assim: persistentes, trabalhadores, lutadores e sonhadores.

Porque, afinal, “é o sonho que comanda a vida”.

Vila Nova de Gaia é uma cidade de artistas, escultores, pintores e músicos, que merecem ter o seu espaço na cidade. Esse caminho começa agora com a Casa Barbot — uma casa aberta à criação, à cultura e ao talento gaiense.

Tenho muito orgulho em fazer parte desta equipa, que trabalha diariamente com dedicação e sentido de missão por Gaia. Importa sublinhar que este esforço foi realizado, maioritariamente, por equipas internas de enorme valor e competência nomeadamente das oficinas, relevo também o contributo generoso de alguns gaienses que disponibilizaram o seu tempo, conhecimento e experiência para ajudar a pensar soluções e tornar possível este resultado.

Quero deixar um agradecimento sincero a todos os que contribuíram, mesmo perante dúvidas, obstáculos e dificuldades, arregaçaram as mangas para devolver a Casa Barbot à cidade.

Ao meu chefe de gabinete, Dr. Pedro Meira, que acreditou em mim desde o primeiro dia; ao arquiteto Pedro Cavadas, companheiro na Cultura em Gaia, pela paciência com a minha constante ansiedade; à Joana Oliveira e a toda a equipa da Cultura; ao Eng.º António Mota, um homem de soluções, capaz de motivar toda a equipa de trabalho; ao Arq.º Serafim; ao Professor Poças Martins; ao Professor Nuno Oliveira; Eng Jorge Conde; à arquiteta Cristina, que sei o quanto sofreu ao ver a “sua” obra permanecer durante demasiado tempo num estado de abandono; ao Eng.º Sérgio Novoa; e aos arquitetos Filipe Silva e Nuno Alcobia.

Uma palavra de agradecimento também ao nosso vice-presidente, Firmino Pereira, por disponibilizar as equipas necessárias, e ao nosso presidente, pela confiança e pela coragem de permitir avançar com esta reabertura. Desejo sinceramente que este seja o pontapé de saída para grandes realizações na cultura de Vila Nova de Gaia uma cidade que está, verdadeiramente, a avançar.

Simão Pedro

Artquiteto